A guerra é na Europa, mas o centro do mundo está no Indo-Pacífico

22 nov, 07:34
Discurso de Xi Jinping num ecrã gigante em Pequim

No aniversário da CNN Portugal, os correspondentes fazem um balanço do último ano visto de fora. Durante este período, a Ásia esteve no centro das atenções. Da ascensão da China aos mísseis da Coreia do Norte, das ameaças a Taiwan aos fenómenos climatéricos extremos, passando pelas consequências da guerra na Ucrânia

Ao longo do primeiro ano de CNN Portugal, a Ásia esteve sempre no centro das atenções do mundo. É certo que é na Europa que há uma guerra, que concentrou boa parte do noticiário dos últimos nove meses, mas é em torno do Pacífico que se trava a nova Guerra Fria, que se prolongará por muitos anos, entre aquela que era a única super-potência global - os Estados Unidos - e a nova super-potência emergente - a China. 

O que se passa na China não fica na China mas, pelo contrário, influencia cada vez mais os países vizinhos - seja do ponto de vista das suas ambições de aumentar a influência regional e afirmar-se como potência militar com soberania sobre águas internacionais, seja na espinhosa questão de Taiwan, que tem potencial para desestabilizar a toda a região e o mundo. Para além disso, a China tornou-se o principal suporte internacional dos regimes párias de Vladimir Putin e de Kim Jong-un, umas vezes escudando-os de sanções, outras atuando como cúmplice de Moscovo e Pyongyang.

E é na Ásia-Pacífico que estão as três maiores economias do mundo - EUA, China e Japão -, num momento em que as nuvens sobre a economia se adensam e as ameaças de recessão ganham força.

Eis as principais razões por que o Indo-Pacífico esteve no centro das atenções ao longo dos últimos doze meses:

Covid

Em novembro de 2021, o mundo estava a retomar a normalidade pós-pandémica, e a Ásia não era exceção. A maioria dos países asiáticos estava aos poucos a reabrir as fronteiras aos visitantes vacinados, com excepção da China, que mantinha as políticas mais restritivas de “covid zero” - Pequim só deveria reabrir-se ao mundo, dizia-se então, por altura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro. E eis que surgiu na África do Sul a Omicron, a nova variante de SARS-Cov2, bastante mais contagiosa e hábil a escapar à proteção vacinal, embora se viesse a revelar menos agressiva. 

As fronteiras que se estavam a reabrir voltaram a fechar, e a China fê-lo com ainda mais estrondo, alarmada por ter sido Hong Kong o primeiro território asiático onde a variante foi identificada. As restrições em Hong Kong seriam apenas uma amostra do que estava para vir: centenas de cidades chinesas em lockdown total, mesmo com poucas dezenas de casos, e regiões inteiras isoladas do mundo, obrigando milhões de pessoas a ficar em casa, sem poder trabalhar, fazer compras ou aceder a farmácias ou cuidados médicos. 

Xangai tornar-se-ia o expoente máximo da política de covid zero ditada por Xi Jinping: a metrópole de 25 milhões de habitantes ficou quase dois meses em lockdown, apesar dos protestos dos habitantes e do desespero da indústria, obrigada a parar, do sistema financeiro, fortemente debilitado, e das cadeias de distribuição globais, muito afetadas pelas disrupções na produção chinesa e pelo engarrafamento do porto de Xangai, o maior da China, que teve impacto planetário.

Passado o primeiro impacto da Omicron, o mundo reabriu-se entretanto, sabendo que a nova variante é menos grave e que as vacinas conferem boa proteção contra doença grave. Só a China persiste na política de covid zero, seja porque tem a assinatura do grande líder Xi, seja porque teme o impacto do alívio de medidas sobre uma população que está vacinada apenas com vacinas chinesas, menos eficazes do que as ocidentais. O país está, outra vez, em processo de fechamento - com consequências na economia, que terá o menor crescimento dos últimos anos, e no descontentamento de uma população saturada de restrições. 

