Esperaram horas e horas infindáveis. Alguns morreram a viver a dois minutos de um hospital. Outros morreram a chegar lá pelo seu pé. Os bombeiros responderam sempre antes do INEM, mas isso não bastaria. Culpados não se conhecem ainda, mas muitas das mortes vão ser investigadas
Os funcionários do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) iniciariam em outubro, no dia 30, uma greve às horas extraordinárias, exigindo a revisão da carreira e melhores condições salariais. A paralisação terminaria já em novembro, na quinta-feira, dia 7.
Neste tempo, morreram pelos menos 11 pessoas, às quais nunca foi prestado auxílio ou chegaria demasiado tarde.
O Governo sacudiu responsabilidades — o que viria a fragilizar o Ministério da Saúde e a já acossada ministra Ana Paula Martins, acusada pela oposição de "incompetência" —, o INEM fez o mesmo, mas a sua direção está agora em xeque por não ter pedido um reforço dos serviços mínimos, e enquanto isso decorrem investigações no Ministério Público e na Inspeção-Geral das Atividades em Saúde às várias mortes. Várias e com um traço comum: maioritariamente idosos, de fora de grandes centros urbanos e que esperaram longas horas sem socorro.
A primeira morte confirmada é ainda em outubro, no dia 31, quinta-feira. A vítima, um homem de 86 anos, Daniel Ferreira, residente em Bragança, vivia na Avenida Abade de Baçal, a mesma do hospital, morando a cerca de dois minutos. Este idoso sofria de problemas de saúde, nomeadamente uma fibrose pulmonar e outras complicações cardíacas, tendo a causa da morte sido, aliás, uma paragem cardiorrespiratória, sofrida na sua casa, onde acabaria por ser declarado o óbito.
A mulher de Daniel, de 84 anos, tem problemas de saúde também ela, nomeadamente de mobilidade, e foi a própria (vivem sozinhos em Bragança, pois os dois filhos encontram-se em Coimbra e na Alemanha) quem terá contactado o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) quando deu conta da situação do marido, uma “indisposição”. Segundo relatou agora um dos filhos, a mãe ficou por “mais de uma hora” a contactar, sem sucesso, o 112. “Quando finalmente os meios de socorro chegaram à casa dos meus pais, o meu pai já estava morto. Não sabemos se a intervenção rápida o podia ter salvado ou se não. Alguém com responsabilidade que assuma e peça desculpa. Se se confirmar a negligência, é preciso tomar medidas para que não se repitam estes casos”, afirmou Vítor Ferreira, filho do casal.
A denúncia desta situação veio de Rui Lázaro, presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospital, tendo, mais tarde, o INEM vindo a terreiro confirmar que a situação de Daniel Ferreira resultou de um “atraso no atendimento devido ao volume de chamadas que estavam a ser recebidas no CODU”, o Centro de Orientação de Doentes Urgentes, garantindo o instituto que, “assim que foi possível realizar a triagem”, foram acionados “prontamente” os Bombeiros Voluntários de Bragança e a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Hospital de Bragança.
O INEM prontificou-se igualmente a fazer uma “análise pormenorizada das situações para se averiguar em pormenor todas as circunstâncias em que decorreu a assistência”. Entretanto, o Ministério Público abriu um inquérito à morte.
A segunda morte confirmada aconteceu igualmente no dia 31, mas bem distante de Bragança: foi no distrito de Évora, concretamente em Vendas Novas.
A primeira versão que correu apresentava-nos como vítima um homem de 73 anos, que terá sofrido também ele uma paragem cardiorrespiratória, mas desta feita numa pastelaria, acabando por morrer no local, tendo a assistência do INEM demorado mais de 40 minutos a responder. A versão não era factual, pelo menos em parte, confirmando posteriormente os Bombeiros Voluntários de Vendas Novas que a morte deste homem terá ocorrido, sim, em casa, depois de este se “sentir mal”, tendo sido os seus familiares quem, por falta de resposta do INEM, contactou diretamente os bombeiros. Chegados à habitação, os bombeiros acionaram o INEM e o INEM, por sua vez, a VMER.
"Solicitámos um pedido de triagem para o CODU, em virtude do mesmo estar a demorar muito tempo e não estarmos a conseguir ter contacto. Acabou por ser acionada a ambulância, enquanto ainda decorria esse pedido de triagem”, explicou fonte dos bombeiros locais. O Ministério Público instaurou, também nesta situação, um inquérito à morte.
Avançamos para novembro. No sábado, dia 2, outras duas mortes se registaram. Uma ocorreu em Tondela, no distrito de Viseu, e outra em Mogadouro, no distrito de Bragança.
