A recente decisão de Donald Trump de permitir que a Nvidia e a AMD vendam chips avançados de IA à China, mediante a cedência de 15% das receitas ao governo dos EUA, é mais do que uma das habituais reviravoltas políticas do presidente norte-americano. Parece ser um erro estratégico profundo, que subverte a segurança nacional a favor de um benefício financeiro imediato e questionável.
Este acordo, que o próprio Trump tenta justificar com a alegação de se tratar de tecnologia já obsoleta, é um presente estratégico para Pequim. Especialistas, oposição interna e até alguns republicanos alertam, e bem, que esta partilha de receitas estará a acelerar directamente as capacidades de Inteligência Artificial chinesa, o epicentro da competição tecnológica e geopolítica deste século. Ao criar a percepção de que as licenças de exportação, que foram sempre decididas com base em critérios de segurança nacional rigorosos, estão agora à venda, a Administração Trump está a abrir um precedente extremamente perigoso.
A Casa Branca não é uma agência imobiliária que negoceia acordos à margem de uma estratégia coerente de Estado. Esta abordagem centrada na vantagem financeira, típica do universo empresarial de Trump, ignora por completo o cenário global. Ao “comercializar” o acesso a tecnologia sensível, os EUA não só enfraquecem ainda mais a sua liderança tecnológica mundial, como incentivam um lobbying perigoso para outras indústrias sensíveis.
A justificação do retorno financeiro para o Estado também é simplista e insuficiente. É provável que as empresas se sintam tentadas a aumentar os preços dos chips para cobrir parcialmente a "comissão" de 15%. Isto poderá provocar retaliações imprevisíveis, anulando qualquer suposto benefício.
O verdadeiro custo deste acordo não se mede em dólares. Mede-se na erosão de um princípio até agora sagrado nos Estados Unidos da América: a defesa intransigente da vantagem tecnológica como pilar fundamental da segurança nacional norte-americana. Estrategicamente, este acordo parece ser mesmo um tiro no pé.