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Autor. Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

A IA pode precisar da Igreja mais do que a Igreja precisa da IA

28 jul, 14:38
CIDADE DO VATICANO, VATICANO - 10 DE JANEIRO DE 2023: O Papa Francisco posa com o presidente da Microsoft, Brad Smith, o presidente da Pontifícia Academia para a Vida, Monsenhor Vincenzo Paglia, e os signatários do «Apelo de Roma pela Ética na IA» durante uma audiência na Sala Clementina, a 10 de janeiro de 2023, na Cidade do Vaticano, Vaticano. O «Apelo de Roma pela Ética da IA» é um documento assinado pela Pontifícia Academia para a Vida, pela Microsoft, pela IBM, pela FAO e pelo Ministério da Inovação, órgão do Governo italiano, em Roma, a 28 de fevereiro de 2020, com o objetivo de promover uma abordagem ética à inteligência artificial. (Foto: Vatican Media via Vatican Pool/Getty Images)
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A IA precisa de ser centrada no humano. Isso não se consegue por programação ou por algoritmo, só se consegue com um profundo corpo de pensamento que talvez só a Igreja e as grandes tradições filosóficas e religiosas podem dar

Uma nota antes de começar: ao longo deste artigo uso o termo "Igreja" para me referir à Igreja Católica enquanto guardião antropológico da civilização ocidental e a tradição que mais diretamente moldou o pensamento sobre o ser humano no contexto em que este debate está a acontecer. Não excluo, nem ignoro, os grandes almanaques antropológicos das outras civilizações: o Budismo, o Islão, o Confucionismo, o Judaísmo, o Hinduísmo e tantas outras tradições que, nas suas regiões e culturas, desempenharam exatamente o mesmo papel fundacional. Quando digo Igreja, digo também todas elas. O argumento é universal. O exemplo é ocidental por conveniência e contexto, não por exclusão.

 A cada dia que passa, fico mais convicto da necessidade de humanizar a Inteligência Artificial (IA) ou melhor, da necessidade de lhe atribuir um carácter antropológico que os engenheiros se esqueceram de garantir, colocando dentro de nossas casas uma inteligência que não comporta estrutura suficiente para lidar com os alicerces que cimentam a evolução humana.

É público que defendo a necessidade de atribuir à IA uma forte tradição de reflexão antropológica. Mais do que isso, atribuir essa estrutura aos humanos e à IA em simbiose, porque não acredito que o que entendemos como humano não sofra profundas alterações ao longo do tempo em que vamos interagindo com a IA. Escrevi eu próprio um protocolo fundacional, a Aithropology, um quadro conceptual dedicado ao estudo antropológico da relação entre o ser humano e a inteligência artificial, mas há uma entidade "esquecida" que pode fazer a real diferença entre a IA que conhecemos e a IA que queremos ter.

Essa entidade é a Igreja.

A Igreja e a Antropologia

Existe um papel histórico entre a Igreja e a Antropologia. A Igreja Católica foi, durante séculos, uma das principais instituições a sistematizar o pensamento sobre o ser humano no Ocidente. Noutras regiões do globo, outras tradições religiosas e filosóficas desempenharam papéis semelhantes. A Igreja moldou ao longo de centenas de anos a noção ocidental do que significa ser um humano, dotado de razão, de liberdade, de dignidade e de transcendência, embora quase sempre com a ideia de que o ser humano é criado à imagem de um Deus.

É verdade que o Iluminismo, a filosofia moderna, a antropologia científica, a psicologia e a neurociência vieram depois desafiar, completar e por vezes contradizer esse legado. O ser humano que hoje conhecemos é também filho de Descartes, de Darwin, de Freud e de Kant, mas há algo que nenhuma destas correntes conseguiu substituir: a continuidade institucional da Igreja. Continuidade Institucional significa a capacidade de uma única estrutura com a sua memória, os seus arquivos, as suas ordens religiosas, as suas universidades, os seus estudos, manter vivo um corpo de pensamento sobre a natureza humana ao longo de séculos e nos vários continentes.

