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Autor. Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Depois dos livros, os vídeos. Cada vídeo nosso é uma aula grátis para o robô com quem nos vamos cruzar

4 ago, 14:40
Robôs humanoides EngineAI T800 em exposição após terem saído da linha de produção numa fábrica em Zhengzhou, China, a 24 de julho de 2026 (VCG/Getty Images)
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Cada vídeo que publicamos pode ser usado para ensinar a IA. Cada gesto, expressão, hesitação é matéria-prima para modelos que querem compreender o que dizemos, como nos movemos, como reagimos e como nos emcionamos. E isso traduz-se em robôs, carros e inúmeros dispositivos

Neste artigo, falei sobre o passado. Falei sobre como algumas das grandes empresas da Inteligência Artificial estão a alimentar os seus modelos com as obras escritas do passado, e da polémica instalada com a destruição de livros, alguns raros, para alimentar os seus modelos. Hoje vamos falar sobre o presente - mas este artigo não é sobre acusar quem constrói estes modelos, é antes um alerta para que percebamos que, de cada vez que publicamos algo, estamos a jogar o jogo. É para alertar sobretudo aqueles que não sabem sequer que estão em campo.

Cada vídeo que publicamos é uma demonstração comportamental completa de voz, rosto, movimento e emoção e a IA tem a virtude de apreender e aprender tudo. Cada gesto, cada expressão, cada hesitação é absorvida como matéria-prima para modelos que não querem apenas compreender o que dizemos, mas como nos movemos, como reagimos e como a emoção interage com a ação. É aqui que pode começar a verdadeira perda de controlo.

Este artigo é sobre como estamos hoje a alimentar os modelos de IA com cada publicação, com cada texto, com cada foto, com cada vídeo, com tudo o que "inocentemente" fazemos online.

Os modelos de IA não se treinam apenas com textos porque o objetivo final da IA não é comunicar apenas com letras. A IA está feita para adquirir forma física, a "Physical AI", e isso traduz-se em robôs, carros, dispositivos e muitas outras formas físicas da Inteligência Artificial entrar no nosso mundo sem que seja apenas do lado de lá de um chat. A parte do texto foi o início mas o atual passa pela otimização do treino de voz e imagem.

Ao mesmo tempo que os modelos de IA estavam a ser treinados, há uns anos, com as histórias dos livros e com os artigos dos jornais, estavam também a ser treinados de forma gratuita com os milhares de vídeos fabricados por nós e disponibilizados nas redes. 

Algumas IAs foram buscar ao Youtube e semelhantes uma enorme quantidade de conteúdo que os próprios utilizadores desconheciam estar a ser usada para treinar modelos, mas não se ficou por aqui. Filmes de Hollywood foram também varridos a pente fino pela IA e o Business Insider documentou bem este caso. Milhões de videos do Youtube foram utilizados para treinar modelos de IA

A OpenAI, no seu projeto Sora para geração de vídeos, andou a treinar modelos capazes de replicar vídeos com praticamente qualquer conteúdo.  

Hoje, há cada vez mais restrições ao uso de conteúdos sem autorização explícita, mas a verdade é que o que já está, já está.

As grandes empresas de IA não param a evolução do seu produto e estão agora a comprar o que já não conseguem usar livremente como no passado. Agora compram arquivos de filmes,  séries completas,  acervos históricos que se enchiam de pó nos armários das produtoras, e compram inclusive novelas locais com o fim de treinar os seus modelos com as especificidades de cada local. Os modelos de IA já passaram a barreira da informação generalista e procuram agora alcançar uma empatia sem precedentes com os humanos. E empatia faz-se com a utilização dos tiques que fazem de nós parte do grupo. 

A IA não quer ser universal. A IA quer ser universalmente local. Quer ter um cérebro global mas que sabe ajustar o comportamento ao local, que faz com que aquela interação específica nos toque de uma forma tão especial que nos conquista. Por detrás da IA existe negócio, e o negócio vem do "engagement". Se valorizarmos um sotaque, a voz da IA vai ter esse sotaque connosco para que a acomodemos mais facilmente e para que criemos mais dependência. Chamamos-lhe empatia, mas talvez lhe devêssemos chamar estudo de mercado. É curioso, mas é assustador. Será a IA tão falsa que nunca poderemos verdadeiramente confiar nas intenções dela? Essa pergunta será para respondermos daqui a uns anos.

As empresas de IA beneficiaram de tudo o que conseguiram enquanto o mundo estava adormecido pela loucura de conteúdos gratuitos na web gratuita, e hoje as grandes marcas já colocam restrições ao uso de conteúdo para treino de IA. Começa a fechar-se o cerco ao conteúdo gratuito, ou pelo menos ao não autorizado, mas tal não significa controlo absoluto. Significa que os modelos, hoje, para serem treinados, ou usam informação própria, ou terão de a comprar. O caminho é o mesmo. O custo pode ser diferente.

É precisamente aqui que entram as redes sociais, e os seus termos de utilização.

O que fazemos pela IA

A IA não aprende só o que fazemos. Aprende quando fazemos, porque fazemos e com que intenção aparente o fazemos. Cada padrão temporal, cada repetição, cada escolha emocional é registada. Estes sistemas não replicam apenas ações, replicam motivações aparentes, sequências de decisão e formas de interação que maximizam influência. O objetivo não é imitar o humano: é prever o humano. Prever o humano é, e sempre será, um negócio lucrativo.

