"Chegámos a estar dois no CODU": centrais de emergência médica funcionam abaixo dos limiares de segurança  

23 jan 2025, 20:30

Técnicos de emergência médica com dez anos de experiência denunciam mortes evitáveis por atrasos no atendimento e socorro

O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) não tem operadores suficientes para atender as chamadas de emergência. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS), num relatório de auditoria a que a CNN Portugal teve acesso, revela que os Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) passaram a funcionar, “desde 2022, em mais de 50% dos dias do ano, com um número de operadores inferior ao número mínimo”. 

A auditoria analisou também o ano de 2021, em que o problema apenas se verificou num único dos 1.950 turnos do ano. A verdade é que esse pode ter sido um ano de intervalo, porque ele é mais antigo. “Eu cheguei a ter cinco pessoas para responder às chamadas de sete distritos, entre Fátima e o Algarve”, recorda Pedro Feio, antigo chefe-de-equipa no CODU de Lisboa, onde trabalhou entre 2001 e 2012. Num turno noturno, chegou a estar sozinho com um único operador. Tânia Rita Paiva, que trabalhou como operadora da mesma central entre 2004 e 2016, testemunha o mesmo.  

Ambos os profissionais carregam na memória casos em que o atraso no atendimento - e no enviou do socorro - pode ter sido fatal para cidadãos em risco de vida. “Às vezes dou por mim a pensar se algumas situações que vivi no INEM não serão o equivalente a stress pós-traumático”, desabafa Pedro Feio.  Já Tânia Paiva confessa que tem sempre presente os telefones das corporações de bombeiros dos locais que frequenta para poder reagir no caso de não ser atendida pelo CODU em situações de emergência. 

A crise de novembro e a resposta do INEM  

A IGAS encontra na falta de operadores a grande explicação para a alta taxa de chamadas de emergência que não chegam a ser atendidas pelos CODU. “A alta taxa de chamadas abandonadas, principalmente no turno da manhã, exige uma ação imediata do Conselho Diretivo do INEM, para garantir a eficiência do serviço e a segurança dos cidadãos”, apelaram os inspetores no relatório de auditoria.  

“Este relatório vem pôr a descoberto um problema para o qual temos vindo a alertar há imenso tempo, que são as chamadas abandonadas porque não há operadores disponíveis para atender”, comenta Paulo Paço, presidente Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica. 

No primeiro semestre de 2024, nos turnos da noite (00:00 às 08:00) e da manhã (08:00 às 16:00), o Centros de Orientação de Doentes Urgentes funcionaram em 83,5% dos dias (152 em 182 dias), com um número de operadores abaixo do previsto. No total, incluindo o turno da tarde (16:00 às 00:00), foram 379 turnos de risco, o que corresponde a 69% do tempo.  A auditoria já não analisou o segundo semestre, mas o problema continuou lá.   

Em novembro, uma greve dos operadores provocou uma crise sem precedentes conhecidos e pode ter estado na origem de um número indeterminado de mortes evitáveis, algumas das quais estão a ser investigadas pelo Ministério Público.  

Foi então que o INEM reforçou as escalas de operadores no período diurno, em detrimento do período noturno. Para além disso, integrou enfermeiros e desviou para os CODU técnicos de emergência pré-hospitalar antes alocados a serviços de suporte e coordenação operacional. Como resultado, garantiu em comunicado ter baixado o tempo de atendimento para 17 segundos.  

O ex-presidente do INEM, Miguel Soares Oliveira, garantiu à CNN que essas medidas foram, de facto, eficazes. 

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