OUTROS 3 D || Falta falar do protagonismo dos africanos no 25 de Abril, trocar a palavra “descobrimentos” por “expansão marítima” e ensinar que as glórias convivem com as atrocidades. Falta descolonizar o imaginário, mas também perceber este presente em que “há um racismo estrutural, institucional, epistémico e interpessoal”. Inocência Mata denuncia. Argumenta. E conta que diz ao filho para não discutir com a polícia se for abordado. “Para a polícia, qualquer jovem negro é um bandido, é uma ameaça”. Um racismo que também se vê na nacionalidade: “Não consigo imaginar um imigrante de terceira, quarta geração. Esse imigrante é um nacional. Esta discriminação só se faz com os negros. Senão, a Assunção Cristas, que exibe o seu bilhete de identidade de angolana, seria também imigrante de segunda geração. Mas não. Ela é branca. Ela é portuguesa”. E já agora, “O indivíduo que pediu a naturalização há 30 anos ou 40 comete um crime: é expulso para onde?”
Inocência Mata é professora de Literatura e Estudos de Cultura na Universidade de Lisboa. Nasceu em São Tomé e Príncipe. Os estudos pós-coloniais e o racismo são alguns dos seus temas de investigação e trabalho. A descolonização foi má? E podia ser boa? Sem dúvida: desconstrução é uma palavra positiva.
(Esta entrevista faz parte da série OUTROS 3 D: desconstrução, desacreditar, desigualdade, um projeto de Anabela Mota Ribeiro para a CNN Portugal)
Prefere desconstruir ou desconstrução? Que se tocam intimamente, mas não são a mesma coisa.
Não são. Desconstrução é um processo. Desconstruir eu vejo como um gesto que leva a esse processo. Fui co-curadora de uma exposição do Museu Nacional de Etnologia, “Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário”. Desconstruir é um conjunto de ações, gestos, passos que levam ao processo de desconstrução.
É um verbo, uma acção. A outra palavra tem que ver com duração.
É um processo, muito dinâmico, nunca pressupõe um fim. A desconstrução leva ao descentramento de um olhar hegemónico.
Ou seja, o olhar europeu, e neste caso português, sobre o hemisfério sul.
Sim. Sendo que o hemisfério sul pode estar aqui, não é?
Para quem faz a história, para quem ausculta a realidade recente (e não tão recente, uma vez que não é possível falar do recente sem convocar uma realidade secular), como elidir essa leitura hegemónica que contaminou os manuais escolares e o pensamento?
É muito difícil. Uma aluna disse-me: “Tenho outros professores de Estudos Africanos. Quando entro nas suas aulas, parece que estou numa universidade diferente”. Perguntei porquê. Porque nos meus programas trago teóricos de todas as latitudes. E se é uma unidade curricular como Literaturas e Culturas Africanas, trago primordialmente teóricos africanos. Não fico apenas nos teóricos europeus. Numa avaliação recente na Faculdade de Letras, um colega disse que não olhava para a nacionalidade dos autores quando fazia os seus programas. Respondi: “O teu programa só tem homens brancos, do ocidente”. É isso que é a desconstrução: dizer aos alunos que há formas alternativas de pensar as questões. Há outras formas de ler um romance. Que não apenas a ideia de que um romance é universal. Universal é uma palavra que não digo, que abomino.
Porquê?
Porque o universal é apenas o mais difundido.
E não atenta no específico, e sucumbe ao dominante, é isso?
Exactamente. Um escritor africano, na mente de determinados colegas meus, é universal quando dialoga com Walt Whitman, com escritores do ocidente. Nunca falam de James Baldwin. Mas o James Baldwin também não me iria sossegar, porque é ocidental e americano. Não obstante ser negro.
Um escritor universal, à luz do que pensam esses colegas, é aquele que dialoga com o cânone.
Portanto, a desconstrução passa também por dizer aos alunos que o cânone é uma construção. A academia há muito tempo que deixou de ser uma instância poderosa de legitimação literária. Agora é a crítica jornalística, são as vitrinas.
Desconstrução [é] dizer aos alunos que há formas alternativas de pensar as questões. Há outras formas de ler um romance. Que não apenas a ideia de que um romance é universal. Universal é uma palavra que não digo, que abomino. Porque o universal é apenas o mais difundido."
Quando usamos a palavra desconstrução, este ano, não podemos perder de vista os 50 anos das independências e da descolonização. Estamos só agora a começar a libertar o imaginário? Quão atrasados estamos?
