Da inflação aos juros, quais são os principais riscos para a economia?

ECO - Parceiro CNN Portugal , Mariana Espírito Santo
16 mai 2023, 09:50
Supermercado (Pexels)

Últimas previsões das instituições internacionais são otimistas, mas permanecem ainda incertezas e riscos que podem virar do avesso as perspetivas para a evolução económica do país

Têm sido conhecidas nas últimas semanas várias previsões económicas mais otimistas, tanto para Portugal como para a União Europeia, perante um arranque do ano mais positivo que o esperado. Ainda assim, persistem riscos a estas perspetivas que podem colocar em causa as previsões, com organismos como a Comissão Europeia e o FMI a alertarem para alguns fatores como as consequências da subida de juros para as famílias com créditos à habitação e o impacto da inflação.

“A situação internacional está muito volátil, com choques cruzados e incertos”, avisa João César das Neves ao ECO. “As questões monetárias devido aos choques anteriores ainda dominam a situação, mas podem surgir novos percalços (por exemplo, se falhar o acordo no escoamento das exportações ucranianas pelo Mar Negro)”, acrescenta o economista.

As instituições também alertam para esta incerteza. Começando pelo cenário geral, a Comissão Europeia destaca vários riscos que agora se inclinam para o lado negativo. Nas previsões económicas de Primavera, o Executivo comunitário alerta para o risco da inflação subjacente persistir se os salários subirem mais do que o esperado, ressalvando também a evolução incerta dos preços da energia. Bruxelas prevê que a inflação da Zona Euro se fixe nos 5,8% em 2023.

Estes riscos existem também em Portugal, com a Comissão a sinalizar que a inflação subjacente deve mover-se “um pouco acima da taxa nominal, já que a recuperação projetada dos rendimentos reais pesará sobre os preços dos serviços”. O comissário europeu Paolo Gentiloni também alertou para a “espiral salários-preços”, apesar de admitir que em alguns setores há margem para acomodar “o impacto de subida dos salários sem colocar a inflação demasiado alta”. As previsões apontam para uma inflação de 5,1% em 2023 e 2,7% em 2024.

“Os principais efeitos da inflação caem sobre os mais pobres, que estão a ser as principais vítimas da circunstância, mas outros grupos e setores que não consigam subir as suas receitas sofrem com o aumento de despesa por subida de preços”, salienta João César das Neves.

Para combater a inflação, o Banco Central Europeu tem apertado a política monetária, o que se apresenta como outro risco na visão da Comissão caso seja necessário endurecer ainda mais. Estes riscos são relevantes em Portugal já que concentra uma elevada percentagem de taxa variável no crédito à habitação.

A Comissão Europeia alerta assim para a perda de rendimento das famílias portuguesas devido ao alto nível das taxas variáveis, elemento que poderá, por sua vez, penalizar o consumo privado.

Taxas de juro do crédito à habitação

O diferencial entre as taxas fixa e variável praticada pelos bancos na concessão do crédito à habitação está a cair há seis meses consecutivos. Em março atingiu o valor mais baixo desde pelo menos dezembro de 2021 (limite da série do Banco de Portugal).

O FMI tinha destacado, no relatório do Artigo IV, que fatores como um maior aperto das condições financeiras ou um abrandamento regional poderão penalizar o crescimento, enquanto a subida de juros pode pressionar a procura interna.

César das Neves sublinha também que “a inflação está a mostrar-se mais muito teimosa que antecipado nos EUA, mas também na Europa, o que exigirá maiores e mais duradouras subidas de taxa de juro”. “Isso é muito perigoso para um país fortemente endividado como o nosso”, alerta.

Para Bruxelas, são ainda de destacar riscos ao ambiente externo, nomeadamente com a possível turbulência na banca nos Estados Unidos e também a fragmentação no comércio global. O ambiente externo é de relevância também para Portugal, já que as exportações são um dos motores do crescimento económico e as Finanças preveem até que ganhe mais importância, em conjunto com a recuperação do turismo.

Numa perspetiva nacional, João César das Neves também aponta que a “subida de custos das matérias-primas e perdas de mercado para as nossas exportações são as principais ameaças”.

A médio prazo, o FMI sublinha que se a execução dos fundos da bazuca europeia for fraca pode travar o crescimento potencial. É por isto também que o FMI recomenda que “as medidas de despesa têm de aumentar a fatia do investimento público — inclusivamente através da implementação do Plano de Recuperação e Resiliência financiado pelo Next Generation EU — sobre os gastos atuais, invertendo tendências recentes”.

A Comissão destaca ainda riscos específicos para o quadro orçamental de Portugal, que estão “associadas aos passivos contingentes decorrentes de linhas de crédito com garantia pública e processos em andamento para reequilíbrio financeiro de Parcerias Público-Privadas”. Estes alertas são semelhantes àqueles feitos por instituições como a UTAO e o Conselho das Finanças Públicas.

É de notar que para além dos riscos negativos, há também ascendentes, ou seja, de que alguns indicadores sejam melhores do que o esperado. A Comissão destaca que a procura interna pode ser melhor do que o antecipado, enquanto a inflação também poderá abrandar a um ritmo mais rápido que o esperado.

A equipa do FMI que se deslocou a Portugal para a avaliação anual considera que os riscos às previsões são equilibrados, salientando assim a possibilidade de existir uma dinâmica mais rápida do turismo e uma maior resiliência do mercado de trabalho, fatores que podem impulsionar o crescimento económico.

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