A inflação que hoje sentimos começa nas famílias e acaba nas obras. O aumento do custo de vida — energia, alimentação, transportes — cria uma pressão direta sobre os salários, e essa pressão entra de forma imediata na estrutura de custos da construção.
Vivemos um momento em que a geopolítica continua a influenciar os custos, sobretudo através da energia e das matérias-primas. O impacto sente-se ao longo de toda a cadeia: transporte, aço, cimento. Esta pressão propaga-se rapidamente aos contratos e aumenta o risco nos projetos, com impacto direto nas margens e na previsibilidade.
Mas o fator mais determinante está hoje nos salários. Quando o custo de vida sobe, os salários acompanham. Num setor como a construção, onde o modelo de construção tradicional depende fortemente de mão de obra e apresenta baixos níveis de produtividade, esse efeito amplifica-se. O aumento salarial traduz-se quase diretamente num aumento do custo da obra.
Este contexto expõe uma fragilidade da construção clássica tradicional. Os projetos tornam-se mais difíceis de fechar, sobretudo em segmentos como a habitação acessível ou o Build-to-Rent, onde existe muito pouca margem para acomodar estes aumentos. Com custos a subir e capacidade limitada de repercutir esses aumentos no preço final, a viabilidade dos projetos pode ficar comprometida.
É neste ponto que a industrialização mostra a sua força e a diferença. Ao reduzir a dependência de mão de obra — em muitos casos para cerca de um terço — e ao aumentar a produtividade, conseguimos diminuir a exposição direta à pressão salarial. O custo da construção deixa de acompanhar de forma linear o aumento dos salários. Existe ainda um segundo fator estrutural. Na construção industrializada, as decisões de projeto, materiais e soluções são antecipadas. Isso permite fechar encomendas logo no início da obra, garantindo preços e reduzindo a exposição à volatilidade ao longo do tempo.
Na construção tradicional, muitas dessas decisões são tomadas durante a execução, o que implica compras mais tardias e maior exposição à inflação. Esta diferença no momento da decisão tem um impacto direto no controlo de custos. Ao mesmo tempo, a industrialização permite maior eficiência logística, melhor planeamento e maior previsibilidade. Num contexto de incerteza, estes fatores tornam-se decisivos.
Num contexto em que a inflação se inicia no custo de vida e se repercute nas obras através da pressão salarial, apenas um modelo mais produtivo e assente na antecipação das decisões consegue dar uma resposta consistente. Em Portugal, onde é urgente aumentar a oferta de habitação e assegurar a viabilidade dos projetos, a industrialização da construção deixa de ser uma opção para passar a ser uma condição essencial de execução.