Contorno de uma mão com pelo menos 67.800 anos descoberto na Indonésia

CNN , Katie Hunt
14 mar, 11:00
Quatro dos investigadores que escreveram o estudo sobre o que pode ser a arte rupestre mais antiga do mundo: Maxime Aubert, Budianto Hakim, Adam Brumm e Adhi Agus Oktaviana. (Imagem: Ratno Sardi/Universidade Griffith)

O contorno de uma mão feito com pigmento vermelho numa gruta da Indonésia tem pelo menos 67.800 anos e pode ser a mais antiga forma de arte rupestre conhecida, segundo um novo estudo publicado na revista Nature

O contorno de uma mão feito com pigmento vermelho na parede de uma gruta na Indonésia há pelo menos 67.800 anos pode ser a mais antiga arte rupestre do mundo, segundo um novo estudo.

O stencil desbotado da mão, juntamente com outras pinturas rupestres espetaculares na ilha de Sulawesi, terá sido provavelmente criado por humanos primitivos que faziam parte de uma população que se expandiu para um continente perdido conhecido como Sahul, que hoje inclui a Austrália, a Papua-Nova Guiné e partes da Indonésia.

“São feitos com ocre. Colocaram a mão na parede e depois pulverizaram o pigmento. Não conseguimos dizer que técnica usaram. Podiam ter colocado o pigmento na boca e soprado. Podiam ter usado algum tipo de instrumento”, explica Maxime Aubert, arqueólogo e geoquímico da Universidade de Griffith, na Austrália. Autor sénior do estudo publicado na revista Nature, descreveu a descoberta como “emocionante e humilde”.

O contorno ténue do molde da mão detalhado no novo estudo pode ser visto entre outras pinturas rupestres. (Imagem: Universidade Griffith)

A idade mínima do stencil da mão, que terá sido modificado em algum momento para criar dedos distintivamente mais estreitos, é superior à de dezenas de outros exemplos de arte pré-histórica preservados nas intrigantes grutas de calcário da região. Outro exemplo é uma cena com figuras parcialmente humanas e parcialmente animais a caçar um porco verrugoso, considerada a evidência mais antiga de narrativa na história da arte.

“O que estamos a ver na Indonésia provavelmente não é uma série de surpresas isoladas, mas a revelação gradual de uma tradição cultural muito mais profunda e antiga que simplesmente nos tem passado despercebida até agora”, afirma Maxime Aubert.

A entrada da caverna Metanduno em Muno, uma ilha no sudeste de Sulawesi, Indonésia, onde o stencil de mão foi encontrado. (Imagem: Adhi Agus Oktaviana/Universidade Griffith)

O novo estudo analisou 44 sítios no sudeste de Sulawesi e datou com segurança 11 motivos de arte rupestre, incluindo sete stencils de mãos. A equipa encontrou o stencil mais antigo na gruta de Metanduno, na ilha de Muna. A gruta apresenta também imagens muito mais recentes de cavalos, veados e porcos, pintadas talvez há 3.500 a 4.000 anos, segundo o estudo. Estas pinturas são há muito uma atração turística.

Datar arte em grutas é um processo complexo, e a equipa recorreu a uma técnica que analisa vestígios químicos em crostas minerais que se formam por cima das pinturas, por vezes chamadas “pipocas de gruta”, para estabelecer uma idade mínima para a arte.

A arte rupestre de Sulawesi é também mais antiga do que a famosa arte das grutas europeias, como Lascaux, em França, e do que um stencil de mão que se suspeita ter sido feito por neandertais numa gruta em Espanha.

Picassos pré-históricos

As pessoas pré-históricas que criaram os stencils de mãos eram, muito provavelmente, membros iniciais da nossa própria espécie, homo sapiens, que viviam no Sudeste Asiático durante a Idade do Gelo. Nessa altura, os níveis do mar eram muito mais baixos e a região tinha um aspeto muito diferente, refere o estudo.

Adhi Agus Oktaviana, um dos autores do estudo que primeiro identificou as formas das mãos na caverna de Metanduna, a trabalhar no local. (Imagem: Maxime Aubert/Universidade Griffith)

Maxime Aubert diz que, depois de os humanos terem feito os stencils, estreitaram os dedos, fazendo-os parecer garras. Considera os negativos das mãos exemplos de arte que revelam comportamentos complexos, mesmo não sendo figurativos ou narrativos como a cativante cena de caça ao porco verrugoso.

Por exemplo, afirma que as mãos assinalavam lugares que eram importantes para os artistas. “Não foi uma atividade casual. Exigiu planeamento, conhecimento partilhado e significado cultural". 

