Técnicos de emergência médica culpam módulo de triagem do INEM e falta de tripulantes
A Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica (ANTEM) denuncia a falta frequente de meios em Setúbal. “O distrito está diariamente sem ambulâncias”, declara Paulo Paço, presidente da ANTEM. “É um problema muito antigo, que ainda hoje se verifica”, testemunha também Rui Teixeira, que foi responsável de turno e operador do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) de Lisboa, entre 2002 e 2008.
O concelho de Setúbal tem duas ambulâncias na base do INEM, outra nos bombeiros voluntários e uma quarta na Cruz Vermelha. O problema é que estão muitas vezes inoperacionais por falta de tripulantes. “A dificuldade em assegurar recursos humanos é, neste momento, transversal a todas estas entidades”, confirma o presidente do INEM, Sérgio Dias Janeiro, em resposta escrita enviada à TVI/CNN Portugal. Há uma quinta ambulância, nos Bombeiros Sapadores de Setúbal, “mas sem capacidade para exercer atividade no âmbito da emergência médica pré-hospitalar”.
O atual Conselho Diretivo decidiu celebrar uma nova vaga de protocolos com as corporações de bombeiros e da Cruz Vermelha, com o objetivo de criar 140 novas equipas de emergência médica, comparticipadas a 247 euros por dia. Foi já possível criar 133 equipas. Nenhuma em Setúbal, mas oito nos concelhos vizinhos, situadas em Almada, Barreiro, Palmela, Águas de Moura, Moita, Sesimbra, Montijo e Alcochete.
Paulo Paço descreve que, apesar destes esforços, continua a ser necessário “mobilizar para Setúbal ambulâncias do Norte de Lisboa, como de Fanhões e São Pedro Sintra”. A CNN confirmou com fontes em exercício de funções no CODU de Lisboa que isso acontece com frequência, mesmo durante o dia.
Um problema de algoritmo
Para a ANTEM, o algoritmo de triagem do INEM é o maior responsável pela falta de meios em casos graves de socorro com vidas em risco, porque os desperdiça em situações não urgentes. “Os meios são escassos, tem que se atribuir prioridades. Quando se envia ambulâncias para tudo e mais alguma coisa, que é aquilo que acontece em Portugal, rapidamente ficamos sem ambulâncias”, acusa Paulo Paço.
Dois antigos operadores do CODU confirmam à TVI/CNN problemas com a triagem. “Não se compreende como é que é possível termos que andar a ativar um médico e um enfermeiro através da viatura médica de emergência para situações tão comuns como a hipoglicemia”, recorda Rui Teixeira. O algoritmo é vulnerável a quem souber carregar nos sintomas certos. “O senso comum já aprendeu a mentir quando liga para o INEM para conseguir uma ambulância. Muitas vezes, o operador não tem capacidade de perceber se uma vítima é crítica ou não é crítica”, confessa Tânia Rita Paiva, que trabalhou no CODU 16 anos.
“Os protocolos de triagem do INEM baseiam-se muito na experiência dos operadores e por isso mesmo estão muito abertos ao erro humano”, comenta Paulo Paço, que trabalhou cinco anos no centro de atendimento do London Ambulance Service. “Quando comecei a trabalhar em Inglaterra, fiquei abismado com a disparidade em relação ao que fazemos aqui”, conclui.
A ANTEM deixou na Assembleia da República um documento a comparar os dois modelos. O algoritmo inglês “elimina perguntas desnecessárias”, enquanto o usado no CODU “é bastante suscetível a erros de utilização e pode ser facilmente adulterado pelos operadores, a fim de gerar sempre uma resposta de envio de meios”. O algoritmo do Reino Unido, semelhante ao usado nos Estados Unidos e no Brasil, por isso já traduzido para português, consegue detetar mais depressa os casos graves, o que garante “tempos mais rápidos de despacho” dos meios de socorro que realmente salvam vidas.