Antigo internacional inglês recorda a relação explosiva com o agora técnico do Benfica e revela bastidores do Chelsea de Abramovich
Joe Cole revelou novos detalhes sobre os bastidores do Chelsea de José Mourinho, numa altura em que o treinador português, hoje à frente do Benfica, dava os primeiros passos na Premier League e mudava para sempre a forma de treinar e competir em Inglaterra.
Nas memórias incluídas na sua autobiografia «Luxury Player» a que o The Telegraph teve acesso, o antigo internacional inglês, de 43 anos, descreve um período de glória e tensão sob o comando de Mourinho e a influência direta do então dono do clube, o russo Roman Abramovich.
Cole admite que chegou a um ponto de rutura com o treinador português durante a época 2005/06, quando o Chelsea conquistou o segundo título consecutivo da Premier League.
«Fui falar com Abramovich porque queria sair. Disse-lhe que eu e José não nos estávamos a entender e que o melhor era seguir caminho», contou o inglês.
Segundo Cole, o magnata russo ouviu-o em silêncio antes de responder.
«O José é, por vezes, rápido do coração à boca. Mas, Joe, queremos que fiques», disse Abramovich, apontando primeiro ao peito e depois à boca.
«Não sabia o que dizer. No fim, aceitei. E assinei o novo contrato em março desse ano», revelou.
O antigo médio também revive o célebre episódio do balneário após a derrota do Chelsea por 2-1 no Camp Nou, frente ao Barcelona, em 2005.
«'Foi a nossa primeira grande prova e falhámos', gritava Mourinho. Chamou-nos cobardes. Disse que o Cech, Terry e Lampard tinham sido destruídos por Eto’o e Deco. Nunca o vi tão furioso», refere o relato de Cole.
O treinador português, no entanto, sabia equilibrar a crítica com o apoio.
«Quando me abraçou depois da vitória por 4-2 em Stamford Bridge, gritou para os adeptos: ‘Joe Cole! Ganhámos por causa dele!’ Naquele momento, senti que o tinha conquistado», recorda o inglês.
Joe Cole reconhece que Mourinho trouxe uma revolução ao futebol inglês.
«Foi o primeiro treinador que vi usar apanha-bolas nos treinos para nunca parar o jogo. Tudo era cronometrado, sem pausas, sem conversas. Treinávamos a jogar futebol. Hoje parece normal, mas na altura era algo completamente novo».
O português, que chegara a Londres após conquistar a Liga dos Campeões com o FC Porto, surpreendeu até os veteranos.
«John Terry ligou-me no primeiro dia a perguntar: 'Mas não corremos?'. Com Mourinho, até os alongamentos tinham propósito. Mentalmente, era exaustivo, mas tornava-nos mais fortes», contou Cole.
Mourinho chegou a dizer-lhe que podia ter contratado Deco, então estrela do FC Porto, mas preferiu apostar em Joe Cole.
«Disse-me: 'Podia ter o Deco, mas quero-te a ti, Joe'. Acreditava em mim, mas também sabia puxar até ao limite. Queria que aprendesse com a mentalidade dos jogadores que teve no FC Porto, como Derlei, obcecado por golos, disciplinado, intenso».
Quase vinte anos depois, o retrato traçado por Joe Cole encaixa na imagem que muitos ainda têm de José Mourinho: o líder carismático, exigente até ao limite, mas capaz de inspirar total devoção.
«Eu queria a aprovação dele. Quando a tinha, sentia-me imbatível», concluiu o inglês.