Coreia do Norte

Ano novo, vida nova, terá pensado Kim Jong-un. Se assim pensou, melhor o fez: a 5 de janeiro o ditador norte-coreano lançou um míssil balístico que caiu no Mar do Japão e, desde então, não mais parou, fazendo de 2022 um ano histórico: nunca antes a Coreia do Norte havia lançado tantos mísseis, das mais variadas tipologias, incluindo mísseis balísticos inter-continentais (ICBM) capazes de atingir virtualmente qualquer ponto dos Estados Unidos e do planeta. Se a Coreia do Norte era um barril de pólvora adormecido, acordou, com estrondo. 

A escalada armamentista começou logo em janeiro, mas ganhou novo fôlego depois da invasão russa da Ucrânia. Com a fratura que se consumou entre Rússia e China, por um lado, e Estados Unidos e democracias aliadas, por outro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas ficou paralisado. O que significa que os atos de Pyongyang ficam sem sanções da ONU - ainda na noite passada os EUA pediram ao Conselho de Segurança que tome uma atitude firme contra as provocações de Kim, mas a China e a Rússia opuseram-se.

A ausência de novas sanções poderá explicar o ritmo sem precedentes a que a Coreia do Norte tem disparado mísseis: até agora, mais de trinta rondas de lançamentos, com quase meia centena de projéteis disparados. O caso mais grave foi no início deste mês, quando um míssil balístico intercontinental sobrevoou o território do Japão, algo que não acontecia desde 2017, ano em que também houve grande atividade militar por parte de Pyongyang. 

Para além dos ensaios de mísseis (incluindo, aparentemente, um Hwasong-17, a arma mais poderosa do arsenal norte-coreano), as forças armadas do Norte têm feito centenas de disparos de artilharia, e exercício aéreos, alegadamente em resposta às manobras militares conduzidas ao largo da península coreana pelos Estados unidos em conjunto com a Coreia do Sul e o Japão. E é esperado, a qualquer momento, um novo ensaio nuclear, algo que não acontece desde que Pyongyang auto-impôs uma moratória, em 2018.

Entretanto, todas as propostas de negociações por parte do novo presidente da Coreia do Sul têm sido recebidas pelo norte com ameaças de aniquilação. E na semana passada, Kim levou a filha para o trabalho, no dia em que assistiu a mais um lançamento de um ICBM - nunca a existência da filha de Kim havia sido confirmada oficialmente. Com este gesto, Kim estará a mostrar que tem uma herdeira, e que a capacidade de dissuasão nuclear do país é uma garantia de defesa para as próximas gerações. 

Eixo Pequim-Moscovo

Amizade e cooperação “sem limites”, prometeram eles. Eles eram Xi Jinping e Vladimir Putin, próximos e sorridentes, reunidos por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. A cimeira bilateral serviu para reforçar essa aliança e prometer esforços para uma nova ordem mundial, já não ditada pelo poder unipolar dos EUA, mas pelo reconhecimento de um mundo multipolar onde a China e a Rússia esperavam ter uma voz tão forte como os Estados Unidos. Tudo aconteceu nas vésperas de Putin invadir a Ucrânia, mas isso não impediu Xi de lhe dar honras de aliados estratégico, fazendo orelhas moucas aos avisos dos serviços secretos norte-americanos.

Entretanto, a invasão da Ucrânia nunca foi condenada por Pequim, que por várias vezes reiterou a vontade de cooperar com a Rússia, tendo sempre desculpabilizado Moscovo nas discussões na ONU. Quando já decorria a guerra (a China, como a Rússia, não usa esta palavra), Pequim reafirmou que a amizade com Moscovo era “sólida como uma rocha” e que ambos continuam a ser “parceiros estratégicos”.

Mas essa cumplicidade terá ficado sempre aquém da aliança que Putin esperaria - e o próprio Putin anunciou ao mundo que Xi tem “dúvidas e preocupações” sobre a “operação militar especial” ordenada pelo Kremlin na Ucrânia.

Sob enorme pressão e ameaças de retaliação do Ocidente, Pequim não deu qualquer ajuda (que se saiba) ao esforço de guerra de Putin. Se o ditador russo esperava armamento chinês para compensar as enormes perdas na linha da frente enganou-se - há informações de que o terá tentando comprar, mas a China não terá aceitado vender, o que obrigou o Kremlin a virar-se para o Irão e a Coreia do Norte. E Xi veio, entretanto, condenar qualquer ameaça de recurso a armas nucleares, desautorizando, ainda que indiretamente, um recurso que Putin tem feito questão de manter em cima da mesa.

