Deolane Bezerra era mulher do MC Kevin, músico brasileiro que morreu, em 2021, após cair da varanda do 5.º andar de um hotel na zona oeste do Rio de Janeiro
A influenciadora e advogada Deolane Bezerra foi detida na manhã desta quinta-feira após investigações que apontam para uma ligação ao PCC (Primeiro Comando da Capital). A "Operação Vérnix" foi levada a cabo pela Polícia Civil de São Paulo e pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo).
Além de Deolane, estão entre os alvos Marco Herbas Camacho (Marcola), que já está preso, um irmão e dois sobrinhos do homem apontado como número 1 da facção, e um investigado que seria operador financeiro do esquema, identificado como Everton de Souza, mais conhecido como "Player".
Segundo as investigações, foi descoberta uma engrenagem financeira milionária utilizada para ocultar, dissimular e reinserir na economia formal valores vinculados à alta cúpula da organização criminosa.
Investigações
A investigação começou no ano de 2019, quando a Polícia Penal apreendeu bilhetes e manuscritos, que estavam com dois presos. Os conteúdos dos materiais revelaram algumas dinâmicas internas do PCC, como atuação de lideranças encarceradas e possíveis ataques contra agentes públicos.
Com isso, a polícia instaurou três inquéritos, cada um responsável por revelar uma nova camada da estrutura criminosa investigada.
O primeiro inquérito teve como foco direto os dois sentenciados que estavam com os bilhetes. A análise do material apreendido permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos.
Foram ambos condenados e inseridos no sistema penitenciário federal. Entre os excertos analisados, foi feita menção a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pelo PCC.
O segundo inquérito procurou identificar quem seria a mulher mencionada e qual seria a relação da transportadora com a facção. As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida judicialmente como instrumento utilizado pelo crime organizado para lavagem de dinheiro.
A investigação resultou na Operação Lado a Lado, que revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro económico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro da facção.
Durante a operação, a apreensão de um telemóvel abriu uma nova frente na investigação. O conteúdo retirado do dispositivo revelou conversas com pessoas ligadas à cúpula do PCC, além de indícios de repasses financeiros e conexões com Deolane Bezerra, uma das maiores influencers do Brasil.
O papel de Deolane
Segundo os investigadores, Deolane mantinha estreitos vínculos pessoais e negociais com um dos gestores fantasmas da transportadora investigada. Foi a partir do material que nasceu a "Operação Vérnix", terceira etapa da investigação. O objetivo da ação era expor ainda mais o esquema mais amplo de lavagem de capitais, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.
As apurações apontam que a influenciadora passou a ocupar posição de destaque no caso em razão de movimentações financeiras expressivas, incompatibilidades patrimoniais e indícios de conexão com integrantes do núcleo de comando do PCC.
Os levantamentos mostraram o uso de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.
A investigação também identificou o uso de estruturas empresariais e patrimoniais sucessivas, mecanismo que teria como finalidade dificultar o rastreamento da origem, circulação e destinação dos recursos.
Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, as operações financeiras e movimentações bancárias analisadas durante as investigações não apresentaram justificativa lícita suficiente.
A "Operação Vérnix" tem ainda dimensão internacional. Três investigados estariam fora do Brasil, em países como Itália, na Espanha e Bolívia. Por isso, a Polícia Civil optou pela sua inclusão na Lista Vermelha da Interpol, por meio de difusão vermelha. O objetivo é encontrá-los e adotar as providências legais contra os alvos.
Nas redes sociais, a advogada e irmã da influenciadora, Daniele Bezerra, afirmou que a nova prisão de Deolane significa uma perseguição contra a advogada. Veja a nota na íntegra:
"Hoje, mais uma vez, tentam transformar suposições em verdades e manchetes em condenações. A prisão da Deolane Bezerra, sob alegações de participação em organização criminosa, nasce cercada de ilações, narrativas e perseguições que já se repetem há tempos.
Acusar é fácil. Difícil é provar.
No Brasil, infelizmente, muitas vezes primeiro se expões, se destrói a imagem e se condena perante a opinião pública...para só depois buscar provas que sustentem aquilo que foi feito. E isso é grave.
Não se pode admitir que a Justiça seja usada como espetáculo, nem que pessoas sejam tratadas como culpadas antes do devido processo legal. Prisão não pode ser instrumento de pressão, marketing ou vingança social.
Quem conhece a história, a luta e a trajetória dela sabe que existe uma diferença enorme entre fatos e narrativas criadas para alimentar ataques. Seguiremos confiando na verdade, na Justiça e no direito de defesa, porque perseguição continua sendo perseguição, mesmo quando tentam dar a ela outro nome."
