Acordo à direita, pecuária e homeopatia dividem Tavares e Sousa Real (num debate onde nenhum quis o rótulo de "negacionista")

10 jan, 00:07

Inês de Sousa Real e Rui Tavares estão dispostos a um acordo à esquerda. Mas à direita, se o PAN não fecha a porta, o Livre não entra de todo. "O nosso compromisso são as causas", vincou a porta-voz do PAN. Harmonia há, sim, no teste ao Rendimento Básico Incondicional

Rui Tavares lançou, num debate anterior, o conceito de “ecogeringonça”. Na prática, um acordo com todos os partidos à esquerda com preocupações ambientais. O PAN, o rival que tinha à frente este domingo, foi incluído automaticamente. Mas havia que clarificar a nova criação: Bloco de Esquerda e PCP ficam de fora?

“Não deixei de fora”, respondeu o fundador do Livre. E explicou: “Quanto mais alargado [for o acordo], mais garantias dá”.

Garantias, ou antes “condições”, é o que quer Inês de Sousa Real para decidir se apoia um governo à direita ou à esquerda. Para onde pende mais o prato da balança não disse. "O nosso caminho são as causas", resumiu.  Mas, se nenhum caminho está fechado, lá acabaria por identificar no programa dos sociais-democratas uma “linha vermelha”: o “disparate” de liberalização do eucalipto.

"Toda e qualquer força em condições de viabilizar ou formar Governo terá de ter em conta a agenda política das forças que poderão ou não constituir uma coligação”, afirmou.

Para a porta-voz do PAN, o “grande desafio é mesmo “romper com este bloco central” formado pelo PS e PSD, que têm “votado um com o outro” em várias matérias, lembrou.

Rui Tavares aproveitou o embalo para vincar então uma diferença fraturante face ao PAN: com o Livre só é possível contar para “soluções à esquerda”. 

Homeopatia, um sintoma de discórdia

Apesar de muito próximos em termos de ideais no espectro político, Livre e PAN fizeram questão de afirmar as suas diferenças. Inês de Sousa Real começou por lembrar que o Livre, no passado, já tinha tentado “reduzir o PAN a um partido animalista”.

Rui Tavares descartou. Mas havia de atirar outra acha para a fogueira: ao contrário do PAN, “não somos muito amigos de introduzir a homeopatia e outras terapias não convencionais” no Serviço Nacional de Saúde. A fazê-lo, disse, só com a validação de peritos.

Inês de Sousa Real sentiu necessidade de explicar que, neste tema, já existe regulamentação desde 2013, “ainda o PAN não estava na Assembleia da República”.

“Não estamos a falar de substituir, em termos negacionistas, a ciência. Antes pelo contrário, temos um enorme respeito”, sublinhou.

A esquerda “negacionista” com receio da pecuária

Mas, se a porta-voz do PAN não quer o rótulo de negacionista, não hesitou em atribuí-lo ao adversário de debate. Em causa estava um “elefante na sala”: a estratégia de combater as alterações climáticas sem mexer com a pecuária intensiva, “uma das maiores produtoras de emissões poluentes”. “Não temos visto [este tema] no programa do Livre”, atirou. O PAN, recordou, quer uma taxa ambiental sobre o carbono desta atividade:

"Temos votado isoladamente. As esquerdas, de forma negacionista, têm votado contra”.

Custe o que custar – “podem vir”, disse Inês de Sousa Real, perante as críticas constantes dos responsáveis agrícolas, como a CAP –, o partido quer proibir o transporte de animais vivos para outros países e apertar a fiscalização aos matadouros ilegais. São, aliás, bandeiras para a próxima legislatura.

Rui Tavares concordou que “tem de haver uma mudança na produção de carne e nos hábitos de consumo” mas afastou as quotas propostas pelo PAN para este negócio. A solução, referiu, está na “economia do conhecimento”, apoiando-se, por exemplo, a investigação de carne produzida em laboratório, sem recurso a animais.

“Na vida rural há um elemento essencial. Temos de fazer isso [mudança] com as pessoas, não contra as pessoas”, resumiu o cabeça de lista por Lisboa do Livre.

E não ficou sem resposta: “O PAN nunca disse que temos de fazer contra as pessoas. Temos de promover a mudança com as pessoas”.

Um apoio incondicional mas, para já, não para todos

Além da certeza de que o país não pode continuar a ser governado em duodécimos, havia de se encontrar um outro ponto de encontro neste debate: tanto o Livre como o PAN alinham na necessidade de avançar com um “projeto piloto” sobre o Rendimento Básico Incondicional, que muita discussão tem gerado nesta pré-campanha.

Para Rui Tavares, este teste poderia ser feito sem “grandes custos” e a uma escala mais pequena, não substituindo outros apoios sociais que já existem. “Até um município o pode fazer” exemplificou. Se se mostrar benéfico, aí sim, há condições para avançar, explicou.

Inês de Sousa Real também se reviu nessa avaliação prévia, clarificando que o apoio “não é necessariamente universal”. “Pode ser muito relevante para populações como vítimas de violência doméstica”, favorecendo a sua independência, exemplificou.

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