A principal ajuda que a China tem dado ao seu “aliado estratégico” é a compra massiva de energia russa, aproveitando os generosos descontos feitos por Moscovo. E a proteção que a China continua a dar à Rússia na ONU também tem ajudado Putin a lidar com o isolamento internacional.

Guerra da Ucrânia

O teatro de guerra é na Ucrânia, mas as consequências vão muito para além da Europa, e são bastante sensíveis na Ásia. Desde o primeiro momento, a guerra de Putin foi encarada como uma ação que poderá ter enormes consequências no Indo-Pacífico. Antes de mais, pelos paralelos que se poderão fazer entre a invasão russa da Ucrânia e uma invasão chinesa de Taiwan. Ninguém duvida de que Xi tem aprendido muito com os erros de Putin - o que não se sabe é que conclusões Xi acabará por retirar, e de que forma isso irá condicionar os seus planos para a “reunificação” de Taiwan com a China continental.

Por outro lado, a invasão da Ucrânia está na base de uma narrativa maior, de combate entre democracia e autoritarismo - e, nesse combate global, as democracias asiáticas estão literalmente na linha da frente. Por isso a Coreia do Sul e o Japão têm sido bastante vocais na defesa da causa ucraniana. Sobretudo o Japão, bastante atuante no G7.

O Japão tem sido particularmente ativo nessa narrativa, e compreende-se: é vizinho de três ditaduras com fortes pulsões belicistas (China, Coreia do Norte e Rússia), tem disputas territoriais há décadas com Pequim e com Moscovo, e muitas vezes vê os aviões e navios russos e chineses a aproximarem-se demasiado dos seus mares e de alguns territórios mais periféricos. Como se isso não bastasse, Taiwan fica logo ao lado do Japão, e uma ação chinesa contra a ilha seria encarada como uma ameaça direta por parte de Pequim.

"A segurança da região do Indo-Pacífico não pode ser separada da segurança europeia", afirmou o primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, em abril, quando recebeu Olaf Scholz, que na sua primeira visita à Ásia como chanceler optou por Tóquio, e não por Pequim, como ditava a tradição do tempo de Angela Merkel. A guerra da Ucrânia acabou por reforçar a centralidade do que se passa na Ásia, como reforçou Joe Biden em maio, quando esteve em Seul e em Tóquio. 

“Isto é mais do que uma questão europeia. Isto é uma questão global”, disse Biden sobre o conflito na Europa, ligando os dois palcos e garantindo que, apesar do empenho americano na Ucrânia, seria reforçada a presença junto dos aliados do Pacífico, em particular o Japão e a Coreia do Sul.

Todo o ambiente internacional desde a invasão russa da Ucrânia está a ter outra consequência no Indo-Pacífico: uma autêntica corrida às armas. O Japão está cada vez mais distante da posição pacifista ditada pela sua constituição, vai duplicar o orçamento de Defesa e pondera até adquirir mísseis ofensivos capazes de atingir território inimigo. Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia também se preparam para grandes reforços no orçamento militar, assim como a Índia. E a opção nuclear é, cada vez mais, olhada sem preconceitos, enquanto componente decisiva numa política de dissuasão.

Assassinato de Abe

O assassinato de Shinzo Abe a 8 de julho, quando participava num comício do seu partido, chocou o Japão e o mundo. O antigo primeiro-ministro, o político com maior notoriedade e influência no Japão, sucumbiu a dois tiros disparados à queima-roupa por um homem ressentido com o que considera ter sido a cumplicidade de Abe com a Igreja da Unificação, uma seita sul-coreana com práticas extorcionistas em relação aos seus fiéis (a mãe do atirador teria levado a família à ruína com doações à congregação).

