Mário Centeno. Combate à inflação "não pode recair apenas nas pressões salariais". "Margens de lucro" das empresas também são importantes

9 nov, 17:50
Mário Centeno (Lusa/Mário Cruz)

Governador do Banco de Portugal considera que a taxa de execução do PRR tem estado muito abaixo do previsto, prejudicada, também, pela inflação do custo dos projetos

O Governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, voltou hoje a avisar que a margem de lucro das empresas também tem um papel a desempenhar no combate à inflação e que a responsabilidade por este combate não pode ficar apenas entregue aos salários.

"O foco não pode recair apenas nas pressões salariais; é igualmente importante prestar atenção ao papel das margens de lucro neste processo inflacionário", sublinhou Centeno durante uma conferência sobre o Orçamento para 2023 organizada esta quarta-feira pela Ordem dos Economistas.

O Governador do Banco de Portugal acentuou ainda as suas preocupações e lembrou que "um euro de salários pagos acima do que é compatível com a estabilidade de preços, causa uma pressão igual na inflação à de um euro a mais nas margens de lucro das empresas".  

Esta não é a primeira vez que o Governador do Banco de Portugal se mostra preocupado com as margens praticadas pelas empresas.

Ainda esta na semana passada, em entrevista ao Público, Mário Centeno, dizia que se tem visto "uma subida de preços na generalidade dos bens e serviços do índice de preços no consumidor e, em muitos casos, para além daquilo que se poderia esperar face ao que são as pressões inflacionistas vindas da oferta".

E para que não ficassem dúvidas, Centeno explicou o que queria dizer com esta afirmação: "tal como apelamos a uma contenção do nível salarial, eu também gostaria de o fazer ao nível empresarial, para que se refletisse nos preços um grau de conservadorismo que permitisse de facto a inversão deste ciclo de inflação".

Na intervenção desta quarta-feira na Ordem dos Economistas, Mário Centeno relembrou que o quadro macroeconómico está cheio de incertezas, nomeadamente relativo à estabilidade dos preços, mas deixou claro que não se pode deixar prolongar este cenário uma vez que se tal acontecesse traria "perda de confiança dos agentes económicos e uma inevitável recessão".

"Como sabemos, a inflação começou por ser um fenómeno com origem na oferta, mas que se tem estendido para a procura, embora de forma ainda não generalizada", prosseguiu o líder do Banco de Portugal lembrando que "a inflação é apenas um sintoma, que tem subjacente causas" e que sem atacar essas causas as bases do sistema económico seria corruíadas. 

"É por isso que a política monetária 'tem que', 'está a' e 'irá' agir", garantiu o membro do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE) concluindo que o papel do BCE é claro: "o objetivo é trazer a inflação para 2% no médio prazo". 

Mário Centeno também não esqueceu a situação particular da economia portuguesa e mostrou-se preocupado com o abrandamento do contributo do investimento para o crescimento económico.

"O seu dinamismo não está a ter um comportamento tão claro e sustentável como teve nos últimos anos, em especial desde 2015, incluindo em 2020 durante o pico da crise pandémica", lembrou o Governador do Banco de Portugal.

Mas Mário Centeno constatou mesmo que o "investimento financiada por fundos europeus continua a ser dramaticamente" baixo e que "a taxa de execução do PRR tem estado muito abaixo do previsto, prejudicada, também, pela inflação do custo dos projetos". 

Para 2023, "espera-se que a prossecução das reformas no âmbito do PRR venha acelerar a utilização efetiva e eficaz dos fundos e a potenciar o investimento", concluiu.

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