opinião

Inflação: "Os preços estão descontrolados. É inevitável que o Governo tenha de fazer alguma coisa"

21 ago, 23:25

A inflação é "o" tema do momento, afirma Paulo Portas no seu espaço de comentário semanal no Jornal das 8 da TVI. "As pessoas estão obviamente a fazer contas e estão preocupadas. A inflação é o pior inimigo de uma família pobre, porque quanto menor é o rendimento maior é o impacto de uma inflação grande." Além disso, é também "muito preocupante para o poder de compra da classe média". Por isso, diz Portas, "está a chegar a hora de o Estado ter um pouco mais de sentido de equidade pois, através do IVA, nomeadamente, vai aumentando a receita fiscal à medida que os preços aumentam".

A inflação já cá estava antes da guerra, mas a guerra acelerou-a. Neste momento, "já vamos com um par de meses em que Portugal fica acima da média europeia, que é de 8,9% - está neste momento em 9,4%",  sublinha o analista. "Isto é quase 10% do rendimento e obriga a tomar medidas."

E é preocupante sobretudo porque afeta os bens essenciais, nomeadamente as compras do supermercado. Segundo o INE, a inflação dos produtos alimentares não transformados estava em 11,9% e em agosto subiu para 13,2%, "o que significa que está até mais descontrolada do que a energia", aponta Paulo Portas. "Os salários são praticamente os mesmos mas o carrinho das compras tem menos bens e há menos dinheiro no mealheiro dos portugueses. Os preços estão descontrolados."

E dá exemplos: a batata está 102% acima da média dos anos anteriores normais, a alface 87%, o melão 77%, a dúzia de ovos 60%, o frango 50% e a carne de novilho 27%.

"É praticamente inevitável que o Governo - que está à espera e à espera e à espera - tenha de fazer alguma coisa. Porque há uma inequidade muito grande entre a receita a mais que o Estado recebe e o poder de compra a menos que a sociedade tem. O ano 2023 será provavelmente difícil do ponto de vista orçamental mas não dá para prolongar por muito mais tempo esta situação."

Em termos económicos, "Portugal teve um brilhante primeiro trimestre". "Foi um dos melhores crescimentos económicos da União Europeia. E no segundo trimestre, subitamente, a economia portuguesa contraiu".

"Teremos de aguardar pelos números dos próximos meses, mas há muitos economistas que pensam que a situação na Europa se está a aproximar de uma estagnação", alerta Portas. 

De fora, chegam-nos sinais contraditórios. Mas há um sinal animador: a inflação caiu nos Estados Unidos. Mas na China a economia não está a crescer como esperado e há muito desemprego jovem. E Paulo Portas deixa um aviso: o Banco Central Europeu deve fazer uma nova subida nas taxas de juro na reunião de setembro.

Vem aí a "guerrilha urbana" na Ucrânia e na Rússia

A primeira chamada de atenção do comentador sobre a guerra vai para Zaporizhzhia, a central nuclear mais importante da Ucrânia. "Não se fazem jogos de guerra perto de centrais nucleares. Toda a gente percebe que é um risco", diz. "Aqui só estão dois dos seis reatores em funcionamento no país. O que os russos querem é imobilizar os ucranianos na sua eventual contra-ofensiva no sul. Para os russos é uma arma enorme, porque pode desconectar o abastecimento de eletricidade no inverno da Ucrânia."

Também há um dado novo com o qual é preciso contar nesta guerra, diz Paulo Portas. "Quem invade um país soberano no século XXI apanha com as consequências que são sabotagem no terreno e terrorismo dentro de casa. Este facto tornou-se evidente em agosto, com vários ataques ucranianos na Crimeia, com mísseis e guerrilha" em depósitos de armas, bases aéreas e armazéns logísticos. E depois há o atentado, dirigido a Aleksandr Dugin, mas que acabou por matar a sua filha. "Ele é um dos intelectuais orgânicos de Vladimir Putin." 

"Os russos vão pagar um preço caríssimo, nas suas cidades, não apenas nas zonas ocupadas mas nas suas cidades", diz Portas. "Não creio que este atentado seja o primeiro nem que venha a ser o último." A guerrilha urbana vai aumentar, mas os russos "vão obviamente reforçar o seu instinto para a vingança."

Viagem de Nanci Pelosi a Taiwan "era desnecessária"

Na opinião de Paulo Portas, a viagem de Nanci Pelosi a Taiwan foi "uma viagem de legado político". "A meu ver era uma viagem desnecessária e causou uma escalada no conflito de Taiwan que é a região politicamente mais perigosa do mundo, apesar de termos uma guerra na Europa. A senhora Pelosi não precisava de ir a Taiwan e foi desaconselhada pelas agências de segurança e até pelo presidente Biden", diz.

Os EUA não reconhecem oficialmente Taiwan, a embaixada chama-se Instituto Americano. Só 14 pequenos países reconhecem Taiwan, no entanto, são centenas os países que fazem comércio com Taiwan, que tem uma grande força económica, explica Paulo Portas. É a maior potência mundial nos chips, nos semicondutores que são absolutamente críticos para o funcionamento da indústria automóvel, da indústria aérea, dos computadores, dos telemóveis.

"A posição dos EUA é: se a China invadir Taiwan, nós defenderemos Taiwan. Biden nunca disse isto sobre a Ucrânia mas disse-o sobre Taiwan. A posição da China: se Taiwan declarar a sua independência, nós atacaremos, não temos alternativa. Portanto, é preciso manter este equilíbrio."

Eleições em Angola serão mais competitivas?

Portas considera que sim, que estas eleições em Angola podem ser mais competitivas devido a cinco fatores:

  1. Em África, a queda dos partidos dominantes acelerou (as últimas eleições no Senegal e Quénia foram muito disputadas);
  2. A demografia - cerca de 60% dos eleitores tem menos de menos de 25 anos, ou seja, não tem memória da guerra e as urgências são outras;
  3. Angola só agora é que saiu da recessão, depois de anos de muita dificuldade económica;
  4. De qualquer forma, a lei eleitoral favorece o primeiro partido, sobretudo na parte dos deputados que são eleitos pelas províncias;
  5. E, por fim, a UNITA escolheu um líder com mais abrangência do que o anterior, menos tribalizado.

Uma gargalhada para Jô Soares

A terminar o seu espaço de comentário, Paulo Portas recorda o humorista brasileiro Jô Soares, que morreu a 5 de agosto: "Apetecia-me dar uma enorme gargalhada em obrigado ao sentido de humor inteligente que este homem deu a centenas de milhões de pessoas enquanto foi vivo: Jô Soares. Humor com qualidade é das coisas mais finas que existem no mundo."

As duas últimas palavras de pesar vão para o general Almeida Bruno, "um militar de exceção" e a poeta, professora e tradutora Ana Luísa Amaral.

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