Abe foi o político que mais tempo dirigiu o Japão desde a II Guerra Mundial, e a sua morte dramática teve duas consequências: por um lado, destampou as ligações perigosas entre o Partido Liberal Democrático (PLD), o partido que governa o Japão de forma quase ininterrupta desde os anos 50, e a Igreja da Unificação - essa ligação umbilical fez afundar a popularidade do governo e tem obrigado o primeiro-ministro Fumio Kishida a sucessivas remodelações do governo, para afastar gente envolvida com a seita sul-coreana; por outro lado, permitiu revisitar o legado de Abe, sobretudo na política externa. É sua a expressão “Indo-Pacífico livre e aberto”, que se tornou a fórmula canónica com que os governos democráticos falam desta região, por oposição às pretensões de hegemonia da China nesta região. Foi Abe um dos primeiros a alertar para os perigos da ascensão chinesa e para os desequilíbrios que isso provocaria na ordem mundial. E foi ele quem foi mais longe na afirmação da voz internacional do Japão e na defesa de um reforço das suas capacidades militares. Em boa parte dessas questões, a realidade veio a dar-lhe razão.

Taiwan

A visita de Nancy Pelosi a Taiwan, que a China reclama como território seu, mas que tem auto-governo desde 1949, fez o mundo redescobrir a ilha. Para Taiwan, essa é uma boa notícia, pois estar sob as atenções do mundo é uma das melhores garantias que pode ter face ao enorme poder da China e às suas ameaças de invasão. Mas a visita de Pelosi acabou por reacender um rastilho que estava adormecido.

A forma ostensiva como a China reagiu, como manobras militares intimidadoras ao longo de vários dias, deixando na prática a ilha cercada e isolada do resto do mundo, foi uma convincente demonstração de força.

Depois disso, Xi aproveitou o congresso do Partido Comunista Chinês para reafirmar que Taiwan é China, que essa é uma questão que só compete aos chineses, que a “reunificação” é uma questão de tempo, e que acontecerá a bem ou pela força. Contra isso, Joe Biden assegurou que os EUA darão apoio militar à ilha caso a China viole o status quo, e defendeu que são os taiwaneses, e mais ninguém, quem pode decidir o futuro da ilha.

O cerco a aconteceu depois de outro cerco, menos ruidoso, menos impactante, mas estruturante na China de Xi: o cerco de Pequim à democracia de Hong Kong, que acabou por sucumbir numas eleições a que só puderam concorrer candidatos alinhados com o Partido Comunista Chinês, e aprovados por este. Com a perseguição dos ativistas pró-democracia que ainda restavam, o encerramento de jornais e detenção de jornalistas, o que restava da democracia de Hong Kong morreu nas eleições de dezembro de 2021. A China, que defende a sua forma específica de “democracia” em alternativa à democracia liberal de modelo ocidental, mostrou ao mundo em Hong Kong como funciona essa democracia chinesa: com pensamento único, sem imprensa livre, sem liberdade de expressão ou de associação. No fundo, sem democracia.

Alterações climáticas 

Se é verdade que as alterações climáticas são hoje inegáveis e se fazem sentir um pouco por todo o planeta, é ainda mais verdade que é no Indo-Pacífico que os seus efeitos trágicos se fazem sentir com mais violência. Chuvas apocalípticas no Paquistão provocaram cheias que demonstraram o quanto esta parte do globo está à mercê das alterações climáticas: deixaram dois terços do país debaixo de água, provocaram milhões de deslocados e deixaram milhões sem casa, sem comida, sem água e sem medicamentos, ao mesmo tempo que cresciam as doenças relacionadas com a falta de acesso a água potável, como a malária ou a cólera.

A catástrofe do Paquistão, que se prolongou por semanas a fio, foi o caso mais dramático, mas não foi caso único do impacto devastador das alterações climáticas na Ásia. Países como a Índia, a China ou a Coreia do Sul foram também confrontados com chuvas diluvianas. Em muitos casos, seguidas de ondas de calor históricas, que provocaram secas com consequências nunca vistas. Nalgumas regiões da China, a notícia eram os rios que desapareciam, e as barragens quase sem água.