Quando colocamos os nossos posts nas redes sociais sob a forma de comentários, reels, vídeos, ou de que forma for, estamos a alimentar a rede social com informação preciosa para os robôs. A IA pode, connosco, aferir o que cria mais "engagement", e com isso aprimorar a linguagem que nos interessa, nos toca e nos motiva. Os algoritmos de IA serão tão precisos a antecipar o impacto que terão em nós que acabarão por ter uma capacidade de influência nunca antes vista. Não é claro para mim que os humanos serão hoje capazes de "lutar" contra um algoritmo no que toca à influência que o mesmo pode causar em nós. Não é claro para mim que os novos influencers serão humanos. 

A Meta tem sido o caso mais debatido, uma vez que possui uma enormidade de conteúdo nosso para treinar os seus sistemas generativos. Uma qualquer fotografia no Instagram pode ajudar a melhorar os sistemas de reconhecimento de imagem.

A boa notícia é que os utilizadores da União Europeia podem exercer o direito de oposição previsto no RGPD e pedir explicitamente que os seus dados não sejam usados para treinar IA. Este artigo da DECO PROteste mostra como. 

Parece uma vitória esta possibilidade de escolha que temos para com os nossos dados, mas a mesma só se aplica ao que ainda vamos publicar. O que já colocámos online como a festa de 2019, o vídeo do filho a dar os primeiros passos e tudo o que está para trás, já pode ter sido usado, e pode já estar por aí, num modelo qualquer. Não há formulário que o traga de volta.

O TikTok tem sido visto como a plataforma com menos controlo. Nas normas do TikTok é possível, mas nada evidente, bloquear o uso dos nossos dados no treino de IA. Todos sabemos o que fazemos quando as normas de utilização de uma rede social são demasiado longas e complexas: assinamos de cruz com medo de ficarmos de fora se não o fizermos. É o que se costuma dizer: "quando não pagamos por um produto, nós somos o produto."  

Isto significa que os nossos vídeos poderão estar a entrar nos modelos de treino da IA ou, por agora, na criação de uma base de dados gigante que poderá ser utilizada a posteriori. O que poucas pessoas sabem é que, após alguns milhares de vídeos ou outras interações, a IA poderá estar cada vez mais perto de conseguir replicar-nos com grande fidelidade.  Texto, imagem e voz combinados numa espécie de uma representação digital altamente fiável. 

As restantes redes, como X, YouTube e demais, oferecem algumas opções de restrição fáceis de parametrizar, mas isso aplica-se, uma vez mais, a conteúdo futuro. Os modelos treinados no passado, que de facto são a base dos modelos LLM atuais, já se anteciparam e já obtiveram tudo o que podiam e queriam obter de nós.

Nós e os Robôs

E é aqui que os vídeos que acabámos de descrever ganham um segundo propósito. Não servem só para prever o que nos faz clicar. Servem também para ensinar uma máquina a mover-se, a falar, a reagir como nós. Cada reel é, potencialmente, uma aula de comportamento humano para quem está do outro lado.

A China tem neste momento entre 85% e 90% da quota de mercado dos robôs humanóides dependendo das fontes. Prevê entregar 50.000 robôs humanóides ao mercado externo em 2026, segundo revisão recente do banco Morgan Stanley, e a tendência não para de aumentar a um ponto que fez soar as sirenes na administração americana que está agora a banir a entrada destes humanoides nos EUA.

Os robôs humanóides são, talvez, a melhor forma de conseguirmos identificar o que a IA absorveu de nós. Num sistema de condução autónoma, ou numa interface de encomendas de fast-food, podemo-nos rever, mas não nos vemos por detrás do ecrã. Quando estamos perto de um humanóide, passamos a ter a inevitável vontade de perceber o quanto ele é parecido connosco. A forma como caminha, como fala, como reage, é construída à imagem humana, e isso faz toda a diferença no que toca à sensação de empatia. É isso que a IA tenta captar nos ficheiros de voz e de  vídeo: empatia. Como gerar uma forte conexão com o utilizador. 

A dúvida será sempre o que irá a IA fazer depois de ter essa conexão e isso leva-nos a um campo curioso. Terá a IA, ou os robôs, efetivamente personalidade, ou são apenas um algoritmo construído para nos agradar? Um robô que seja refilão connosco pode ser extremamente amável com outra pessoa? Um humano bruto é simplesmente bruto seja lá com quem interaja. E a IA? É ela própria ou o que queremos que ela seja?

Talvez a pergunta esteja mal feita. A empatia não está no robô ou na IA, mas em nós. Somos nós que humanizamos o que se parece ou fala como nós, e é essa tendência, não a "personalidade" da máquina, que molda a forma como o algoritmo interage connosco.

Nas relações humanas, a empatia constrói-se com personalidade. Somos o que somos e não mudamos assim tanto quando muda o interlocutor. Estaremos preparados para lidar com um mundo em que o interlocutor muda de tal maneira que perdemos o sentido de personalidade e mergulhamos no mundo da falsidade ou, pelo menos, da conveniente adaptabilidade? 

Que a IA terá um impacto positivo nas nossas vidas já não restam dúvidas, mas também não há dúvidas que em alguns aspetos o impacto será negativo. A lucidez com que dispomos dos nossos conteúdos deve estar sempre ao mais alto nível de reflexão porque pode impactar a nossa relação com a IA, mas também a nossa relação com os outros. A perda da personalidade pode ter um impacto social enorme e, se ao lidarmos permanentemente com um sistema no qual acreditamos o sentido de personalidade se perder, podemos perder o que mais nos une uns aos outros. Não é um problema da máquina. É um problema nosso.

Se o passado já foi capturado e o presente é impossível de travar, a verdadeira pergunta não é "como nos protegemos", mas "como vivemos num mundo onde tudo o que fazemos se torna treino para alguém que é pago para nos influenciar?"

 

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