Estamos muito atrasados. Estamos muito atrasados.
Nas mentalidades, no imaginário, também nos aspectos práticos?
Sim. Comecemos pela forma como este momento da História que vai do século XV ao século XX é ensinado às crianças. Existe uma rasura total de outros sujeitos. E ainda se continua a não questionar termos como “os descobrimentos”.
É preciso rever o léxico? Que palavra propõe?
Expansão marítima. Que é o que foi. É possível dizer aos alunos que as glórias convivem com as atrocidades. Quando se ensina que da África vinha ouro, marfim, prata e escravos, não se está a desconstruir a narrativa histórica. Os alunos vão naturalizar a escravatura.
Outra [falácia]: a de que os africanos não tiveram nada a ver com o 25 de Abril. Tenho muito orgulho em participar em duas iniciativas que trazem a África e os sujeitos africanos para as comemorações do 25 de Abril: a exposição a que já fiz referência e a exposição “Álbuns de Família”. Não reconhecer a importância de África na revolução é uma forma de perpetuar, de reificar os sujeitos africanos. Isso não tira nenhum heroísmo, nenhum valor aos capitães de Abril. Claro que não foram os africanos que fizeram o 25 de Abril. Mas há um denominador comum entre os capitães: tinham estado em África. Capitães, e não generais e majores.
Está a sublinhar o peso da guerra colonial no movimento dos capitães. Ao usar a expressão “guerra colonial”, estamos a dizê-lo a partir de um ponto de vista português.
Que eu aceito. E que é diferente de dizer guerra de libertação. Os capitães de Abril foram protagonistas. Ninguém está a dizer que não. Porém, os capitães não fizeram o 25 de Abril por causa do fascismo. Foi por causa da guerra.
Quando se ensina o 25 de Abril, não há referência ao protagonismo dos africanos. Para mim, isto também é uma forma de desconstruir, de descolonizar o imaginário. Como é dizer que os africanos não estão cá apenas depois do 25 de Abril — que é o que pensam os Venturas desta vida."
Nem mais um soldado para as colónias — um dos slogans do tempo.
A diversidade ideológica que depois se manifestou mostra que a única coisa que os unia era precisamente a vontade de acabar com a guerra.
Para clarificar o seu ponto: considera que a componente mais ideológica, mais política de luta contra o fascismo estava com o PC e com os resistentes antifascistas e que a acção directa dos capitães decorreu da guerra colonial?
Sim. Eu também levanto a faixa a dizer que o 25 de Abril nasceu em África. O Comandante Manecas [político do PAIGC] diz que nasceu na Guiné-Bissau. Esses jovens estavam fartos da guerra. Tiveram uma coragem... é preciso tirar-lhes o chapéu. A questão é que, quando se ensina o 25 de Abril, não há referência ao protagonismo dos africanos que conduziu ao 25 de Abril. Para mim, isto também é uma forma de desconstruir, de descolonizar o imaginário. Como é dizer que os africanos não estão cá apenas depois do 25 de Abril — que é o que pensam os Venturas desta vida. Isabel Castro Henriques é aquela que mais sistematicamente tem estudado a presença africana em Portugal.
Outro aspecto muito importante: quando se fala de retornados, pensa-se apenas em brancos.
Vamos usar genericamente a palavra retornados sabendo que para muitas pessoas não era um retorno, uma vez que nunca tinham estado aqui. O discurso preponderante é: vieram com a roupa que tinham no corpo e deixaram tudo para trás.
Tive uma colega que me disse 102 vezes que os avós trabalharam a vida toda em África e vieram sem nada. E à centésima segunda vez retorqui: “Sabes, a minha avó nasceu e cresceu em África, trabalhou a vida toda e morreu sem nada também”. São dramas humanos que respeito. Mas, sinceramente, trabalhar a vida toda e morrer sem nada é o pão nosso de cada dia de 80% dos africanos. Estas questões não me comovem.
Retomo: os retornados eram só brancos e os africanos são de primeira geração — o que não é verdade. Não consigo imaginar um imigrante de terceira, quarta geração. Esse imigrante é um nacional. Esta discriminação só se faz com os negros. Senão, a Assunção Cristas, que exibe o seu bilhete de identidade de angolana, seria também imigrante de segunda geração. Mas não. Ela é branca. Ela é portuguesa. Ninguém pôs em causa a sua portugalidade.
Portanto, são vários cartuchos que têm de ser desconstruídos. Tem a ver com questões epistemológicas, como o ensino, e com questões do nosso quotidiano.
