Uma regra com um século de existência impede a minha filha de fazer parte da própria comunidade. Um processo judicial poderá mudar isso

CNN , Rhea Mogul
11 jul, 16:00
Traduzido CNN zoroastrismo
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É uma regra que tem incomodado muitos numa comunidade assolada por um declínio demográfico tão grave que, até 2050, os especialistas preveem que possam restar menos de 25 mil parsis na Índia

O sândalo a arder torna o ar mais denso numa sala tão exclusiva que apenas um número ínfimo de pessoas tem permissão para entrar nela.

Trata-se de um agiary, um local de culto zoroastriano da comunidade parsi da Índia, onde sacerdotes vestidos com túnicas brancas alimentam uma chama sagrada 24 horas por dia e recitam antigas orações em avéstico que sobrevivem há três milénios.

Estou diante daquela chama, com a cabeça coberta. Aqui, lembro-me dos meus antepassados zoroastrianos, que outrora governaram um vasto império persa, mas que foram forçados a abandonar as suas casas durante a conquista muçulmana da Pérsia, há cerca de 1.300 anos.

Os parsis são os seus descendentes, um povo que fugiu da perseguição religiosa e construiu uma vida para si próprio na costa oeste da Índia.

Esta sala sagrada é um lugar que a maioria dos indianos nunca verá — incluindo a minha filha. Isso porque ela não pode ser considerada uma parsi, nem mesmo por nascimento.

Regras rígidas de género significam que apenas aqueles nascidos de pais parsis são considerados parte da comunidade. As mulheres parsis que se casam fora da fé, como eu, podem ver-se empurradas para a margem, com os seus filhos totalmente excluídos.

É uma regra que tem incomodado muitos numa comunidade assolada por um declínio demográfico tão grave que, até 2050, os especialistas preveem que possam restar menos de 25 mil parsis na Índia. Ao longo de gerações, essas regras têm sido questionadas e debatidas, mas raramente postas à prova — até agora.

"Seremos como o açúcar"

A história da fundação que os parsis contam sobre a sua chegada à Índia remonta há séculos. Segundo a lenda, quando os refugiados zoroastrianos desembarcaram no oeste da Índia, um governante hindu local recebeu-os com um recipiente cheio de leite até à borda. O gesto sugeria que o seu reino já estava cheio.

O sumo sacerdote zoroastriano respondeu misturando uma pitada de açúcar no leite sem derramar uma gota. “Seremos como o açúcar”, terá ele respondido. “Vamos dissolver-nos na vossa terra e adoçá-la.”

Com essa promessa, surgiram os princípios que viriam a definir a vida dos parsis na Índia: não fariam proselitismo e casariam apenas com pessoas da mesma fé. O que começou por ser uma estratégia de coexistência transformou-se, ao longo dos séculos, numa resistência rigorosa à conversão e ao casamento interreligioso.

Em 1908, uma decisão judicial significativa determinou que apenas aqueles nascidos de pais parsis são reconhecidos pelo Estado como parsis, lançando as bases para mais de um século de exclusão.

Agora, um caso histórico no Supremo Tribunal da Índia procura questionar o seguinte: quem pode ser parsi?

A história dos parsis na Índia é a de uma comunidade muito mais reduzida em número do que a sua influência sugere.

Entre as figuras ilustres contam-se a família Tata (fundadores do vasto conglomerado proprietário da Jaguar Land Rover), o primeiro marechal de campo do país, Sam Manekshaw, e Homi J. Bhabha, o mentor do programa nuclear indiano.

Fora da Índia, deram ao mundo Freddie Mercury, nascido Farrokh Bulsara, o eletrizante vocalista da banda de rock britânica Queen.

Uma comunidade que contava com mais de 100 mil membros na Índia em 1941, os parsis tinham diminuído para menos de 60 mil em 2011, de acordo com dados do recenseamento. Muitos permaneceram na Índia; outros partiram e construíram novas vidas.

Nasci em Bombaim, numa longa e ininterrupta linhagem de parsis.

