Fertilidade masculina. O homem "terá condições de procriar até ao fim da vida" - mas isto é na teoria: na prática, a infertilidade está a aumentar

12 nov, 10:00
(In)Fertilidade (Pexels)


 

No âmbito da Semana Europeia da Fertilidade, que se assinala de 7 a 13 de novembro, explicamos quais são as principais causas de infertilidade masculina e se o homem possui ou não período fértil, numa altura em que "o fator masculino está associado até metade dos casos" de infertilidade em Portugal

Quando o tema é fertilidade o pensamento foge, na maioria das vezes, para as mulheres. São elas quem engravidam, são elas quem descobre que não o estão a conseguir fazer, são elas que muitas vezes dão o primeiro passo para descobrir porque é que isso não acontece. E é aí, na procura por uma resposta para o insucesso, que os médicos concluem que o problema pode não estar na mulher, mas no homem, visto como ser fértil desde "a puberdade até ao final da vida".

Os números mostram, porém, que há um aumento do número de casos de infertilidade masculina. O médico Celso Marialva, urologista e especialista em Infertilidade e Procriação Medicamente Assistida (PMA), diz à CNN Portugal que "o fator masculino está associado até metade dos casos" de infertilidade em Portugal. 

"A infertilidade do casal é a incapacidade de obter uma gravidez viável (e um nascimento associado à gravidez) a partir dos 12 meses de tentativas não sucedidas. Depois, o fator masculino está associado até metade dos casos, ou seja, um terço dos casos globalmente de infertilidade deve-se apenas ao homem e, depois, haverá 20 a 30% dos casos em que haverá uma sobreposição do fator feminino e masculino", explica.

Segundo o especialista, os homens acabam por estar "envolvidos em 50% dos casos de infertilidade" de um casal, mas só descobrem os problemas "no percurso da avaliação da mulher". 

"O que vemos na maior parte dos casos, são os casais que estão a tentar ativamente procriar sem sucesso e que depois procuram ajuda. Muitas vezes vão por iniciativa da mulher, ou para estudar primeiro a mulher, e depois os homens apercebem-se de que também podem ser responsáveis pela infertilidade. E aí, claro, o homem vai procurar ajuda, vai procurar algum tipo de acompanhamento, ou de confirmação do potencial de fertilidade", conta. 

Uma descoberta que nem sempre é bem aceite, "sobretudo do ponto de vista psicológico", porque, "habitualmente, homens jovens convivem relativamente mal com essa novidade de que não são tão férteis como gostariam" e têm dificuldade de "gerir a nível individual e a nível de casal" o diagnóstico, depois de aconselhados a recorrer a acompanhamento especializado para lidar com a nova realidade.

Celso Marialva diz, no entanto, que a avaliação do diagnóstico é feita mediante os resultados e que, perante isso, "há que também saber gerir as expectativas". Até porque, "não interessa ter muitos espermatozoides se não são bons, mas também não interessa ter bons se são poucos e não cumprem o seu trabalho".

"Ou seja, há casos de infertilidade com alterações discretas de espermograma que conseguimos, com relativa facilidade, corrigir, e há outros casos com alterações graves e que à partida sabemos que as probabilidades daquele homem poder procriar com sucesso são mínimas, para não dizer zero. Portanto, há que, no fundo, ir ajustando as expectativas e aquilo que o homem espera do seu potencial de fertilidade relativamente aquilo que irá acontecer na realidade." 

Quais as causas para a infertilidade masculina?

Mas qual é a origem da infertilidade no homem? São causas genéticas, anatómicas ou hormonais que levam a que um homem não possa ter filhos? Sim, mas não só.

"A causa da infertilidade é variada, mas sobretudo decorre de alterações anatómicas ou hormonais relacionadas com a produção e transporte dos espermatozoides", explica Celso Marialva, enunciando que existem causas anatómicas, como as "alterações antes do testículo, que serão alterações sobretudo a nível hormonal, a nível endocrinológico", mas que também existem causas relacionadas com os hábitos de vida, como o excesso de peso, o consumo de álcool, o tabaco, que "podem ter interferência na capacidade do testículo, digamos assim, produzir espermatozoides viáveis".

Mas também "há causas pós testiculares, a seguir aos testículos, depois dos espermatozoides estarem formados, que têm a ver com o canal por onde eles têm de seguir até encontrarem o ovócito, e aí, muitas vezes, são causas anatómicas obstrutivas ligadas a intervenções que aconteceram previamente e que vão impedir que o espermatozoide siga o seu caminho".

"Temos também causas genéticas que têm implicações na capacidade de o testículo produzir espermatozoides e são normalmente alterações diagnosticadas no decurso do acompanhamento destes doentes e que, mediante a alteração genética encontrada, também poderemos dizer ao doente a probabilidade dele ser bem-sucedido ou não", indica.

Perante estas quatro principais causas, o mais importante é que o homem seja submetido a uma avaliação médica, sobretudo na área de urologia, "porque não é raro haver condições associadas à infertilidade, nomeadamente o varicocelo (dilatação das veias espermáticas que são também uma potencial causa de infertilidade) e até o tumor testicular (a infertilidade muitas vezes é um sinal de alarme e um fator de risco para o tumor do testículo)".

O cenário pode assustar, mas, como refere o especialista, o doente deve estar perante todos os dados para saber qual é a sua realidade, especialmente se está a tentar ter filhos. E, dependendo das causas, há algumas que podem ter correção, como são aquelas que estão associadas aos hábitos de vida. Já os problemas associados a questões genéticas ou anatómicas são mais difíceis de corrigir, mas só numa consulta médica é que esse diagnóstico poderá ser feito. 

