Tem formação elevada? Trabalha numa empresa pequena e jovem? É azar: o seu salário será mais penalizado com a subida de juros do BCE

19 out, 18:24
Preços, dinheiro, euro, inflação, economia. Foto: Marijan Murat/picture alliance via Getty Images

É o acesso das empresas ao crédito que ajuda a explicar porque há trabalhadores mais afetados do que outros nos salários com as mexidas nas taxas de juro

Sabia que a evolução das taxas de juro definidas pelo Banco Central Europeu (BCE) pode mexer diretamente com o seu salário? Para perceber melhor é preciso entender como interagem vários indicadores: a idade e nível de formação dos trabalhadores, a dimensão e a idade das empresas onde trabalham e o acesso dessas mesmas empresas ao crédito.

Por isso, se é jovem, tem um alto nível de formação e trabalha numa empresa pequena e jovem, não temos boas notícias. Neste contexto de subidas de taxas de juro, o seu salário não terá uma evolução tão positiva como o de alguém mais velho a trabalhar numa grande empresa.

A explicação é dada num artigo do próprio BCE, que assenta em duas bases de dados sobre a realidade portuguesa: uma com informações detalhadas sobre os trabalhadores, outra com o acesso das empresas ao crédito desde a entrada no euro, ou seja, durante os últimos 20 anos, englobando períodos de subidas e descidas nos juros.

No que respeita à formação, o regulador chegou à conclusão de que os trabalhadores com altos níveis de formação são os mais afetados quando o BCE aumenta as taxas, com aumentos salariais menos relevantes.

Já na análise ao local de trabalho, os trabalhadores em empresas pequenas e jovens – onde se tende a ganhar menos - também são os mais afetados quando as taxas de juro disparam. Mas, se os juros estivessem a descer, acabariam por ser os mais beneficiados.

O estudo concretiza que uma redução de um ponto percentual nas taxas de juro está associada a um aumento de 1,16 pontos percentuais nos rendimentos dos trabalhadores de pequenas empresas, quando a comparação é feita com firmas de maior dimensão.

“As empresas mais pequenas aumentam mais rapidamente os salários após um corte de juros do que as grandes”, concretizam os analistas do BCE. E porquê? Porque quando os juros descem, o acesso das empresas ao crédito tende a ficar facilitado – com uma aposta, consequente, nos quadros mais qualificados. Mas quando os juros sobem, as dificuldades colocam-se de forma adicional. E, sem tanta margem de manobra, os salários acabam por ser os sacrificados.

Nas grandes empresas, como a relação com o crédito é mais estável, essas flutuações não são tão evidentes.

O BCE ressalva que os efeitos das mudanças nas taxas de juros – com o objetivo de garantir a estabilidade dos preços - “são simétricos” para os tempos de maior flexibilidade e de aperto. Quando os juros sobem, tende-se a acentuar a diferença salarial na economia. Quando os juros descem, a encolhê-la. Em conclusão: os próximos tempos deverão acentuar os níveis de desigualdade entre trabalhadores no que aos salários diz respeito.

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