O debate em que a Iniciativa Liberal pisca à esquerda e à direita como Ruth Marlene e o CDS "cancela um grupo parlamentar inteiro"

5 jan, 19:10

Francisco Rodrigues dos Santos colocou a Iniciativa Liberal ​junto ao Bloco: "São em tudo iguais à esquerda, tirando na economia". Mas para João Cotrim Figueiredo isso não é necessariamente mau: "Quando nós somos atacados pela esquerda e pela direita, alguma coisa devemos estar a fazer bem"

O debate das direitas, uma mais tradicional e outra mais liberal, ficou marcado pelas sucessivas interrupções. Em 25 minutos, foram raras as frases de Francisco Rodrigues dos Santos e de João Cotrim Figueiredo que tiveram um início e um fim e isso deveu-se essencialmente às visões diferentes que têm sobre a própria da direita, sobre as privatizações e ainda o aumento do salário mínimo nacional. Só houve um ponto em que o democrata-cristão e o liberal estiveram de acordo: não vão viabilizar uma solução governativa do PSD que conte com o apoio do Chega. 

O presidente do CDS-PP invocou Ruth Marlene, para dizer que a Iniciativa Liberal (IL) pisca à direita e à esquerda, e Iran Costa, na canção "O bicho" porque também não se conseguem posicionar e "inventam eixos especiais" para definirem no espectro político. 

"É a política feijão-frade, duplas caras, à esquerda e à direita. É a Ruth Marlene da política, pisca à esquerda e à direita". Uma acusação que surge depois de Cotrim Figueiredo ter afirmado que as pessoas que estão a entrar agora na vida política "estão muito pouco interessadas" nas divisões entre esquerda e direita, mas sim "em quem lhes diz alguma coisa do ponto de vista da resolução dos seus problemas". 

No entanto, Francisco Rodrigues dos Santos não tem dúvidas em colocar a IL junto ao Bloco de Esquerda: "São em tudo iguais à esquerda, tirando na economia". E deu como exemplos os votos no que toca à eutanásia, às drogas leves e à liberalização da prostituição. Cotrim Figueiredo defendeu-se dizendo que "as pessoas devem ser livres de fazer as suas escolhas" e acusou Francisco de usar o mesmo discurso do Bloco para criticar o partido. 

"Quando nós somos atacados pela esquerda e pela direita exatamente da mesma maneira, alguma coisa devemos estar a fazer bem", acrescentou. 

Foram vários os nomes de peso que se desfiliaram do CDS. Adolfo Mesquita Nunes, António Pires de Lima, Inês Teotónio Pereira, João Maria Condeixa, Michael Seufert, Vânia Dias da Silva, João Almeida. Entre outros. Questionado sobre se tem medo que os ex-CDS e o eleitorado insatisfeito contribua para um bom resultado eleitoral da IL, Chicão disse que "há pessoas que saíram agora do CDS, mas o CDS já tinha saído delas há muito tempo" e assegurou que "aqueles que ficam são mais do que suficientes" para um bom resultado.

Vídeo: Veja o debate entre Cotrim Figueiredo e Rodrigues dos Santos em três minutos

Já Cotrim Figueiredo disse que não vai "à caça" dos democratas-cristãos descontentes, mas "respeita" aqueles que saíram e que vêem na IL "um partido que melhor reflete aquilo que eles pensam".

“Os espectadores acabaram de perceber porque é que na ceia de Natal o CDS acaba sozinho, porque o CDS acabou de dizer que 'fazemos acordos com outros partidos se eles pensarem o mesmo que nós. Sendo o Francisco Rodrigues dos Santos o líder mais novo dos líderes partidários, tem a cabeça mais velha de todos eles". 

Uma referência irónica ao vídeo de Natal que o presidente do CDS-PP fez, no qual classificou a IL como a "prima modernaça”, o Chega como o primo que tem "ideias um bocado tontinhas" e o PSD como o "irmão desaparecido em combate". O deputado único chegou mesmo acusar o adversário de ter uma "cultura de cancelamento" e, por isso mesmo, "cancelou um grupo parlamentar inteiro". 

O único ponto de acordo: o Chega

O líder do CDS-PP deixou claro, no debate desta quarta-feira, que o partido de André Ventura é a "linha azul", visto que não gosta das vermelhas, para apoiar uma solução governativa de Rui Rio e deixou nas mãos do Chega a responsabilidade para que não haja um governo de esquerda.

"É um limite. Nós não integraremos nenhum governo em que participe o Chega e cabe ao Chega decidir no parlamento se viabiliza ou não um governo de centro direita".

Ainda Cotrim Figueiredo não tinha respondido à mesma pergunta - se viabilizaria um governo PSD com o apoio do Chega - e já Francisco lançava uma segunda: "E se o PS puder governar com os votos do Iniciativa Liberal apoia ou não António Costa?”. O deputado único foi singular na resposta. É não. 

"Digo, pela centésima vez, com acordos com o Chega não contribuiremos para uma solução governativa dentro ou fora do governo". E se isso contribuir para que a esquerda caminhe para o poder? "É um ónus do Chega".

Salário mínimo nacional e privatizações 

Os dois dirigentes, que disputam o mesmo eleitorado, entraram em desacordo no que toca às privatizações da TAP, da RTP e da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Cotrim Figueiredo defende as três, mas Francisco tem dúvidas nas últimos duas.

“Nós não somos capitalistas selvagens, nem colocamos a economia à frente das pessoas. Nós defendemos tanto a privatização da TAP, sobre a RTP, eu acredito que desenvolve um serviço público importantíssimo", disse o presidente do CDS. Sobre a CGD disse apenas que "é importante que haja um banco público". 

O aumento do salário mínimo nacional para 900 euros, como propõe o governo, foi também um ponto de discórdia, com a IL a considerar que a "medida não é razoável em função da atual situação" e deve ser vista em conjunto com outros fatores como a produtividade e o CDS a defender a tomada da decisão "em sede de concertação social". Para Cotrim Figueiredo o problema de Portugal reside no salário médio e a única forma de o resolver é mudar o modelo económico. 

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