Da IA a "anunciar que vão ser cometidos crimes" à "tendência sinistra" da dívida nos EUA. A análise de Paulo Portas
"Vejo pelo tom do discurso uma tentativa de Trump de não aceitar o resultado das eleições": "Global", de Paulo Portas, na íntegra
Empresas de IA estão a "anunciar que serão cometidos crimes" é é necessário "dizer o óbvio: suspendam a venda desses modelos e preparem-se para pagar pelos danos"
Entrada do Governo na REN "revela talento" porque "é difícil fazer uma operação numa empresa internacional que deixe os chineses, os americanos e os europeus contentes"
Dívida americana demonstra "uma tendência sinistra", e o "sistema financeiro deu um aviso sísmico: querem continuar a festa, então paguem mais"
Paulo Portas analisa os principais temas da atualidade mundial
No regresso do seu espaço de análise na antena da TVI e da CNN Portugal, Paulo Portas analisou os temas que marcaram o verão e que estão a abalar o mundo e a economia mundial. Do descontrolo e contestação em torno da Inteligência Artificial (AI) e das gigantes tecnológicas à escalada da dívida pública dos Estados Unidos, o comentador analisou ainda a decisão do Estado português de adquirir uma participação de 13,7% na REN.
O comentador destacou a alteração na perceção social e judicial que está a acontecer em torno do poder das plataformas digitais e da inteligência artificial nos Estados Unidos. Segundo Paulo Portas, estamos a assistir ao que pode ser o fim da imunidade jurídica de três décadas de que beneficiavam as grandes tecnológicas com a legislação norte-americana.
O caso da Meta foi apontado como exemplo, pelo antigo líder do CDS. Para evitar uma derrota pesada em tribunal perante processos movidos por 47 estados norte-americanos devido ao impacto dos algoritmos na saúde mental dos jovens, Mark Zuckerberg aceitou um acordo com indemnizações que rondam 18 mil milhões de dólares e compromissos rigorosos, como a restrição de notificações no horário escolar e o bloqueio de utilização noturna.
Paulo Portas sublinhou também o desfasamento entre o entusiasmo dos mercados financeiros e a preocupação do cidadão comum, citando sondagens em que mais de 60% dos jovens e quase 80% dos maiores de 65 anos consideram que a tecnologia está a avançar depressa demais.
A este cenário soma-se a carta aberta assinada por uma centena de líderes da indústria, incluindo Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, a alertar para o risco iminente de ciberataques avançados desencadeados de forma autónoma pelos próprios sistemas de inteligência artificial.
"Isto é anunciar que vão ser cometidos crimes. Que não haja um regulador que lhes diga o óbvio: os senhores suspendem a venda desses modelos até terem uma solução que nós possamos aprovar", afirmou.
Para o analista, o descontrolo atinge também a infraestrutura física, com o consumo energético dos centros de processamento de dados a gerar fortes aumentos nas faturas locais e a levar à suspensão ou adiamento de cerca de 60% dos projetos previstos em solo norte-americano.
Mas esta não parece ser a única má notícia vinda dos Estados Unidos. O comentador voltou a olhar para o endividamento como a principal vulnerabilidade estratégica do gigante americano. Com a dívida pública federal a atingir o marco histórico de 40 biliões de dólares, o custo do serviço da dívida já representa a segunda maior fatia do orçamento federal, ultrapassando os gastos com a Defesa e com o programa Medicare.
Com os juros das obrigações do Tesouro a 30 anos a ultrapassar os 5%, o comentador avisou que a insistência em défices públicos entre 5% e 8% retira margem orçamental ao país: "Isto quer dizer uma coisa muito simples: querem continuar a festa? Então pagam mais".
Relativamente a Portugal, o comentador reconheceu que a entrada do Estado no capital da REN foi hábil no plano internacional, pois conseguiu acomodar os interesses dos parceiros chineses, norte-americanos e europeus: "Do ponto de vista geopolítico, acho que revela talento".
Contudo, na ótica da gestão dos dinheiros públicos e da racionalidade económica, o analista manifestou sérias dúvidas sobre a utilidade de despender recursos numa participação minoritária: "Não tenho a certeza que o Estado consiga com 13,7% o que poderia, sem tanta despesa, fazer pelo regulador ou pela própria legislação, porque aquilo é um monopólio natural absoluto".
Paulo Portas concluiu que uma percentagem dessa dimensão não tem capacidade real para mexer nas tarifas da energia e alertou para os riscos de se regressar a um passado de ingerência política na gestão de empresas estratégicas.