Em Tondela, uma idosa com 94 anos terá sofrido uma paragem cardiorrespiratória em casa, um familiar da vítima mortal conseguiu ligar para o INEM pelas 9h34, contudo a chamada só foi transferida para o CODU às 10h19, ou seja, 45 minutos após o telefonema. A idosa, que é natural da freguesia de Moledos, ainda foi depois transferida para o Hospital de Lamego, tendo a morte sido declarado logo naquele dia.
Por sua vez, em Mogadouro, um homem de 84 anos, institucionalizado na Santa Casa da Misericórdia de Freixo de Espada à Cinta, terá naquele sábado passado o dia em família, na localidade de Mazouco, sofrendo, ao almoço, em casa, um engasgamento, procurando, segundo os bombeiros, os familiares (nomeadamente um ex-bombeiro) aplicar manobras de desobstrução da via aérea, sem sucesso. Eram cerca das 13h00.
Enquanto isso, os familiares contactavam insistentemente o INEM, relatando que esperaram durante 40 a 50 minutos por uma resposta que não chegaria. Não recebendo, seguiram, em veículo próprio, para o Centro de Saúde de Mogadouro, tendo, no percurso, encontrado uma viatura dos bombeiros locais, que concluiu o trajeto, não para o centro de saúde, mas para o hospital mais próximo, em Bragança.
O idoso já entrara em paragem cardiorrespiratória, procurando os bombeiros, no percurso, realizar as manobras de reanimação. Já no hospital, o idoso foi mesmo reanimado, mas ficou em coma, sendo-lhe depois declarada morte cerebral, tendo vindo a falecer no dia 9, sexta-feira.
A segunda-feira seguinte, dia 4 de novembro, foi um dia negro. Morreram sete pessoas que não receberam assistência, ou recebera-na tardiamente, por parte do INEM. A primeira delas foi em Almada.
Uma mulher com 70 anos deslocara-se ao tribunal, onde prestaria declarações, enquanto queixosa, num caso de violência doméstica. Durante o depoimento, a idosa sentiu-se mal, relataram os presentes, aparentando ter sofrido um acidente vascular cerebral. Os funcionários daquele tribunal contactaram de pronto o INEM, porém, ao longo de uma hora e meia, a chamada nunca foi atendida ou devolvida. Também os Bombeiros Voluntários de Almada foram acionados pelo tribunal, declarando que não teriam, no momento, meios, nomeadamente uma ambulância — porque as três que tinham ao serviço estavam “empenhadas” —, para enviar àquele local.
Assim, acabaria por vir a ser a PSP — a pedido de uma procuradora — a transportar, em carro de patrulha, a mulher de 70 anos ao Hospital Garcia de Orta, onde veio a falecer.
O Ministério Público, até por o incidente ter ocorrido num tribunal, acabou por retardar a entrega do corpo à família, ordenando a realização de autópsia médico-legal, a fim de apurar as circunstâncias da morte. A Procuradoria-Geral da República confirmou igualmente a abertura de um inquérito para investigar as causas da morte e a ausência de socorro.
O INEM recusou comentar este caso de Almada em concreto, admitindo somente que a greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar às horas extraordinárias “teve impacto na actividade do CODU e dos meios de emergência” na segunda-feira, com “consequências” na prestação de cuidados de emergência.
Também na segunda-feira, mas na localidade de Cacela Velha, em Vila Real de Santo António, um homem, João Augusto Martins, de 77 anos, terá sido encontrado, por volta das 10h00, por um casal de turistas, encontrando-se caído ao lado da bicicleta onde habitualmente se deslocava. Ter-se-á sentido mal, segundo os relatos, e encontrava-se em aparente paragem cardiorrespiratória. Primeiro os turistas e, depois, os vizinhos (ao todo, quatro pessoas) deste homem contactaram, durante uma hora e quarenta minutos, o INEM, sem gorar ter qualquer resposta.
Assim, acabariam por contactar os Bombeiros Voluntários de Tavira, que, por sua vez, transferiram o pedido de auxílio para o quartel de Vila Real de Santo António — que é responsável pela localidade de Cacela Velha. Ora, de acordo com o comandante da corporação, a viatura de suporte imediato de vida do INEM foi acionada naquele preciso momento. Chegariam, ainda assim, primeiro os bombeiros do que o INEM, tendo o óbito sido declarado no próprio local.
