"Que o Instagram volte a ser Instagram", pedem os utilizadores mais "saudosistas". Mas serão mesmo as fotos que os prendem?

28 jul, 22:00
Instagram

"Guerra" entre utilizadores e o Instagram é para que as fotos voltem a ser o centro das atenções da aplicação. Especialistas explicam que a rede social se tem adaptado aos utilizadores e aos novos tempos e que o futuro pode trazer novos formatos e novas redes sociais alternativas e concorrentes

As mudanças (constantes) no Instagram não têm agradado os utilizadores e prova disso são as milhares de partilhas de uma imagem criada pela fotógrafa Tati Bruening (Illumitati nas redes sociais) que pede que "o Instagram volte a ser Instagram".

A imagem simples - letras pretas em fundo branco - aborda o que muitos utilizadores pensam desde que a rede deixou de ser apenas para partilha de fotografias e passou a ser mais parecida com o TikTok, com partilha de conteúdos verticais e de vídeos (Reels) que fazem lembrar as criações da rede "vizinha", para além da maioria das publicações apresentadas serem de "recomendações" do que de contas que os utilizadores estão a seguir.

"Que o Instagram volte a ser Instagram. Deixa de tentar ser TikTok, só quero ver fotos bonitas dos meus amigos. Cordialmente, o mundo todo", lê-se na imagem, partilhada na passada sexta-feira, e que já tem quase dois milhões de gostos.

Em entrevista ao jornal El País, a fotógrafa norte-americana explica que teve a ideia de partilhar a imagem na sua conta (com mais de 320 mil seguidores) depois de ter acedido à aplicação e de constatar que nenhuma das publicações que lhe eram mostradas lhe interessavam.

"Era tudo de pessoas que não conhecia ou anúncios e era quase tudo em vídeo. Senti-me um pouco frustrada", explica.

A imagem rapidamente começou a ser partilhada pelos seguidores e até Kylie Jenner, a segunda pessoa mais seguida do Instagram, e Kim Kardashian, partilharam o post com os seus milhões de seguidores.

"Quando vi que a Kylie tinha partilhado pensei que estavam a brincar comigo", confessa.

No entanto, esta não foi a única iniciativa tomada por Tati Bruening, que também assume o papel de influencer, uma vez que ao mesmo tempo que publicava a imagem, lançou uma petição para reclamar o regresso da aplicação às suas origens: o feed cronológico, sem vídeos copiados do TikTok, com um algoritmo que favorece as fotografias e uma plataforma que dê ouvidos aos criadores. 

As respostas do Instagram

Adam Mosseri, diretor do Instagram, mostrou estar atento ao que se está a passar e, num vídeo publicado nos Reels do Instagram, esta terça-feira, tentou responder aos quatro pedidos da petição.

No vídeo, feito à semelhança dos vídeos semanais em que aparece descontraído a responder às perguntas dos utilizadores, Mosseri afirma que "está a acontecer muita coisa no Instagram", que tem tido conhecimento de "muitas preocupações dos utilizadores" e que, por isso, quis "clarificar umas quantas coisas". 

E explicou que a nova versão de tela cheia - à semelhança do TikTok - ainda está a ser testada, estando apenas disponível para alguns utilizadores para tentar "experimentar uma experiência mais imersiva e divertida". Sobre os vídeos, Mosseri diz que a rede só está a acompanhar os utilizadores.

"Vamos continuar a apoiar as fotografias, é parte da nossa herança, mas tenho de ser sincero: acredito que o Instagram vai ter mais e mais vídeos com o tempo, mesmo que não mudemos nada e que conservemos a ordem cronológica. Isso percebe-se pela forma em que o conteúdo é consumido e pelo que os utilizadores estão a publicar", insistiu Mosseri, numa resposta que não agradou a Illumitati, que afirma que o algoritmo valoriza mais os vídeos do que as fotografias e que "é frustrante conseguir interações quando se publica fotos".

O diretor do Instagram não deixou a reclamação sobre o algoritmo de fora e afirmou que este tem como objetivo mostrar às pessoas "aquilo que de outra forma não sabiam que existia". Mas lembrou que se esses conteúdos não interessam, o Instagram está a fazer alguma coisa e que o utilizador pode ocultar essas publicações e silenciá-las durante um mês.

Apesar de não responder diretamente à publicação de Tati Bruening, a declaração de Adam Mosseri acabou por ser vista positivamente pelos utilizadores, uma vez que viram o vídeo como uma abertura ao diálogo. No entanto, na caixa de comentários do vídeo, a frase da publicação da fotógrafa norte-americana repete-se, de várias formas, ao longo dos mais de 21 mil comentários: devolvam as fotos ao Instagram e parem de inventar.

"Instagram percebeu que os utilizadores queriam coisas diferentes"

Nuno Ribeiro, managing partner da agência de inovação Instinct, explica, em entrevista à CNN Portugal, que as mudanças feitas pela rede social - e que a comparam à concorrente TikTok - são normais e surgem porque "o Instagram está a perceber o que é que as pessoas querem mais ao dia de hoje".