Não consigo imaginar um imigrante de terceira, quarta geração. Esse imigrante é um nacional. Esta discriminação só se faz com os negros. Senão, a Assunção Cristas, que exibe o seu bilhete de identidade de angolana, seria também imigrante de segunda geração. Mas não. Ela é branca. Ela é portuguesa. Ninguém pôs em causa a sua portugalidade."
O que é que considera gritante sobre a memória da colonização, a nostalgia desse passado glorioso, essa dor de ter deixado tudo para trás?
O que temos flagrantemente disso? A questão da nacionalidade. Estou a pensar em pessoas que trabalharam durante o tempo colonial e que não são portuguesas. Por exemplo, os comandos africanos fizeram horrores defendendo a bandeira portuguesa. Comandos africanos guineenses, e outros. Ao serviço de Portugal. Para mim era a coisa mais natural eles terem a nacionalidade portuguesa. Não acontece porque são negros. Mesmo funcionários públicos que trabalharam a vida toda a favor de Portugal. Não são portugueses. Sem falar naqueles que nasceram aqui. Tenho uma amiga que é professora universitária em Angola. Estudou cá a vida toda, teve um filho cá. Só quando o filho fez 18 anos é que se apercebeu de que o filho não tinha a nacionalidade portuguesa. A questão da nacionalidade é um problema sério. Porque constrange o quotidiano de muita gente. Dá ideia de que existem portugueses de 1ª e portugueses de 2ª.
A lei da nacionalidade traduz isso?
Sim. E o que se pretende agora fazer, também. O indivíduo que pediu a naturalização há 30 anos ou 40 comete um crime: é expulso para onde? Entretanto, o indivíduo que vem da Venezuela e que tem a nacionalidade portuguesa: por ser branco, de certeza que não o vão enviar para a Venezuela. Portugal é um país que concede a nacionalidade portuguesa aos descendentes de pessoas que foram expulsas no século XVI.
Judeus maioritariamente sefarditas.
E que não falam a língua portuguesa. Todo o mundo acha muito bem. Porque é reparação histórica.
Pensa que a reparação histórica em relação aos judeus não suscitou a mesma discussão porque o preconceito em relação a estes é o de que são brancos e ricos?
Eu não sei se são brancos e ricos, mas que são brancos...
Em relação aos negros, o preconceito é o de que são negros logo pobres?
Negros logo pobres. E negros logo africanos. Perguntei a uma colega: “Como é que sabes que aquele homem é africano? Quando olhas para o Mia Couto, vês que ele é europeu?” Percebe? Mia Couto, João Paulo Borges Coelho, Pepetela, os Boers, são africanos. Negros africanos: é outra discussão. É aí que Portugal está muito atrasado. Há um racismo estrutural, institucional, epistémico e interpessoal. Que é o mais básico e aquele que afecta mais diretamente a vida das pessoas.
Há um racismo em função da cor da pele.
A que estou a chamar racismo interpessoal.
E há um racismo de classe.
Já várias vezes me aconteceu. Vou para uma reunião e a primeira pergunta que me fazem: “Representa que embaixada?”. Porque eu transito. Há quatro anos, numa sessão na universidade, uma colega tomou-me por empregada. Eu era a única negra. Estando naquele lugar, só podia ser empregada.
Está a afirmar que as pessoas se espantam que seja uma professora universitária porque é negra. Estamos a tocar outro problema: no lugar que as pessoas negras ocupam na sociedade portuguesa.
Isto acontece num país que teve uma história de colonização em África. É muito básico, as pessoas ainda estão muito presas à cor da pele. Não é pior do que o racismo institucional.
Há quatro anos, numa sessão na universidade, uma colega tomou-me por empregada. Eu era a única negra. Estando naquele lugar, só podia ser empregada."
Como o definiria?
Aconselho o meu filho, que tem 18 anos, a não discutir com a polícia se for abordado. “Não discutas!, faz tudo o que ele quiser.” Para a polícia, qualquer jovem negro é um bandido, é uma ameaça. Isto é um racismo institucional. Porque há toda uma construção narrativa para culpabilizar o jovem.
Há uns 10 anos, antes de emergirem Trumps, Bolsonaros, Venturas, participei num evento em que jovens criticavam o politicamente correcto. Defendiam que as pessoas devem dizer o que pensam. Não, as pessoas não podem dizer tudo o que pensam. A liberdade de expressão não lhes dá o direito de ofender o outro. Assim como não podemos fazer tudo o que queremos. Se pudéssemos, eu batia em muita gente. Sabe porque é que não bato? Porque há consequências. Aquilo a que alguns chamam liberdade de expressão contra o politicamente correcto, eu chamo normas de boa convivência. Civismo. Eu policio-me, mesmo verbalmente. Em Portugal, cada vez menos se tem essa preocupação.