Segundo familiares da vítima, o idoso não sofria de qualquer problema de saúde grave, aguardando-se o resultado da autópsia para identificar as causas da morte. O INEM confirmou, depois da morte, que houve uma chamada não atendida pelo CODU, pelas 11h03, e que a seguir realizou “ainda quatro tentativas de contacto com o local”, mas sem sucesso, uma vez que as chamadas “não foram atendidas”. O Ministério Público abriu também aqui um inquérito à morte.
A morte seguinte seria declarada em Castelo de Vide, no distrito de Portalegre. Tratou-se, no caso, de uma idosa com 87 anos, utente do lar João Gonçalves Palmeiro Novo, da Fundação Nossa Senhora da Esperança, que entrou em paragem cardiorrespiratória por volta das 12h30, quando se encontrava no refeitório do lar.
Ao fim de dois telefonemas de responsáveis do lar, e de uma hora e meia à espera, o INEM acabaria por nunca acionar o socorro. O primeiro telefonema, de um número fixo, não foi sequer atendido. O segundo, feito através do telemóvel da diretora do lar, acabou por ser atendido, mas a chamada logo caiu, nunca tendo sido devolvida. Os responsáveis da Fundação Nossa Senhora da Esperança consideram a situação, e ausência de resposta, “grave”, uma vez que a morte da idosa resultou da “impotência que existiu para socorrer a utente”. Apesar das manobras de reanimação realizadas pelo enfermeiro residente da instituição, a situação era muito grave e a VMER (acionada bastante tempo depois pelos Bombeiros de Castelo de Vide) só chegaria pelas 13h50, transportando a idosa, “com sinais vitais muito débeis”, para o hospital de Portalegre, onde viria a perder a vida.
A norte, em Leça da Palmeira, um homem com 92 anos esteve perto de 30 minutos a aguardar que o seu telefonema (foram feitos três ao todo) para a emergência médica fosse atendido — e aqui, como noutros casos daquela segunda-feira caótica, sem sucesso. A vítima mortal ter-se-á sentido indisposta por volta da hora de almoço, tendo a família, ao fim de sucessivos contactos infrutíferos junto do INEM, optado por contactar os Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça. Os bombeiros receberam o telefonema pelas 12h49 e, somente oito minutos depois, chegavam ao local, em Perafita, iniciando manobras de suporte básico de vida, pois o homem idoso encontrava-se em paragem cardiorrespiratória. O homem acabou por morrer no local.
Já em Pombal, a mais nova das vítimas mortais, um homem de 53 anos, terá morrido após aguardar quase duas horas por uma resposta do INEM. Em sofrimento, e sem a resposta da emergência médica esperada, o homem terá pedido à esposa que o transportasse, em viatura própria, até ao hospital mais próximo. O casal residia na localidade de Grilos, mas pelas 14h00 os Bombeiros Voluntários de Pombal foram contactados, uma vez que no trajeto, já em Santiago de Litém, o homem sofrera uma paragem cardíaca. Chegados ao local, os bombeiros iniciaram de imediato manobras de suporte básico de vida, mas precisaram da ajuda do INEM de Leiria, que chegou meia hora depois. A morte foi, de novo, declarada no local.
Ainda em Pombal, mas desta feita na localidade de Arnal, um idoso com 90 anos também aguardou longamente, desde as 16h00, por uma resposta do INEM. Ao todo, aguardou pelo menos uma hora — relatando a família que nunca lhes atenderam o telefonema, apenas os colocaram em espera. Acabou por morrer em casa. E acabaram por ser os Bombeiros Voluntários de Pombal (antes, a família contactou ainda a linha Saúde 24, igualmente sem resposta) a prestar o primeiro socorro. Mas não à primeira tentativa. No primeiro contacto, os bombeiros encaminharam o pedido da família para o 112, que não retornou o contacto. Num segundo contacto para os bombeiros, os próprios acionaram uma ambulância para aquele local.
Segundo uma fonte dos bombeiros de Pombal, naquela segunda-feira o INEM, via e-mail, autorizou (contrariando os regulamentos) a corporação a, “perante casos extremos”, avançar diretamente com o envio de uma ambulância.
A última das mortes na segunda-feira é, de todas, a de que menos informação se dispõe por ora. Apesar de contactados, os Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça confirmaram somente tratar-se de uma mulher que morreu no sábado, tendo aquela corporação “respondido a um pedido de ajuda”, referindo a corporação que “a senhora teve dificuldade em ligar para o INEM antes de contactar os bombeiros”.
Ainda segundo os bombeiros de Matosinhos-Leça, a mulher em questão, vítima mortal, terá estado "perto de 30 minutos a ligar ao INEM”. Os bombeiros garantem que, em caso de o telefonema ter sido atendido, e mesmo sem detalharem as causas da morte, “o desfecho podia ter sido outro”.