Jovem indígena carrega pai às costas durante 12 horas para o centro de vacinação. A história desta fotografia

12 jan, 15:07

"Quis registar o momento porque foi uma cena muito bonita e demonstra a preocupação deles em vacinarem-se", afirma o médico que captou a fotografia

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A fotografia tem sido partilhada inúmeras vezes nas redes sociais. Nela, vemos Tawy Zó'é, de 24 anos, com o pai Wahu Zó'é, de 67 anos, às costas, à vinda do local de vacinação contra a covid-19. Foi tirada em janeiro de 2021, mas partilhada somente no início deste ano.

“Quis passar uma mensagem positiva no início do ano. Foi também uma forma de tentar mandar uma mensagem do povo Zó'é, porque eles perguntam se os brancos se estão a vacinar e se a covid-19 já acabou”, afirma Erik Jennings Simões, médico e autor da fotografia, à BBC News Brasil.

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Este povo vive numa área de cerca de 669 mil hectares, no norte do estado do Pará, no Brasil, e é composto por 325 pessoas, divididas por mais de 50 aldeias. Ao contrário da maioria dos povos indígenas, os Zó’é não registaram qualquer caso de covid-19 desde o início da pandemia, muito graças às estratégias desenvolvidas pelos próprios.

"Dividiram-se em grupos de, aproximadamente, 18 famílias, e isolaram-se nas aldeias mais distantes, para evitar qualquer tipo de contacto com a equipa de saúde. Adotaram uma estratégia de não se cruzarem nos caminhos entre eles e evitaram aproximação com os brancos. É uma tática milenar para evitar a pandemia, decidida e iniciada por eles próprios", conta o médico.

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Esta imagem acabou a ser partilhada inúmeras vezes nas redes sociais. Foto: Erik Jennings Simões

Chegada a altura da vacinação, os Zó'é foram definidos com prioritários e, a 22 de janeiro do ano passado, Wahu e Tawy deslocaram-se ao centro de vacinação para receberem a primeira dose. A forma como chegaram comoveu a equipa, afirma Erik, que tirou a fotografia enquanto pai e filho saíam do local.

"Quis registar o momento porque foi uma cena muito bonita e demonstra a preocupação deles em vacinarem-se. Além disso, a imagem ilustra a estratégia adotada articulando os conhecimentos da população com os nossos, de modo a evitar a propagação de covid-19 no povo Zó'é”, diz Erik Jennings Simões.

A forma como lá chegaram, afirma o médico, era também a única possível.

“O pai tinha uma visão muito má e um grave problema crónico no sistema urinário. Por isso, era quase totalmente impossibilitado de caminhar na floresta. O que funcionaria ali era carregar os pais às costas. É o que funciona na floresta, porque não têm ambulâncias ou outra forma de transporte".

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Apesar da receção muito positiva de grande parte das pessoas, houve quem tivesse criticado o facto de as equipas de saúde não se deslocarem a cada localidade. Algo que Simões explicou prontamente: “Teríamos de andar com equipamentos de proteção individual pesados na floresta e precisaríamos da companhia do povo Zo'é para nos guiar. Isso aumentaria o contacto com o povo indígena e a possibilidade de contaminação, justamente o que eles pretendiam evitar”.

A utilização de ambulâncias, helicópteros e aviões estava, também, fora de questão, dada a densidade da floresta. Uma avaliação técnica estimou, também, que a deslocação de aldeia em aldeia demoraria muito mais tempo.

“Evitamos, a todo custo, a imposição de nosso modelo biomédico que muitas vezes causa danos colaterais graves, quer físicos, quer psicológicos e culturais".

Erik Jennings Simões alerta, também, para alguma estupefação dos povos indígenas relativamente à falta de recetividade da vacina entre a população em geral.

"Os indígenas não entendem o motivo pelo qual muitos brancos não se vacinam. Preocupam-se com isso porque sabem que, se o branco não se vacinar, isso ir-se-á refletir neles também".

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A fotografia foi, talvez, o último registo de pai e filho juntos, uma vez que o pai, Wahu, morreu em setembro passado. De acordo com a BBC News Brasil, Tawy continua a viver com a família, e foi recentemente vacinado com a terceira dose.

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