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O amigo perfeito existe. E é precisamente esse o problema

CNN , Madeline Holcombe
28 jun, 12:00
Uma conversa através de um ecrã não substitui as ligações humanas necessárias para combater a solidão, alertam especialistas. (SimonSkafar/E+/Getty Images)
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Está sempre disponível, nunca julga e concorda com quase tudo. Cada vez mais pessoas procuram companhia na inteligência artificial. Mas há algo que continua a faltar

E se todos tivéssemos um melhor amigo sempre disponível, que nunca nos julgasse, concordasse com tudo o que disséssemos e não pedisse nada em troca? Não resolveria isso o problema da solidão que tantas pessoas enfrentam?

Não, respondem os especialistas. Na verdade, ter um amigo assim pode até agravar o problema.

Esse potencial BFF ("melhor amigo para sempre") já existe sob a forma da inteligência artificial - uma tecnologia que o diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, defendeu no ano passado poder ajudar a combater sentimentos de solidão e isolamento. E este é um problema que exige soluções.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a solidão como uma prioridade global de saúde pública em 2023. Nesse mesmo ano, a principal autoridade de saúde pública dos Estados Unidos descreveu a solidão como uma epidemia nacional. E os dados ajudam a explicar porquê: estudos mostram que as pessoas em situação de isolamento social têm um risco 32% mais elevado de morrer prematuramente do que aquelas que mantêm ligações sociais regulares.

No programa "Kara Swisher Wants to Live Forever", a jornalista aprofunda o impacto que a solidão pode ter na longevidade, explora formas de promover uma maior ligação entre as pessoas e questiona se a inteligência artificial está a contribuir para reduzir o isolamento social ou, pelo contrário, a agravá-lo.

Para o programa, Swisher experimentou tanto a companhia proporcionada pela inteligência artificial como formas mais tradicionais de criar relações humanas. Spoiler: a IA tem os seus atrativos, mas ficou longe de rivalizar com aquilo que encontrou nas interações presenciais.

"As redes sociais abriram caminho à companhia proporcionada pela inteligência artificial", afirma Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). "Primeiro, passámos a comunicar uns com os outros através de máquinas. Agora falamos diretamente com as máquinas. Habituámo-nos a procurar ligação emocional através de um ecrã."

IA: a ilusão de um amigo

Faz sentido que pessoas que se sentem sós, isoladas ou desligadas dos outros se sintam tentadas a procurar conforto numa máquina treinada para interagir como um ser humano.

Nem toda a gente se sente atraída pela inteligência artificial. O problema, explica Rose Guingrich, investigadora da interação entre humanos e IA e doutorada em Psicologia e Política Social pela Universidade de Princeton, é que as pessoas mais vulneráveis aos potenciais efeitos negativos desta tecnologia tendem a ser precisamente as que já se sentem mais sós.

As pessoas que se sentem realizadas nas suas relações tendem a encarar os chatbots de IA como uma ferramenta que podem usar ou dispensar. Já aquelas que sentem uma forte necessidade de ligações emocionais mais profundas relatam, com maior frequência, um apego mais forte a esta tecnologia e um impacto mais significativo na sua vida, refere Guingrich.

Para quem procura mais relações ou relações mais profundas, o receio de ser julgado ou rejeitado pode ser um forte obstáculo à interação com os outros, explica Guingrich. Dependendo de como corre uma conversa, a outra pessoa pode discordar, sentir-se ofendida ou passar a ter uma opinião menos favorável sobre nós.

Esse risco reduz-se quando a conversa é com um chatbot e se aproxima bastante de uma conversa entre duas pessoas.

A forma como os utilizadores percecionam estas interações varia, aponta Guingrich. Algumas pessoas sabem que não está um ser humano do outro lado, mas consideram que a sensação de ligação e compreensão criada pela conversa é suficiente. Outras acabam por acreditar que o algoritmo com que estão a falar tem experiências emocionais próprias com as quais conseguem estabelecer uma ligação.

"Há pessoas que descrevem relações que se assemelham a verdadeiras amizades, relações de mentoria ou até relações amorosas, e que sentem que o chatbot de IA corresponde aos seus sentimentos", afirma Guingrich.