"As alterações genéticas são mais difíceis de corrigir e implicam habitualmente uma realização de uma biópsia testicular para a recolha de espermatozoides. Há também outras alterações anatómicas, nomeadamente a nível de obstrução do cordão espermático ou de quistos a nível prostático que impeçam a passagem de espermatozoides, e que também vai obrigar à realização de uma biópsia testicular para recolher a polpa testicular (onde há espermatozoides e células precursoras de espermatozoides que são usadas em técnicas de fertilização in vitro). Em termos de tratamento, poderá ser algo tão simples quanto orientar doentes para hábitos de vida mais saudáveis até chegar ao lado oposto do espectro que implica uma biópsia testicular que é, no fundo, uma cirurgia de ambulatório em que é aberto o testículo para recolher essas células que podem ser já espermatozoides num estado final de maturação ou células percursoras de espermatozoides que podem também ser usadas em fertilização in vitro", explica.

Mas também a introdução de novas alternativas à procriação natural podem trazer problemas ao casal. A dificuldade em engravidar de forma espontânea e obrigatoriedade em recorrer a ajuda médica, com uma calendarização para a atividade sexual, pode "gerar uma pressão adicional" no homem e há homens que se queixam de disfunção erétil, "um estado de ansiedade relacionado com todo este processo". 

"É bastante frequente, sobretudo em casos de infertilidade de longa data, poder haver queixas de disfunção erétil associadas por causa do estado de ansiedade relacionado com todo este processo", afirma Celso Marialva. 

De acordo com o especialista, a medida de "adequar a frequência sexual, sobretudo incidindo no período fértil da mulher, gera uma pressão adicional para o homem que já sabe que todos os meses, naquela altura, tem de corresponder às expectativas, tem de ter atividade sexual e depois tem de ser precedida por um período de abstinência determinado, ou seja, retira a espontaneidade da atividade sexual". Para além de gerar pressão, esta questão pode mesmo "gerar ansiedade, distúrbio a nível sexual, e até conflito dentro do próprio casal", antecipa.

Infertilidade atinge cerca de 300 mil casais em Portugal 

Sérgio Soares, especialista em Medicina da Reprodução, indica, em nota enviada à CNN Portugal, que em Portugal existem cerca de 300 mil casais inférteis e que há uma tendência de crescimento destes números, com a infertilidade masculina a representar já metade dos casos atendidos atualmente nas clínicas de procriação medicamente assistida.

“Alguns estudos mostram-nos, por exemplo, que há uma relação entre as substâncias químicas presentes em pesticidas, os solventes e recipientes de plástico que utilizamos diariamente e a redução da qualidade do sémen”, afirma.

Considerando que o tema da infertilidade é "um problema mais comum do que se pensa" e do qual ainda não se fala abertamente, o especialista em procriação medicamente assistida refere que "nem sempre a medicina encontra uma explicação para a infertilidade".

"O que sabemos, pela investigação feita nesta área, é que há fatores que prejudicam a fertilidade em ambos os sexos, como o consumo de álcool e tabaco, o excesso de peso e obesidade, a ausência de atividade física, a alimentação pouco variada e equilibrada, muito ancorada no fast-food, por exemplo”, salienta, acrescentando que a idade da mulher também tem peso na infertilidade. “Por razões económicas ou profissionais, as mulheres tentam ser mães cada vez mais tarde o que traz consequências para quem anseia por uma gravidez. A quantidade e a qualidade dos ovócitos diminuem muito a partir dos 35 anos.”

Celso Marialva lembra que o homem, em teoria, "terá condições de procriar até ao fim da vida", ao contrário da mulher, que vê a "seu potencial máximo de fertilização" diminuir com o passar dos anos.

"O homem a partir da puberdade digamos que terá condições para procriar, em teoria, até ao fim da vida. Claro que em idades mais avançadas a qualidade espermática diminui, sobretudo por diminuição da qualidade também do DNA que o espermatozoide transporta. E, mais uma vez, ao longo da vida, vai depender das doenças associadas, dos tratamentos que precisa de fazer para essas doenças, mas em teoria, o homem manterá o seu potencial de fertilização durante toda a vida. Ao contrário das mulheres que, efetivamente, terão o potencial máximo de fertilização a partir da puberdade e esse potencial vai diminuindo sobretudo até ali aos 40, 40 e poucos anos, quando a probabilidade de serem bem-sucedidas já é razoavelmente baixa", esclarece o especialista em PMA.

Em Portugal, as mulheres podem aceder aos tratamentos de Procriação Medicamente Assistida até aos 50 anos. Não é permitido fazê-lo após os 49 anos e 365 dias (366 dias, no caso dos anos bissextos) no privado, sendo que no público existem limites de idades diferentes consoante os casos e os tratamentos em questão. O limite fixado teve em conta o facto de, a partir dos 35 anos, a probabilidade de engravidar de forma natural diminuir, caindo a pique a partir dos 40 anos, passando para 1% ou menos quando a mulher atinge os 48 anos.

No Serviço Nacional de Saúde, o limite de idade das mulheres com material reprodutivo preservado devido a doença grave para aceder aos tratamentos de infertilidade aumentou recentemente para os 50 anos. Mas esta é uma situação excecional. No caso de mulheres que não tenham material reprodutivo preservado por motivo de doença grave, estes tratamentos só têm financiamento público se concretizados antes dos 40 anos da mulher - para as técnicas de Fertilização in Vitro (FIV) e microinjeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI) - ou antes dos 42 anos da mulher (no caso da inseminação artificial). Para além destas idades, só recorrendo a clínicas privadas.

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