Nos últimos anos, o racismo deixou de estar escondido. Ainda que tivessem um comportamento racista, as pessoas tinham embaraço em assumir que eram racistas. Conheciam racistas, mas o racista era o outro, não o próprio. A realidade mudou, a inibição desapareceu.
É claro que são os sinais dos tempos. Tenho familiares que vivem no Reino Unido e que também são atentos a isto. Lá, ter um comportamento racista é grave. Em Portugal já não é. Nem racista, nem xenófobo, nem machista.
O que é que o permite?
Penso que tem a ver com não se ter feito uma descolonização das mentalidades. Quando nas cerimónias do 25 de Abril Marcelo Rebelo de Sousa fala de reparações, o líder da extrema-direita diz que o presidente devia ser julgado por traição à pátria. Oh, meu Deus. Ou não lê nada do que se passa no mundo. Ou não sei. A discussão sobre as reparações, sobre o retorno das obras de arte está a ser feita em todo o lado.
É a favor?
Sou a favor! Claro que é preciso discutir os termos. Não se vai devolver uma estátua de Ogum à nação de Ogum. Mas em 90% dos casos as obras de arte foram simplesmente retiradas dos seus lugares de origem.
Como fazer a reparação? Economicamente? Nomeadamente financiando a construção de infraestruturas.
Não defendo que a reparação seja sobretudo económica. Do ponto de vista económico-financeiro defendo o cancelamento das dívidas. Não gosto de perdão. É cancelamento. Não sem condições. O dinheiro do cancelamento das dívidas tem de servir para alguma coisa. Não é para ir para bancos na Suíça. Eis a razão pela qual nem quero ouvir falar de remuneração. Não em África. Também não gosto da expressão: ajuda ao desenvolvimento. Prefiro: ajuda à reestruturação social. Sabemos perfeitamente em que é que a ajuda ao desenvolvimento dá. Em 10 mil euros, 5 mil são para pagar aos técnicos europeus (ficam na Europa), 3 mil são para subornar governantes africanos, sobram 2 mil para a tal ajuda. Defendo o fornecimento de tecnologias, meios para os africanos se reestruturarem. Bolsas, vistos.
Fala de ações concretas. A construção de países que nasceram há 50 anos faz-se desconstruindo séculos.
Não se trata de construir a identidade. Trata-se de construir o país. A questão da identidade é muito importante. Chocava-me que houvesse políticos africanos, angolanos particularmente, que importavam sardinha de Portugal para fazer o São João. O grande desafio é o a da construção do território e de uma sociedade mais justa. Com equipamentos, hospitais, escolas. Isto não tem a ver com a luta contra a mentalidade colonial. Tem a ver com a luta pela construção do país.
Entre a pobreza e a guerra: foi a realidade durante anos das antigas colónias portuguesas. Estão ainda a reerguer-se disto?
Houve países que não tiveram guerra.
Por isso falei de pobreza.
Eu diria: entre a guerra e a corrupção. Na Europa também há corrupção. E se não houvesse mecanismos de controlo social também haveria na Noruega e na Dinamarca. Não são melhores homens do que os outros. Tem isto a ver com a construção social, com a existência de mecanismos que impeçam as pessoas de serem corruptas. Quando são apanhadas, comem. Esta punição não existe em Angola. Pelo contrário. Daí a ostentação da riqueza. Nos países nórdicos não se ostenta porque se respeita a precariedade dos outros.
Não gosto da expressão: ajuda ao desenvolvimento. Prefiro: ajuda à reestruturação social. Sabemos perfeitamente em que é que a ajuda ao desenvolvimento dá. Em 10 mil euros, 5 mil são para pagar aos técnicos europeus (ficam na Europa), 3 mil são para subornar governantes africanos, sobram 2 mil para a tal ajuda."
Falou do básico: educação, saúde, comida e casa.
O básico. É aceitável que um país como Angola tenha tantos milionários e quatro milhões de meninos que não têm escola? Não é. Devo dizer que Cabo Verde e São Tomé e Príncipe dão cartas ao nível da Educação.
A descolonização da língua é uma questão premente? As línguas locais foram abafadas pelo português.
