A IA está a criar um boom de emprego - menos para quem está a começar

CNN , Matt Egan
28 jun, 15:00
As grandes empresas estão envolvidas numa disputa para contratar o mesmo grupo limitado de profissionais experientes, levantando questões sobre a forma como podem atrair a próxima geração de trabalhadores. Hiraman/E+/Getty Images
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Empresas disputam especialistas em IA enquanto fecham a porta aos recém-licenciados

Enquanto as grandes empresas norte-americanas se apressam a preencher vagas ligadas à inteligência artificial, quem tenta entrar pela primeira vez neste sector está a ser deixado para trás.

Uma nova investigação, divulgada em exclusivo à CNN, conclui que as oportunidades de emprego na área mais dinâmica da economia estão muitas vezes reservadas a profissionais com vasta experiência, e não a iniciantes.

A grande maioria — 71% — dos anúncios de emprego relacionados com inteligência artificial publicados por empresas do índice S&P 500 no LinkedIn, incluindo vagas para analistas de dados ou engenheiros de aprendizagem automática (machine learning), destina-se a profissionais de nível sénior, segundo o AI-Driven Enterprise (AIDE) Institute, uma organização de investigação que acompanha a forma como as empresas estão a implementar esta tecnologia.

Apenas 13% destes anúncios relacionados com IA destinam-se a posições juniores, enquanto 16% são considerados cargos intermédios. Os investigadores chegaram a estas conclusões após analisarem mais de 161.000 anúncios de emprego publicados em janeiro por grandes empresas.

Os resultados evidenciam o desafio enfrentado pelos jovens norte-americanos que procuram trabalho no crescente setor da IA. As grandes empresas estão envolvidas numa verdadeira guerra de contratação para captar o mesmo grupo de profissionais experientes, levantando dúvidas sobre como irão atrair a próxima geração de talento.

Os jovens candidatos já enfrentam dificuldades neste mercado de trabalho, num contexto marcado pelos receios de que a IA substitua trabalhadores humanos. Ao longo do último ano, muitas empresas reduziram efetivos e integraram a inteligência artificial de forma mais profunda nas suas operações.

"A ansiedade tem sido em torno da substituição dos humanos pela IA. O que os dados mostram é, na verdade, um mercado de trabalho mais restrito, onde a oportunidade associada à IA é real, mas está reservada a quem já se encontra no topo", afirma Paul Cheek, diretor executivo do AIDE Institute e professor sénior no MIT, citado no relatório. "A tradicional porta de entrada para uma área de elevado crescimento tornou-se muito estreita."

Passageiros aguardam pelo metro em Alexandria, Virgínia, a 11 de março de 2026. (Valerie Plesch/Bloomberg/Getty Images)

"Construído para especialistas"

Cheek explica que as empresas procuram profissionais com experiência para as ajudar a navegar o rápido crescimento da inteligência artificial.

"A maior parte destas tecnologias é muito recente e está a mudar rapidamente. As empresas querem pessoas que as analisem com base numa experiência sólida", refere.

Os investigadores do AIDE Institute analisaram 161.645 anúncios de emprego publicados no LinkedIn por empresas do S&P 500 e classificaram-nos segundo a sua relevância para a IA e o nível de experiência exigido. As funções foram consideradas relacionadas com inteligência artificial quando incluíam uma de 50 posições previamente definidas, entre as quais analista de dados, cientista de machine learning, engenheiro de IA, diretor de IA ou vice-presidente de IA, ou quando a descrição do cargo continha um de 125 termos associados à tecnologia.

Foram identificados 8.140 anúncios relacionados com IA que, segundo os investigadores, eram "esmagadoramente direcionados para profissionais experientes, deixando poucas oportunidades para iniciantes".

"O boom da contratação em IA é real — mas foi construído para especialistas", conclui o relatório.

Ainda assim, existe o risco de a aposta das grandes empresas na experiência ser uma estratégia de curto prazo. Se os jovens talentos optarem por procurar oportunidades noutros locais, como startups de inteligência artificial em rápido crescimento que tentam ganhar quota de mercado, isso poderá representar uma ameaça a longo prazo para as empresas mais estabelecidas.

"Os diretores executivos precisam de dar prioridade ao talento em IA em todos os níveis da organização", defende Cheek. "Não devem pensar apenas nos profissionais sénior, mas também nos cargos intermédios e juniores que estão a preparar para o futuro."

