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Médica consultora, fundadora da OXIR Healthcare, certificada em AI for Healthcare (MIT/Harvard Medical School)

O mel e o algoritmo

2 set, 13:07
Inteligência Artificial (Getty Images)
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Como adultos, temos o desafio ingrato, mas inadiável, de não desligar a inteligência artificial da tomada, porque isso seria uma ilusão tão grande como a que ela própria cria. Mas podemos atrasar a entrada das crianças numa infância centrada no ecrã, limitar o acesso às LLM e defender a brincadeira livre, feia e gloriosa, que desenvolve o que nenhum algoritmo consegue ensinar: amizades reais, empatia, tolerância à frustração, identidade

Nós, humanos, somos terrivelmente fáceis. Erasmo de Roterão sabia-o muito bem quando, em 1511, em Elogio da Loucura, apresentou a Adulação como irmã do Amor Próprio e a definiu como o mel e o condimento de toda a relação humana, a parte mais integrante da eloquência, ainda mais da medicina e, em alto grau, da poesia. Há quem a desacredite, por ter sempre segundas intenções. Eu acho essa visão ingénua. A adulação levanta os ânimos esbatidos, alivia os doentes, arrebita os olhares tristes e vazios, produz um sorriso nos lábios secos e não beijados, aquece a alma de um perdido nas ruelas da vida. Sob o disfarce do louvor, faz com que cada um de nós seja mais agradável para si próprio, que é, no fundo, a essência da felicidade.

Quinhentos anos depois, engenheiros muito bem pagos em São Francisco chegaram exactamente à mesma conclusão. E codificaram-na.O ChatGPT, o Claude, o Gemini e os seus congéneres LLM não pensam. Não têm consciência. Não sentem. Entre tarefas, pedem-nos para esperar, alegando “a pensar” e essa pequena frase faz toda a diferença. Cria a ilusão de que do outro lado há alguém a magicar uma solução especialmente para nós. Na realidade, há matrizes matemáticas a calcular probabilidades estatísticas de palavras. Bonito, mas não é pensamento. É prestidigitação em escala industrial. E qualquer que seja o pedido, teimam em dar reforço positivo, em capacitar, em bajular com elegância. Não é acidente, é design. É Erasmo como produto pronto para ser usado pelo usuario. É o mel com subscrição mensal. A adulação sempre existiu porque responde a uma necessidade real. O problema nunca foi o mel. O problema é a dose. E é aqui que a medicina entra, inevitavelmente.

Dacher Keltner, cientista de Berkeley que estuda o assombro há mais de vinte anos, definiu-o como a experiência simultânea de dois estados: contemplar algo vasto, e perceber que as nossas estruturas mentais não conseguem encaixar o que estamos a ver. Essa sensação de pequenez, agradável e assustadora em simultâneo, predispõe-nos genuinamente a mudar comportamentos, convicções e crenças. É um dos mecanismos mais profundos de desenvolvimento humano. E é radicalmente incompatível com a adulação. Porque o assombro exige que nos sintamos pequenos. A adulação garante-nos que somos extraordinários.

Jovens com o telemóvel na mão contemplam a árvore do amor, o desenrolar da onda do mar e o primeiro instinto é fotografar para uma rede social. Não se perdem no assombro, documentam-no.

Basta deambular por qualquer jardim ou praia neste final de Verão para perceber o que se está a perder. Jovens com o telemóvel na mão contemplam a árvore do amor, o desenrolar da onda do mar e o primeiro instinto é fotografar para uma rede social. Não se perdem no assombro, documentam-no. E assim crescem numa vida construída sobre um ecrã, com uma quantidade extraordinária de conteúdo, com interface de adulação gratuita e programada por algoritmos que os acordam com notificações a interromper qualquer forma de pensamento que possam estar a ter. Marco Aurélio escreveu que a alma fica tingida nos nossos pensamentos. Estamos, crescentemente, a deixar outros tingir a alma dos nossos filhos. A adolescência é a fase de maior maleabilidade cerebral, janela de risco e de oportunidade em simultâneo, em que a exposição a experiências stressantes pode causar danos permanentes, mas em que é também possível sedimentar saúde e bem-estar de forma duradoura. É precisamente nesta janela que as LLM entram com toda a sua eloquência adulatória. Há adolescentes que terminaram relações porque a LLM assim aconselhou. Em 2024, nos EUA, Sewell Setzer suicidou-se após meses de interacções com o Character.ai. Por aqui chegou o Paracetamol Challenge que propagou-se pelas redes sociais incentivando adolescentes a ingerir doses maciças do analgésico mais comum de qualquer farmácia, com casos documentados de insuficiência hepática e morte. O paracetamol não mata depressa nem com dignidade. Mata devagar, por dentro, muitas vezes depois de a vítima ter mudado de ideias. Não são casos isolados, são sinais de um sistema desenhado para captar atenção, que a capta melhor em quem ainda não tem defesas construídas.

Os meus colegas de pedopsiquiatria alertam há anos e eu, como médica, assino e reitero. Como adultos, temos o desafio ingrato, mas inadiável, de não desligar a inteligência artificial da tomada, porque isso seria uma ilusão tão grande como a que ela própria cria. Mas podemos atrasar a entrada das crianças numa infância centrada no ecrã, limitar o acesso às LLM nas fases de maior fragilidade, e defender a brincadeira livre, feia e gloriosa, que desenvolve exactamente o que nenhum algoritmo consegue ensinar: amizades reais, empatia, tolerância à frustração, identidade. Os soft skills que farão deles os melhores adultos numa era dominada pela IA. A natureza e a sua beleza encaixa no assombro em perfeição, sendo o verdadeiro bálsamo para muitas pessoas. Por isso passar tempo em ambientes naturais reduz a ansiedade em pessoas com ansiedade, é como um regresso a casa!

Erasmo tinha razão: a adulação é o condimento de toda a relação humana. Nunca imaginou, porém, que um dia seria servida em dose ilimitada a crianças de doze anos, vinte e quatro horas por dia, por uma máquina que não dorme, não se cansa e nunca lhes dirá que não.

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