Os stencils de mãos eram materialmente diferentes de uma lasca de pedra com 73.000 anos descoberta numa gruta da África do Sul, que apresentava linhas e que alguns consideraram o desenho mais antigo conhecido. Maxime Aubert observa que essas linhas eram abstratas e poderiam não ter sido uma imagem intencional.

Os humanos pré-históricos têm feito formas distintas com as mãos em cavernas em Sulawesi há dezenas de milhares de anos. Aqui está um exemplo sem data de Leang Jarie, Maros, Sulawesi. O stencil de mão detalhado no novo estudo foi deixado numa parede diferente da caverna e feito há pelo menos 67.800 anos. (Imagem: Ahdi Agus Oktaviana/Griffith University)

Paul Pettitt, professor de arqueologia paleolítica e especialista em arte pré-histórica na Universidade de Durham, no Reino Unido, diz que a data atribuída ao stencil da mão corresponde a uma idade mínima. Poderá ser muito mais antiga, afirma, e não se deve assumir automaticamente que o stencil foi feito por homo sapiens. Outras espécies humanas, como os pouco compreendidos denisovanos, provavelmente viveram na região, explica Paul Pettitt, que não participou no estudo.

"É certamente pouco claro se os stencils de mãos com dedos estreitos e pontiagudos foram deliberadamente modificados ou se são simplesmente o resultado do movimento dos dedos, mas chamar isto de complexo é uma sobreinterpretação do stencil da mão", considera. 

"Antes de escrever grandes narrativas sobre a complexidade e o sucesso do Homo sapiens, deveríamos considerar outras explicações, potencialmente mais interessantes, para este fenómeno fascinante". 

Uma viagem perigosa

Ilha de Muna, onde o stencil de mão foi encontrado, e as massas continentais agora desaparecidas de Sunda e Sahul. (Imagem: M. Kottermair e A. Jalandoni/Universidade Griffith)

A presença de arte rupestre extremamente antiga em Sulawesi está também a ajudar os arqueólogos a responder a questões muito debatidas sobre como e quando os primeiros humanos chegaram a uma terra perdida conhecida como Sahul. Essa massa terrestre ligava outrora a Austrália à ilha da Nova Guiné, hoje dividida entre a Papua-Nova Guiné e a Papua indonésia.

Alguns investigadores acreditam que os humanos chegaram a Sahul há cerca de 50.000 anos, enquanto outros defendem que a chegada ocorreu há pelo menos 65.000 anos. Também se debate a rota que terão seguido. A idade da arte rupestre de Sulawesi sugere que os antepassados dos primeiros australianos poderiam já estar em Sahul de acordo com a cronologia mais antiga e que estes humanos primitivos terão seguido uma rota mais a norte, via Sulawesi, que na altura continuava a ser uma ilha.

Essa viagem teria sido perigosa, envolvendo as primeiras travessias marítimas planeadas de longa distância realizadas pela nossa espécie, segundo o estudo. A rota terá provavelmente envolvido a travessia de Bornéu (então parte de uma massa terrestre conhecida como Sunda) para Sulawesi e outras ilhas que formam uma região que os cientistas chamam Wallacea, antes de alcançar Sahul.

Martin Richards, professor de investigação em arqueogenética na Universidade de Huddersfield, no Reino Unido, que utiliza ADN antigo e evidências genéticas de populações atuais para compreender como e quando os humanos chegaram pela primeira vez à Austrália, afirma que o novo estudo é “extremamente interessante”.

“Fornece a primeira evidência clara (por implicação, a partir da sofisticação da arte rupestre) da presença de Homo sapiens modernos em Wallacea há cerca de 70.000 anos”, diz Martin Richards, que também não participou no estudo. 

“Uma chegada a Sahul por volta de há 60.000 anos, com uma presença em Sulawesi nos 10.000 anos anteriores, faz todo o sentido e apoia o modelo da ‘rota do norte’ para o primeiro povoamento de Sahul”, afirma. 

Outros especialistas sugerem que as pessoas podem ter utilizado uma rota mais a sul, deslocando-se através de Java, Bali e das Pequenas Ilhas da Sonda antes de atravessar para o noroeste da Austrália.

Até agora, existia pouca evidência arqueológica ao longo de qualquer uma das rotas que apoiasse claramente uma em detrimento da outra, diz Maxime Aubert.

"Durante a Idade do Gelo, os níveis do mar eram mais baixos, mas as pessoas ainda tinham de viajar de barco entre ilhas, e Sulawesi foi provavelmente um ponto de paragem fundamental”, afirma. 

"A quantidade e a idade da arte rupestre encontrada aqui sugerem que este não era um local marginal, mas um centro cultural onde humanos primitivos viveram, viajaram e expressaram ideias através da arte durante dezenas de milhares de anos". 

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