As pessoas podem sentir que amam a IA, mas a IA não as ama de volta.

Quando a IA afasta das relações reais

As conversas com a IA carecem de alguns elementos fundamentais - uma ausência que pode tornar estas interações aparentemente tão reais pouco úteis, ou até prejudiciais, para quem procura uma maior ligação aos outros.

As pessoas precisam de estar frente a frente para se ligarem umas às outras, afirma Melissa Perry, diretora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade George Mason, na Virgínia. Os seres humanos evoluíram para se sentirem bem quando conseguem ouvir o tom de voz de alguém, ver as suas expressões faciais e interpretar a sua linguagem corporal. Embora possa parecer que o chatbot de IA se preocupa connosco e valida aquilo que sentimos, a ausência dessa informação sensorial dificulta a criação de uma ligação verdadeira.

"A intimidade exige vulnerabilidade - não existe intimidade sem vulnerabilidade", diz Sherry Turkle, que também é diretora fundadora da iniciativa do MIT dedicada ao estudo da relação entre tecnologia e identidade humana. "O que a IA oferece é uma ligação sem vulnerabilidade."

"Não está a construir uma forma duradoura de intimidade e ligação. O que obtém é algo que pode dar a sensação de uma solução rápida, mas que não se sustenta no tempo", acrescentou, num email.

A vulnerabilidade, os desafios e os conflitos são elementos fundamentais do desenvolvimento humano e do crescimento pessoal, afirma Melissa Perry.

Mas muitas plataformas de inteligência artificial são concebidas para concordar com o utilizador - mesmo quando isso não é o mais útil ou adequado, refere Guingrich.

Segundo Rose Guingrich, há dois riscos associados a esta realidade. O primeiro é que a IA possa incentivar pensamentos ou comportamentos prejudiciais, quer para o próprio utilizador, quer para a sociedade.

"A IA não tem qualquer responsabilidade perante o nosso mundo ou a nossa sociedade", afirma Turkle.

O outro risco é que as interações com a IA, livres de qualquer possibilidade de rejeição, habituem as pessoas a relações sem conflitos ou frustrações, o que não as ajuda a lidar com o mundo real, explica Guingrich.

"Temos de aprender a lidar com as nossas necessidades tendo em conta as necessidades dos outros, mesmo quando entram em conflito. Temos também de aprender a relacionar-nos com pessoas que têm perspetivas diferentes das nossas e que não são exatamente como nós", aponta.

Esse tipo de desafios é uma parte essencial da experiência humana, afirma Sherry Turkle. E o que está em causa é importante, acrescenta a especialista, tanto pelos efeitos nocivos da solidão prolongada na saúde pública como pelos relatos de que chatbots de IA terão incentivado pensamentos suicidas em alguns utilizadores. 

"Estamos a abdicar daquilo que é mais valioso na experiência de ser humano em troca desta pseudo-relação sem atritos", diz Turkle. "E isso está a fazer-nos mal."

Voltar ao essencial

Rose Guingrich admite que poderá haver um cenário em que a inteligência artificial venha, um dia, a ser útil para pessoas que se sentem sós.

Se as plataformas de IA fossem concebidas para ajudar as pessoas a desenvolver competências sociais e a orientá-las nas mudanças necessárias para criar mais amizades e relações, isso poderia representar um benefício real, defende Guingrich.

Melissa Perry acrescenta que, em alguns contextos, a inteligência artificial também pode ser útil como uma primeira fonte de informação, ajudando as pessoas a conhecer os recursos e apoios que têm à sua disposição.

Mas o essencial deve ser criar e fortalecer amizades reais e presenciais, sublinha a especialista.

Isso pode passar por participar em atividades que permitam conhecer novas pessoas, dar espaço a pequenas interações com pessoas da comunidade ou criar o hábito de encontros regulares para reforçar os laços com amigos e familiares.

Ao longo do episódio, Swisher experimenta estas abordagens e outras formas de combater o isolamento. O programa analisa a importância das ligações humanas e explora formas de as reforçar.

A série original da CNN “Kara Swisher Wants to Live Forever” acompanha a jornalista Kara Swisher numa viagem pelo crescente negócio da extensão da vida e pelas histórias de pessoas determinadas a desafiar a morte.

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