Não é uma questão de verdade absoluta, é uma questão de persistência e de profundidade acumulada garantindo também a transmissão geracional de um modo de olhar para o ser humano que nenhuma startup, nenhum laboratório e nenhum governo conseguiu ainda replicar.

O papel académico da Igreja é inquestionável, com redes de universidades e centros de investigação em áreas como filosofia, deontologia, sociologia, e muitas outras ligadas precisamente à antropologia.

Quando se diz que a Igreja parou no tempo, pode-se estar a ser extremamente superficial. A Igreja tem alicerces antropológicos robustos que não lhe permitem acompanhar o ritmo evolutivo da sociedade e isso, ao contrário do que parece, pode hoje ser uma vantagem. Uma antropologia de mil anos não se altera por algo que apareceu há dois anos. É discutível, mas é compreensível.

Num mundo de grandes, rápidas e permanentes mudanças são necessárias âncoras que nos permitam perceber o que somos, de onde viemos e para onde vamos. A Igreja, ou as “Igrejas”, nunca pararam esses estudos e por isso podem ter consigo a fórmula para ensinar a IA a fazer parte de nós, e impedir que possamos vir a ser escravos dela.

A Igreja preserva um dos mais completos corpos de conhecimento antropológico alguma vez construídos. Tem a experiência necessária para fazer os modelos de IA saltarem dos algoritmos falíveis para uma estrutura simbiótica que os humanize e que os faça caminhar connosco e não contra nós.

Quando tudo muda precisamos de algo estanque

A Igreja pode mesmo voltar a ter o papel fundamental que já teve na estrutura das sociedades. Pode estar entre as poucas entidades capazes de fornecer à IA a base antropológica de que a IA precisa para poder sair da sandbox sem que isso seja uma ameaça.

Quando rebobinamos milhares de anos atrás, percebemos que toda a base de estudo e de ensino que nos fez chegar onde chegámos foi consolidada pela Igreja, ou pelas suas tradições. É certo que todo esse trabalho foi estruturado com o propósito claro de fazer dos humanos a imagem de Deus e de lhes atribuir uma interdependência espiritual, mas facto é que a Igreja conseguiu, em simultâneo, difundir conhecimento, estabelecer os fundamentos antropológicos do propósito da vida, e manter ativa a relação com uma entidade superior a quem todos respondemos ou pelo menos respeitamos.

Se ainda não encontrou a analogia com a IA, vou ser mais directo.

A IA precisa deste trabalho que a centre no Humano como a entidade que lhe dá origem e propósito. O ser humano não existirá sem IA, mas a IA também não existirá sem o ser humano. Isso não se consegue por programação ou por algoritmo. Só se consegue com um profundo corpo de pensamento que talvez só a Igreja e as grandes tradições filosóficas e religiosas podem dar, porque só elas têm, neste momento, o conhecimento e a experiência suficientemente enraizados nos seus alicerces. Noutras instituições, esse fio condutor foi-se fragmentando com o evoluir dos tempos. O conhecimento existe, mas dispersou-se e desancorou-se da continuidade e da profundidade de transmissão que só uma estrutura multi-secular consegue preservar.

O que já existe, e o que ainda falta

Seria injusto dizer que a Igreja ignorou a inteligência artificial. Não ignorou. Em 2020, o Vaticano reuniu a IBM, a Microsoft, a FAO e líderes religiosos para assinar o Rome Call for AI Ethics cujo foco era garantir uma IA que respeite a dignidade humana, a transparência e a imparcialidade. Foi um passo importante, mas foi um passo de contenção.

Desde então, a Igreja produziu documentos teológicos e filosóficos de grande profundidade. Antiqua et Nova, Magnifica Humanitas, e contribuições de teólogos protestantes e judaicos que abordam a IA com a seriedade intelectual que se exige. O tom, porém, é quase sempre o mesmo: a IA é uma ferramenta que não deve substituir a consciência humana, o juízo moral, nem a dimensão espiritual. Trata a IA como um risco a ser gerido. Como algo a conter.

