Se veio a este artigo à procura de recomendações sobre que ações comprar ou vender, este artigo não é para si. Não tenho a menor ideia se estamos perante uma bolha tecnológica, uma fase de crescimento histórica ou uma mistura das duas. Se tivesse essa resposta, provavelmente estaria a gerir um fundo de investimento e não a escrever este artigo.
Recentemente deparei-me com alguns números que nos devem, no mínimo, fazer refletir sobre o panorama económico em que vivemos. A Nvidia é hoje a empresa mais valiosa do mundo, com uma capitalização acima dos 5 biliões de dólares, mais de 16 vezes o PIB anual de Portugal (cerca de 313 mil milhões de dólares). Ao mesmo tempo, empresas privadas relativamente recentes como a Anthropic e a OpenAI já atingiram avaliações próximas de 965 mil milhões e 852 mil milhões de dólares, respetivamente. Cada uma vale várias vezes aquilo que a economia portuguesa produz num ano.
Estes impressionantes números revelam algo fundamental: uma parte significativa dos investidores está a apostar que o mercado da inteligência artificial (IA) irá transformar a economia numa escala raramente vista. Regularmente surgem notícias sobre novos centros de dados, novas fábricas de chips, novos acordos energéticos e novas rondas de investimento. É difícil sequer compreender a escala dos recursos mobilizados para este mercado. Não estamos apenas a assistir ao desenvolvimento de uma nova tecnologia. Estamos perante a construção de uma infraestrutura global em escala massiva que consome quantidades imensuráveis de capital, energia e talento.
No entanto, toda esta epopeia está assente no princípio de que a procura atual e futura justifica o investimento realizado e a realizar. A questão que surge naturalmente é: que procura é esta?
A procura dos consumidores é relativamente fácil de observar. Milhões de pessoas utilizam diariamente o ChatGPT, o Claude e outras aplicações similares. É difícil identificar historicamente uma tecnologia com uma velocidade de adoção comparável. Mas adoção não é sinónimo de rentabilidade.
No mercado empresarial a situação é menos clara. Sem dúvida que a maior parte das empresas tem a sua atenção virada para a IA e, de uma forma ou de outra, querem ou estão a experimentar implementar ou escalar a tecnologia nas suas organizações. Apesar de toda a atenção mediática, continua a ser surpreendentemente difícil mensurar o valor económico que está realmente a ser gerado por estas aplicações de IA. Algumas estimativas recentes da Gartner apontam para que pelo menos metade dos projetos de IA generativa tenham sido abandonados após a prova de conceito, devido a custos crescentes, dados insuficientes, controlo de risco inadequado ou valor de negócio pouco claro.
A soma apenas das avaliações da OpenAI e da Anthropic totaliza cerca de 1,8 biliões de dólares. Se considerarmos a população mundial de 8 mil milhões de pessoas, isso representa cerca de 224 dólares por pessoa no planeta. Naturalmente, nem todos serão clientes pagantes. Se apenas 10% da população mundial pagasse por estes serviços, uma conta muito simplificada exigiria cobrar mais de 2.200 dólares por utilizador por ano (ou 187 dólares por mês), apenas para igualar esse valor agregado.
A conta é grosseira e não pretende ser uma avaliação financeira. Serve apenas para dar perspetiva da escala implícita nas expectativas do mercado: não basta que a IA seja útil; tem de ser útil, paga e adotada recorrentemente a uma dimensão massiva.
No entanto, não basta haver receita. É preciso haver margem para pagar o custo direto de servir cada utilização e remunerar os investidores. Cada pergunta, cada resposta, cada documento analisado e cada linha de código gerada consomem tokens, computação, energia e, indiretamente, os salários milionários dos investigadores e engenheiros informáticos que desenvolvem e mantêm estes modelos.
Imaginemos por um momento que os preços atuais estão artificialmente baixos porque as empresas estão focadas em ganhar mercado. Durante vários anos, muitos dos serviços digitais que hoje consideramos indispensáveis foram distribuídos praticamente de forma gratuita enquanto procuravam escala. Só mais tarde surgiu um modelo económico sustentável.
Imaginemos também que o preço da utilização dos modelos fosse simplesmente duas a três vezes mais caro. Provavelmente muitos casos de uso atuais deixariam de fazer sentido. Não porque a tecnologia deixe de funcionar, mas porque o preço se tornaria incomportável para grande parte dos utilizadores.
É aqui que a comparação com a bolha da internet surge inevitavelmente.
No final dos anos 90, muitas pessoas estavam certas sobre a tecnologia. A internet acabaria por transformar praticamente todos os setores da economia. O que nem todos acertaram foi quem iria capturar o valor criado e a que ritmo esse valor iria surgir.
A IA pode seguir um percurso semelhante. Os modelos atuais já escrevem código, analisam documentos, resumem informação e automatizam tarefas repetitivas. Isto é valor real. Mas uma coisa é acreditar que a IA vai mudar o mundo. Outra é acreditar que as empresas que hoje lideram essa corrida serão necessariamente aquelas que irão capturar a maior parte desse valor, sobreviver e prosperar.
As bolhas só são evidentes depois de rebentarem. Se as avaliações atuais estiverem corretas, a IA será uma das maiores transformações económicas da história recente. Se estiverem erradas, continuaremos provavelmente a usá-la todos os dias, tal como continuámos a usar a internet depois da bolha das dot-com.
Entretanto, resta-nos observar uma das maiores experiências económicas e tecnológicas do nosso tempo. E tentar perceber que futuro está realmente a ser comprado pelo mercado. Com ou sem bolha.
