3 razões para não entrar em pânico com a inflação mais alta em décadas

CNN , Julia Horowitz
18 jul, 15:07
Combustíveis. Gene J. Puskar/AP

Quando os últimos dados sobre os preços ao consumidor foram divulgados nos Estados Unidos na última quarta-feira, o valor de referência revelou-se feio.

A inflação subiu para 9,1% em junho, de acordo com dados do Bureau of Labor Statistics. Um valor mais alto do que o previsto pelos economistas consultados pela Refinitiv.

Também muito superior à taxa de 8,6% registada em maio, que abalou os mercados financeiros e levou a Reserva Federal a aumentar as taxas de juros de forma mais agressiva — reforçando a dúvida se o banco central será capaz de controlar a inflação sem provocar uma recessão.

Os investidores estavam a preparar-se para uma surpresa. Mas há razões para acreditar que a resposta de Wall Street aos números será mais discreta do que no mês passado.

“Tanto os decisores políticos como os investidores irão lidar tranquilamente com este novo máximo”, disse-me Joseph Brusuelas, economista-chefe da RSM US.

Porquê? Uma investigação mais profunda dos dados sobre a inflação revela que, embora a situação seja preocupante, existem algumas razões para estar otimista.

1. Inflação de base. A inflação de base anual, que influencia os preços voláteis dos produtos alimentares e da energia, parece ter atingido um pico em março. Os agentes da Reserva Federal ficam mais preocupados quando existem sinais de que a inflação é generalizada, pelo que este cenário proporciona alguma esperança de que a situação esteja a melhorar, mesmo com os preços da alimentação e do combustível a entrarem em parafuso.

A inflação de base a 12 meses até junho recuou de 6% em maio para 5,9%. Esta descida poderá manter-se se a procura dos consumidores por bens continuar a diminuir, com os compradores a evitarem os preços altos e a redirecionarem os seus rendimentos para serviços como comer fora.

2. Preço do petróleo. As preocupações acerca da economia global poder vir a cair numa recessão diminuíram as expectativas de procura de combustível, ajudando a aliviar a pressão sobre o preço da gasolina nos Estados Unidos este mês. O preço médio de um galão de combustível normal na última quarta-feira era de 4,63 dólares, em comparação com os 4,78 dólares de há uma semana e dos 5,01 dólares de há um mês.

Isto não se refletiu nos dados de junho, dado que o preço da gasolina estava num máximo histórico quando o Bureau of Labor Statistics fez os cálculos do índice de preços ao consumidor. O índice de gasolina subiu 11,2% entre maio e junho.

Mas isto significa que julho será provavelmente melhor — e os mercados gostam de olhar para o futuro.

3. Expectativas de inflação a longo prazo. Um estudo do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque publicado esta semana mostrou que, embora as expectativas de inflação para o consumidor para o próximo ano tenham atingido um novo pico em junho, as expectativas de médio e longo prazo diminuíram.

Isto revela que os consumidores americanos ainda têm fé de que o Banco da Reserva Federal será capaz de controlar a situação da inflação através da subida das taxas de juro e do fim da compra de títulos da altura da crise. A economia poderá abrandar, mas a estabilidade nos preços acabará por ser restabelecida, tal como a credibilidade tão criticada dos bancos centrais.

Dito isto: A inflação de base ainda é extremamente alta e está muito acima da meta do banco central de cerca de 2%. Num cenário mês-a-mês, parece estar a acelerar, o que é uma má notícia. E existem sinais de que as pressões inflacionistas estão a alastrar para partes da economia onde é provável que permaneçam durante algum tempo, como nos mercados da habitação e arrendamento.

O índice habitacional subiu 5,6% no último ano. Este foi o maior aumento desde fevereiro de 1991. O preço do mobiliário doméstico subiu 9,5% durante o mesmo período, ao passo que as tarifas aéreas aumentaram mais de 34%.

Olhando para o futuro: assim que a inflação começar a diminuir, irá voltar aos valores pré-pandemia?

Alguns altos funcionários, incluindo o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, e Agustín Carstens, que lidera o Bank for International Settlements, reconheceram numa cimeira em Portugal no final do mês passado que há um risco de entrarmos num período de inflação persistentemente elevada se os bancos centrais não controlarem rapidamente a situação.

“A grande questão, para mim, é saber se estamos em transição de um regime de inflação baixa para um regime de inflação alta”, disse Brusuelas.

Preços do petróleo assumem protagonismo na viagem de Biden ao Médio Oriente

Quando o presidente Joe Biden chegou ao Médio Oriente, foi acompanhado pelo espectro dos elevados preços do petróleo, os quais constituem um crescente risco político para a Casa Branca.

Mas os recentes movimentos do mercado poderão fazer diminuir as expectativas para esta viagem. Os preços globais do petróleo caíram 7% na terça-feira para menos de 100 dólares por barril e este mês já recuaram 13%. O preço do petróleo nos EUA desceu abaixo dos 96 dólares por barril, com uma queda superior a mais de 9% em julho.

Na quarta-feira, a Agência Internacional de Energia moderou as suas previsões relativamente à procura global de petróleo para este ano, apontando para “preços mais elevados e um ambiente económico em deterioração”. Ao mesmo tempo, foram levantadas algumas restrições ao nível da oferta com um acesso constante a barris com origem na Rússia.

Ainda assim, a agência sediada em Paris avisou para as enormes incógnitas em relação ao futuro.

“As previsões para os mercados do petróleo raramente foram mais incertas”, disse no seu relatório mensal. “O agravamento das previsões macroeconómicas e os receios de recessão estão a pesar na confiança dos mercados, ao mesmo tempo que existem riscos atuais do lado da oferta.”

Grande parte da recente queda nos preços tem estado ligada aos riscos da política “Covid zero” da China. Embora as principais cidades tenham aliviado as restrições mais severas, o número crescente de casos e o surgimento de uma subvariante da Omicron altamente infeciosa em Xangai têm feito aumentar o receio de um regresso aos confinamentos em massa.

A China é o segundo maior consumidor mundial de petróleo depois dos Estados Unidos. As importações de crude da China caíram acentuadamente em junho, em comparação com maio, de acordo com dados do governo divulgados esta semana.

O que se segue: Biden não está a salvo. Dadas as restrições do mercado, é provável que os preços do petróleo não tenham espaço para cair muito mais. Isso significa que seria positivo para os Estados Unidos se países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aumentassem a sua produção, fazendo uso da capacidade que ainda tenham disponível.

“Creio que estamos no topo”, disse-me Rohan Reddy, diretor de pesquisa da Global X ETFs. “Neste momento não há oferta suficiente.”

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