Emprego jovem "estagnado"

As dificuldades de entrada na indústria da inteligência artificial refletem os problemas enfrentados pelos trabalhadores mais jovens em toda a economia.

A taxa de desemprego dos recém-licenciados situava-se nos 5,6% em março, significativamente acima da taxa global de desemprego de 4,2% registada nesse mesmo mês, segundo os dados mais recentes da Reserva Federal.

A diferença entre a taxa de desemprego dos recém-licenciados e a da força de trabalho em geral aumentou nos últimos anos, em comparação com o período imediatamente anterior e posterior à pandemia de covid-19, quando ambas evoluíam de forma muito semelhante.

Um estudo recente da Universidade de Stanford concluiu que o emprego entre os trabalhadores mais jovens tem permanecido "estagnado" desde o final de 2022, quando o lançamento do ChatGPT pela OpenAI abriu caminho à atual corrida ao ouro da inteligência artificial.

A diferença entre a taxa de desemprego dos recém-licenciados e a da força de trabalho em geral aumentou nos últimos anos, em comparação com o período imediatamente anterior e posterior à pandemia, quando ambas estavam fortemente alinhadas. (Keith Birmingham/MediaNews Group/Pasadena Star-News/Getty Images)

Nas profissões mais expostas à inteligência artificial, os trabalhadores jovens registaram uma queda de 6% no emprego entre o final de 2022 e setembro de 2025, enquanto os trabalhadores mais velhos registaram aumentos entre 6% e 9%.

Os investigadores de Stanford afirmam que os resultados sugerem que a redução do emprego nas profissões mais expostas à IA está a contribuir para as dificuldades mais amplas dos jovens em conseguir trabalho.

Os empregos de entrada estão a ser "estruturalmente eliminados"

Tudo isto está a alimentar a ansiedade dos trabalhadores perante o avanço da inteligência artificial.

"O nível júnior não está apenas a diminuir — está a ser estruturalmente eliminado", aponta Hiro, pseudónimo utilizado por um profissional de nível intermédio do sector dos serviços que escreve sobre o futuro do trabalho na plataforma Medium e que aceitou falar com a CNN sob anonimato.

Segundo Hiro, o problema é que as tarefas frequentes e de menor risco que tradicionalmente eram atribuídas aos profissionais mais jovens — como primeiras versões de documentos ou processamento rotineiro — são precisamente aquelas que a inteligência artificial executa melhor.

À medida que estas tarefas passam a ser realizadas pela IA, "o que sobra é a supervisão sénior dos resultados produzidos pela inteligência artificial". "Isso significa que agora é preciso experiência para entrar, mas o caminho tradicional para adquirir essa experiência já não existe", explica.

Ganhar experiência fora do mercado de trabalho pode passar por frequentar formações destinadas ao desenvolvimento de competências. Hiro conta que gastou 4.000 dólares (cerca de 3.500 euros) em formação, apenas para descobrir que essas novas competências ficaram ultrapassadas ao fim de oito meses devido ao aparecimento de uma nova geração de modelos de IA.

"'Continuar a desenvolver competências' deixa de ser um conselho de carreira e transforma-se numa passadeira rolante que nos cobra para continuarmos nela", lamenta.

O futuro do trabalho

Nela Richardson, economista-chefe da gigante de processamento salarial ADP, afirma à CNN que a inteligência artificial não está apenas a alterar o número de empregos criados e eliminados — está também a transformar as tarefas e responsabilidades associadas às funções.

A ADP está a trabalhar com o Stanford Digital Economy Lab para desagregar responsabilidades profissionais e utilizar dados salariais para atribuir valor económico a tarefas específicas.

Segundo Richardson, os resultados desse trabalho, que deverão ser divulgados publicamente, poderão ajudar os empregadores a transferir trabalhadores para funções de maior valor acrescentado e auxiliar quem procura emprego a identificar percursos de formação e educação mais adequados.

A expectativa é que estes esforços ajudem a reduzir a ansiedade em torno do impacto da IA nos trabalhadores em início de carreira.

"A tarefa dos empregadores não é deitar fora a escada da carreira destes jovens só porque o primeiro degrau desapareceu", sustenta Richardson. "O desafio é dar aos jovens um impulso para esse segundo degrau, com tarefas e responsabilidades mais complexas, de maior valor, e que são precisamente aquelas para as quais as empresas estão a contratar. O ponto de entrada apenas se deslocou para um nível mais elevado."

*Alicia Wallace e David Goldman contribuíram para este artigo

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Empresas

Mais Empresas