"É sempre normal quando há mudanças que haja sempre resistentes à mudança e os saudosistas daquilo que era o passado, mas certamente que se o Instagram o fez, fez porque percebeu que os utilizadores queriam coisas diferentes", afirma o especialista, dando como exemplo o Flickr, uma rede social de partilha de fotografias que "continua fiel aos seus princípios e tem vindo a perder utilizadores, deixou de estar na moda e foi ultrapassada pelo Instagram, e já ninguém fala dele".

Para Nuno Ribeiro, "é normal que as redes sociais se adaptem para seguir as tendências que são os desejos dos seus utilizadores" e terão sido esses os motivos para que o Instagram adaptasse a rede e desse aos utilizadores novas funcionalidades e novas abordagens nos conteúdos.

Também Graça Canto Moniz, especialista em proteção de dados e redes sociais, considera que são estas adaptações que têm mantido o Instagram como uma das aplicações mais utilizadas da Meta, dona do Instagram e do Facebook.

"A Meta tem vindo a adaptar os seus produtos, e o Instagram é o exemplo óbvio disso, de maneira a garantir que os seus utilizadores desses vários produtos passam o maior número de tempo nas suas plataformas", considera a docente.

Para Graça Canto Moniz, o Instagram e Tik Tok acabaram por captar utilizadores que estavam no Facebook e estas redes tiveram de se mostrar apelativas para conseguirem manter os utilizadores nas suas plataformas, o máximo de tempo possível. No entanto, apesar das transformações "para captar a nossa atenção, de formas diferentes e cada vez mais criativas", depois da aquisição do Instagram pelo Facebook, "a organização passou por se confundir com o Facebook e há algumas pessoas que entendem que essa compra acabou por ser a machadada final à ideia artística de ter um Instagram quase puro".

Vídeos ou fotografias? O algoritmo decide

A grande guerra entre utilizadores e o Instagram é para que as fotos sejam priveligiadas perante o algoritmo e não os vídeos. Mas como funciona este algoritmo que está a irritar quem quer que as suas fotos alcancem mais gostos? Nuno Ribeiro explica que esta "preferência" deverá ser fruto de uma análise do Instagram, até porque "o algoritmo é suposto ser inteligente para se adaptar ao seu utilizador", mas que haverá um ponderador diferente entre fotos e vídeos.

"Se o Instagram percebeu que o utilizador gosta mais de vídeos e tem mais retenção/atenção aos vídeos do que às fotografias, é normal que o algoritmo puxe mais pelo vídeo do que pelas fotos. Por outro lado, a partir do momento em que estão disponíveis vídeos, é normal que o Instagram queira mostrar que existem esses vídeos e, portanto, começaram a ser criados mais vídeos. Isso cria um efeito bola de neve de uma forma automática", afirma, acrescentando que "se o algoritmo seguir as preferências do utilizador como é suposto também, o Instagram consegue perceber se olhamos mais para vídeos ou mais para fotos, se interagimos mais com vídeos ou mais com fotos, pessoas que seguem mais ou menos as mesmas páginas do que eu e que têm mais ou menos o mesmo tipo de amigos que eu tenho, como é que elas interagem, e o algoritmo adapta-se a cada uma. Estes algoritmos não são algoritmos iguais para todos, nem toda a gente vê a mesma coisa, da mesma forma. Portanto, o algoritmo é suposto ser inteligente para se adaptar ao seu utilizador".

Graça Canto Moniz diz que "a fotografia no Instagram era o conteúdo que era valorizado pela rede e havia uma participação crescente do utilizador", mas o surgimento de plataformas como o TikTok e o Snapchat forçaram a aposta no vídeo, apesar do risco de repetição de conteúdos. 

"Acho que é uma questão de concorrência entre a Meta e o TikTok , que estão a concorrer diretamente pela nossa atenção e, por outro lado, se calhar há repetição de conteúdos. Mas isso passa-se também um bocadinho com as plataformas de streaming", afirma, acrescentando, no entanto, não saber se iremos "chegar a um ponto em que as pessoas dizem que estão fartos e vão sair das redes sociais".

A docente garante que "o fim das redes não está perto", apesar do declínio do Facebook, e que "a aposta no desenvolvimento no tipo de serviço que as redes sociais prestam" mostra que as pessoas sabem escolher o que querem consumir em cada rede.

Nuno Ribeiro vai mais longe e garante que o fim das redes sociais não é sequer tema até porque todos os dias há novos formatos, novas redes sociais alternativas e concorrentes.

"Têm surgido outras redes sociais, e vamos ter como nos mass media: vamos ter os social media mass. Depois vamos começar a ter alguns nichos em áreas específicas, como temos o Pinterest, a Be Real, e, portanto, com aquilo que possam ser as fragilidades de alguns mass social media, podem surgir oportunidades para pequenos novos players. Mas não me parece que seja o fim dos media sociais, do Instagram, nem do TikTok, nem de nada disso. Acho é que há espaço para irmos a outros segmentos de mercado e a outras preferências, porque há gostos para tudo, e depois é difícil quando se faz uma coisa de massas conseguir chegar a determinado segmento de mercados. E é por isso que surgem oportunidades", considera.

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