A necessidade de refrescar as casas e locais de trabalho sobrecarregou de tal maneira as redes de energia, que a China teve de mandar fechar centenas de fábricas, mas prevenir o colapso do fornecimento de eletricidade em regiões inteiras. Até o muito desenvolvido Japão viu a sua infraestrutura de energia sob tanta pressão que Tóquio alertou a população para a probabilidade de falhas no fornecimento de eletricidade (que aconteceram mesmo).

António Guterres falou de “moções em esteróides” no Paquistão. E o país pediu ajuda internacional, não como ato de caridade, mas de compensação: afinal, emite apenas 1% dos gases responsáveis pelo aquecimento do planeta, mas está em oitavo lugar na lista dos países mais fustigados por fenómenos climatéricos extremos. 

“Vemos consistentemente devastação climática na forma de inundações, monções, secas extensas, ondas de calor extremas. E francamente, o povo do Paquistão, os cidadãos do Paquistão, estão a pagar o preço, nas suas vidas, no seu sustento, pela industrialização dos países ricos que resultou nesta mudança climática", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Bilawal Bhutto Zardari.

Reeleição de Xi

Até outubro passado, a regra no Partido Comunista Chinês (PCC) era que os respetivos líderes não o fossem por mais do que uma década, cumprindo, no máximo, dois mandatos de cinco anos. Foi a forma encontrada pelo PCC, há décadas, para impedir que alguém voltasse a ter tanto poder concentrado como Mao Tsetung, com os excessos que se conhecem. A regra valeu para todos, menos para Xi Jinping, que tratou de a alterar em 2018, abrindo caminho a um terceiro mandato, que se confirmou no mês passado - e que na verdade pode fazer dele líder vitalício da China.

Desde Mao que nenhum líder chinês tinha tanto poder como Xi. Encheu os órgãos do PCC com fiéis, sem respeitar as velhas regras de representatividade das várias fações do partido; deu provas públicas de desrespeito pelos anciãos do partido (e nenhuma mais eloquente do que a forma como o seu antecessor, Hu Jintao, foi retirado à força do congresso); inscreveu o seu pensamento na constituição do partido e recebeu o epíteto de “núcleo” do PCC. Xi é o partido, o partido é Xi, e a discordância passa a ser ilegal, pois significa contrariar o pensamento de Xi, que passou a letra de lei.

Para os próximos anos, prometeu uma China ainda mais assertiva, com forças militares maiores e mais modernas, uma economia orientada para as prioridades do partido, e uma sociedade ainda mais controlada. E avisou que a China terá de se tornar auto-suficiente e blindada em relação a sanções externas - como se estivesse já a antecipar um conflito com o Ocidente como aquele que a Rússia enfrenta atualmente.

Cimeira Biden-Xi

Quando as relações bilaterais entre os EUA e a China estavam no seu momento mais baixo em duas décadas, Joe Biden e Xi Jinping reuniram-se… na Ásia, claro. Foi em Bali, na Indonésia, à margem da cimeira do G20. O contexto regional foi marcante no frente a frente, marcado pelas questões de Taiwan, da Coreia do Norte, e da postura agressiva da China em relação a outros países da zona. A guerra na Ucrânia e a guerra comercial com os EUA também estiveram em destaque na agenda.

A principal consequência do encontro foi o regresso dos dois países ao diálogo bilateral - reabriram-se os canais de comunicação que se haviam fechado na crise do Estreito de Taiwan. Em resultado disso, os ministros da defesa dos dois países tiveram esta terça-feira uma reunião bilateral no Camboja. Como disse Biden, as duas super-potências podem ser rivais, podem ter interesses conflituantes, mas não têm de ser adversários, nem têm de chegar ao ponto de confronto.

O encontro serviu também para definir as linhas vermelhas que cada lado não permite que sejam ultrapassadas. Do lado chinês, ficou bem claro que Taiwan é a primeira dessas linhas vermelhas. Do lado dos EUA, a prioridade vai para a preservação do status quo tanto no Estreito de Taiwan como em todo o Indo-Pacífico.

Definidos os limites, resta saber como cada um dos atores - e são muitos, e não apenas EUA e China - irá gerir as áreas de conflito com os demais. Uma coisa é certa: o último ano não foi um ano excepcional: a centralidade do Indo-Pacífico na geopolítica global é o novo normal e veio para ficar.

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