Cardiologistas exigem acesso a injeções mágicas contra a diabetes e a obesidade

18 fev, 00:04

Sociedade Portuguesa de Cardiologia lança petição pública pela comparticipação do Estado em tratamento que custa 250 euros por mês

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) lançou uma petição pública a exigir mudanças nas regras de prescrição e comparticipação da nova geração de medicamentos injetáveis indicados para a diabetes e a perda de peso. Os cardiologistas reclamam o direito de os receitar aos seus doentes com insuficiência cardíaca, assim como aos já afetados por enfartes ou acidentes vasculares cerebrais. “Na perspetiva dos cardiologistas, isto são medicamentos para reduzir o risco cardiovascular”, afirma Cristina Gavina, presidente da SPC, em entrevista à CNN Portugal, sublinhando que o objetivo não é estético, mas clínico.

O pedido fundamenta-se no ensaio clínico internacional SELECT, publicado há dois anos na revista The New England Journal of Medicine. Esse estudo concluiu que a semaglutida de 2,4 mg, tomada uma vez por semana, reduziu em cerca de 20% o risco de eventos cardiovasculares maiores, comparado com placebo. Na dosagem do estudo, corresponde ao Wegovy, medicamento não comparticipado em Portugal e que custa aos doentes cerca de 250 euros por mês. É o mesmo princípio ativo do Ozempic: a diferença é que este é comparticipado e está no mercado em dosagens mais baixas.

A SPC defende que a comparticipação será um bom investimento para o SNS, pela redução de cirurgias, internamentos e outros cuidados médicos dispendiosos. “O ganho vai ser a pessoa não ter, por exemplo, a insuficiência cardíaca, um novo enfarte, um novo AVC, porque na realidade estes medicamentos parecem ter um efeito anti-inflamatório muito potente e reduzem também os outros fatores de risco”, defende a cardiologista.

Os doentes não devem nunca avançar para a automedicação, mas sim garantir acompanhamento médico. É imperativa a vigilância de efeitos adversos, no imediato e ao longo do tempo. “Embora pareça que estamos a observar benefícios impressionantes para a saúde com estes medicamentos, devemos estar abertos à possibilidade de que futuras pesquisas nos mostrem que as pessoas que os tomam a longo prazo podem ter vidas mais longas ou mais curtas”, escreve Marty Makary, professor da Universidade Johns Hopkins e membro da Academia Nacional de Medicina dos EUA, no seu livro "Cegueira Clínica" (Leya, 2025).

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