O português já está descolonizado há muito tempo. As pessoas falam a língua portuguesa como a sentem. Não me refiro aos que falam mal português e para quem o português é a segunda ou terceira língua. Refiro-me aos que falam português como língua materna e que é um português diferente do português europeu. É um tópico importantíssimo e deve ser discutido: que português ensinar? Ensina-se o português europeu sendo que as pessoas não falam o português europeu.
Pode concretizar?
Ensinar que o verbo ir pede sempre uma preposição de movimento, é inglório. Nenhum menino vai dizer: vou a casa da minha avó. Todos vão dizer: vou na casa da minha avó. Ninguém diz: eu vi-o no mercado. Toda a gente diz: eu lhe vi no mercado (em Angola); eu vi ele no mercado (no caso de São Tomé e Príncipe).
Uma frase que atravessou 50 anos: a descolonização foi mal feita.
Não sei muito bem o que é que isso quer dizer. Não uso essa frase. Eu falo de conquista da independência. Quem é que diz essa frase? Pessoas que nem sequer concordam com ela. Foi a possível! Seria sempre imperfeita. Salazar sempre se recusou a dialogar com os movimentos independentistas. A guerra foi a última solução. Spínola ainda tentou evitar a descolonização. Falar de descolonização dá aos colonizadores o protagonismo.
Embatemos novamente na importância das palavras. A discussão destes temas é relativamente recente em Portugal e tornou-se mais aguda com o crescimento da extrema-direita. Qual é o seu comentário?
A extrema-direita cresce não por causa da conjuntura específica de Portugal, mas por causa da conjuntura europeia e mundial. A extrema-direita cresceria sem a discussão anti-racista. Vivemos tempos difíceis. No caso de Portugal foi uma coincidência nefasta, arrasadora para os movimentos anti-racistas e de reivindicação de pertença. Uma coisa que os africanos e afro-descendentes fazem é, justamente, reivindicar a pertença à nação portuguesa: porque é que eu não sou português?, por ser negro?
O discurso oficial (numa apreciação benévola) procura o comedimento, não acicatar os ânimos. É uma maneira de não reconhecer a natureza racista que está entranhada no país?
Tenho amigos que ficam incomodados quando se diz que o país é racista. Amigos portugueses brancos. Compreendo. Isto é: dizendo que o país é racista até parece que existe um articulado legal que legitima o racista. O que existe é um racismo estrutural que passa despercebido na sociedade portuguesa.
Que definição dá para racismo estrutural?
Aquele racismo que normaliza as desigualdades entre as raças. Não está escrito. Mas já sei que o melhor percurso para um jovem negro que acaba o nono ano é uma via profissional. Já sei que quando entro num lugar qualquer tenho alguém atrás de mim: há a suspeita de que posso roubar. A minha filha sofre de discalculia; é uma dislexia de números. Tinha 10 anos e não sabia contar dinheiro. Um professor, numa escola boa de classe média, disse-me: “A sua filha não sabe matemática. Se calhar é um problema de língua, de não entender o português”. A minha filha tinha notas boas a português, lia imenso. Porque é negra, o professor achou que o problema dela era a língua. Isto é racismo estrutural.
Os movimentos lutam para o reconhecimento desta realidade.
Esse é o começo: o reconhecimento de que existe este problema. Tive um processo em tribunal no qual o meu advogado me aconselhou: “Não vamos falar de assédio laboral nem de racismo. Isso vai indispor qualquer juiz”. Está na linguagem. Uma colega disse-me num almoço: “Trabalhei tanto, trabalhei como uma negra”. É óbvio que não me estava a agredir. Mas respondi: “Eu levanto uma chávena e já estou a trabalhar como uma negra”. Um mal-estar!
É preciso descolonizar a língua.
Sem sombra de dúvidas. A língua é ideológica. Eu não uso a palavra “denegrir”.
Desconstrução, desacreditar, desigualdade. Todas têm um prefixo negativo. Precisamos desta couraça para enfrentar os próximos tempos? Como ter esperança?
Acho que é desigualdade é que tem o prefixo negativo. Porque vai contra a igualdade. E desacreditar é necessário. É uma boa conjugação. Um prefixo negativo. Um prefixo cuja interpretação depende do contexto. Desconstruir é claramente positivo. O sinónimo não é destruir. São coisas muito diferentes. É renovar o que está mal. É voltar a construir algo, bem, melhor.
OUTROS 3 D’s: desconstrução, desacreditar, desigualdade é uma série de entrevistas conduzidas por Anabela Mota Ribeiro. Não perca, nas próxima segundas feiras de agosto.