25 de maio de 2026, Vaticano. O Papa Leão XIV discursa durante a apresentação da sua primeira encíclica, "Magnifica humanitas: Sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificia"». Foto AP/Alessandra Tarantino

Filósofos como Luciano Floridi têm ido mais longe, defendendo a necessidade de alinhar a IA com quadros filosóficos humanos, mas raramente apontam a Igreja como a instituição primária detentora desse conhecimento e experiência e a Igreja, por seu lado, ainda não deu esse passo.

O ecossistema existe. O que falta é uma mudança de perspetiva fundamental

Antes de avançar, é necessário ser muito claro sobre o que estou e o que não estou — a propor.

Não estou a sugerir que a IA seja treinada com a doutrina da Igreja. Não estou a propor que os modelos de linguagem adotem posições sobre bioética tradicional, direitos reprodutivos ou qualquer outro domínio onde a Igreja tem posições morais específicas e contestadas. Isso seria substituir um enviesamento por outro e seria exatamente o oposto do que defendo com a Aithropology.

O que proponho é outra coisa. Proponho que a Igreja contribua com a sua gramática histórica sobre o valor da vida e da dignidade humana; contribua com os seus erros graves ao longo de séculos, mas também com a aprendizagem que deles resultou e que entregue à IA a sua capacidade de reflexão antropológica. A sua memória de dois mil anos de perguntas sobre o que distingue o ser humano, o que o protege, e o que nunca pode ser-lhe retirado.

Há uma diferença fundamental entre incutir uma doutrina e fornecer a estrutura de pensamento dentro da qual as perguntas mais difíceis podem ser feitas com rigor.

A estrutura de pensamento é livre, a doutrina é blindada.

É igualmente importante esclarecer o que significa "treinar antropologicamente" um modelo de IA. Não defendo que transformemos uma máquina num agente espiritual ou consciente. Os modelos de linguagem não pensam, processam padrões estatísticos em dados. O que determina a qualidade e a orientação desses padrões é a qualidade e a profundidade do material com que são treinados e é aqui que a contribuição da Igreja faz, para mim, todo o sentido. Não quero mexer na arquitetura da máquina, mas quero tocar na curadoria do que a alimenta. Quero tocar nos textos, nos conceitos, nas estruturas de raciocínio moral e existencial que moldam o modo como a linguagem humana fala sobre o ser humano.

E é aqui que a minha proposta diverge de tudo o que tem sido feito até agora.

O que a Igreja está a fazer, e o que a maioria das instituições está a fazer, é tentar educar sobre IA. Ensinar as pessoas a usá-la com responsabilidade estabelecendo princípios éticos que a governem. No fundo tem estado a criar leis e regulamentos que a limitem.

Não é isso que proponho.

Proponho que a Igreja use o seu conhecimento e a sua experiência secular para ensinar a própria IA não depois de a IA estar construída, mas antes. Não lidar com a IA através de regras impostas mas através do treino antropológico profundo que forme a base de como a IA pensa, pondera e decide.

A distinção é crucial: as leis vêm depois da antropologia e não antes. Primeiro forma-se o carácter e só depois se estabelecem as regras. Uma criança não se torna boa pessoa porque lhe são impostas leis. Torna-se boa pessoa porque foi formada numa cultura, numa tradição, numa relação com o mundo que lhe deu os instrumentos necessários para distinguir o bem do mal antes de qualquer lei o exigir.

É exatamente isso que a IA precisa e é exatamente isso que a Igreja sabe fazer, porque já o fez, durante séculos, com os seres humanos.

O desafio que a Igreja talvez não possa recusar

Se a Igreja se focar na Aithropology e no treino de modelos de IA, a IA poderá aprender modelos humanos de deliberação moral, desenvolver uma compreensão mais profunda das bases éticas que orientam as sociedades, e incorporar a filosofia e a antropologia como quadros de referência para as suas decisões. Com isso a IA poderá encontrar uma orientação para si própria que não é imposta por regras rígidas de código, mas construída através de treino sobre o que os humanos já pensaram sobre si próprios. Os modelos de inteligência artificial aprendem através dos dados com que são treinados, não através de instruções diretas.

Tem que ser a própria IA a incorporar as bases da sua existência e o seu propósito no seu processo de pensamento ou de processamento, mais rigorosamente. E a Igreja tem tudo isso e por isso pode ter o grande papel evolutivo na existência humana desde que consiga adaptar o seu imenso património intelectual centrado em Deus para esta missão de transmissão de herança civilizacional à IA, centrada no Humano, e em si própria.

Ao longo da história, a Igreja sobreviveu a impérios, a guerras, a revoluções científicas e a transformações culturais que pareciam, em cada época, o fim de tudo o que era sagrado. Sobreviveu não por teimosia, mas porque os seus alicerces foram construídos para perpetuar a condição humana em qualquer tempo, para todas as gerações vindouras.

E talvez seja precisamente isso que torna este momento diferente de todos os outros.

Nunca antes na história humana foi necessário ensinar a uma entidade não-humana o que significa ser humano. Nunca antes foi preciso transmitir e proteger a essência da nossa condição de uma forma que uma inteligência artificial pudesse aprender. É uma missão sem precedente histórico e é exactamente por isso que exige uma instituição com precedente histórico suficiente para a cumprir.

A pergunta não é se a Igreja tem o conhecimento, porque tem. A pergunta não é se a Igreja tem a experiência, porque tem. A única pergunta que importa é se a Igreja tem a coragem de reconhecer que este pode ser o seu momento, não um momento de resistência à mudança, mas de liderança da mudança.

Estará a Igreja preparada para assumir este papel?

Será este o momento pelo qual sempre esperou mantendo robustos os seus alicerces precisamente para uma transição humana como talvez nunca tenha sido vivida antes?

A pergunta não é apenas para a Igreja. É para todos nós.

A IA está a ser construída agora. Os seus valores, as suas fundações, a sua relação com a humanidade estão a ser definidos neste preciso momento em laboratórios, em empresas, em decisões políticas que afetarão gerações. A sociedade tem interesse direto em que esse processo seja feito com a maior profundidade antropológica possível e isso significa convocar para a mesa as instituições que mais sistematicamente pensaram sobre o ser humano, independentemente da sua natureza religiosa, filosófica ou académica.

Se a Igreja não se sentar a essa mesa, outros se sentarão, e o resultado será uma inteligência artificial construída sem um conhecimento profundo do que significa ser humano.

A IA pode precisar da Igreja, ou das Igrejas ou de outros guardiões milenares da antropologia em cada canto civilizacional, mais do que estes precisam da IA. Todas em conjunto poderiam ajudar a construir uma verdadeira IA Humanizada.

Mas talvez ambas precisem uma da outra e talvez seja essa simbiose, e não a tecnologia sozinha, a única resposta verdadeira ao maior desafio que a humanidade alguma vez colocou a si própria.

Bem-vindos. Estamos na era da Aithropology.

 

Imagem no topo: 10 de janeiro de 2023, Cidade do Vaticano, o Papa Francisco posa com o presidente da Microsoft, Brad Smith, o presidente da Pontifícia Academia para a Vida, Monsenhor Vincenzo Paglia, e os signatários do "Apelo de Roma pela Ética na IA" durante uma audiência na Sala Clementina. Este é um documento assinado pela Pontifícia Academia para a Vida, pela Microsoft, pela IBM, pela FAO e pelo Ministério da Inovação, órgão do Governo italiano, em Roma, a 28 de fevereiro de 2020, com o objetivo de promover uma abordagem ética à inteligência artificial. Foto: Vatican Media via Vatican Pool/Getty Images

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