A autora Rhea Mogul a ser iniciada na fé zoroastriana por um sacerdote parsi em Bombaim, em dezembro de 1999. foto Rhea Mogul/CNN

Criada no coração do sul de Mumbai, num edifício de poucos andares construído exclusivamente para a nossa comunidade, a nossa era uma casa parsi por excelência. No interior, gerações de história ecoavam nos centenários azulejos estampados e nas pesadas relíquias vitorianas de madeira escura que dominavam cada divisão.

A minha avó, Hilla Banaji, era profundamente religiosa. Recitava as suas orações todas as manhãs, usava vestuário sagrado zoroastriano chamado ‘sudreh e kusti’ e nunca saía pela porta da frente sem primeiro rezar perante a grande fotografia do profeta Zaratustra pendurada acima da entrada. Certa vez, encorajou-me a “encontrar um bom rapaz parsi” quando crescesse.

Rhea Mogul com a avó após a sua cerimónia de navjote em Bombaim, em dezembro de 1999. foto Rhea Mogul/CNN
Os cocos simbolizam a prosperidade e são um elemento importante em ocasiões auspiciosas para os parsis. foto Rhea Mogul/CNN
Rhea Mogul é agora repórter da CNN para o sul da Ásia. foto Michael Chung

Mudei-me para Hong Kong, onde encontrei outra pessoa – fora da comunidade religiosa.

Muitos parsis demonstram uma resignação silenciosa face aos limites rígidos da comunidade. As pessoas podem nem sempre concordar com eles, mas a maioria aceita-os e segue-os.

Nas últimas décadas, no entanto, esse sentimento parece ter mudado. À medida que uma nova geração de mulheres parsis constrói vidas independentes e famílias sob os seus próprios termos, cada vez mais pessoas começam a ver estas regras não como tradições imutáveis, mas como algo que tem de mudar.

Sanaya Dalal também cresceu numa comunidade parsi muito unida, a cerca de 10 quilómetros da minha, na Colónia Parsi de Dadar, um enclave histórico que contrasta fortemente com o resto de Bombaim: tranquilo, sereno e felizmente livre do trânsito notório da cidade.

Tal como eu, casou-se fora da religião. Ao contrário de mim, ficou na Índia, onde a sua família é frequentemente excluída dos rituais e encontros da comunidade.

Dalal, de 43 anos, autodenomina-se uma “criança da colónia” — uma expressão comum que descreve as crianças parsis que vivem nestes enclaves exclusivos. “Crescemos aqui. Os nossos amigos estão aqui. Os nossos filhos estão a crescer aqui”, afirma.

Dinu Villa, uma residência parsi construída em 1932 em Dadar, Bombaim. foto Atul Loke/Panos Pictures/Redux
O agiary dentro da Colónia Parsi de Dadar, um enclave construído exclusivamente para a comunidade em Bombaim, na Índia. foto Rajesh Khade/CNN

O marido de Dalal, Rishi Kishnani, cresceu no meio dos parsis; a sua mãe era parsi; nunca ninguém lhe tinha dito que ele fosse outra coisa – até ao dia em que entrou num campo de críquete para bater e foi interrompido por um apito agudo.

Na altura, tinha 15 anos e já tinha jogado críquete com os amigos no enclave de Dadar tantas vezes que aquele lugar parecia uma extensão da sua casa.

“Não, não, não podes jogar”, recorda Kishnani do que lhe foi dito.

“Porque é que não?”, perguntou ele.

“O teu pai não é parsi.”

Kishnani tem agora 48 anos, mas a exclusão ainda o magoa profundamente.

E está furioso por ver o mesmo a acontecer ao seu filho.

Conversão e exclusão

Os critérios legais para determinar quem se qualifica como parsi são relativamente recentes para uma seita com milénios de história.

As regras foram estabelecidas na sequência de um processo judicial histórico datado de 1908 que envolveu a cidadã francesa Suzanne Brière, que se tinha convertido ao zoroastrismo após casar com um membro de destaque da família Tata.

No entanto, quando ela planeou ser sepultada na Torre do Silêncio de Bombaim — um local funerário parsi ao ar livre utilizado para enterros celestes, onde os mortos são tradicionalmente expostos aos abutres —, os ortodoxos mais radicais opuseram-se.

O marido de Brière levou o caso ao Supremo Tribunal de Bombaim, onde os juízes definiram a comunidade parsi em termos estritamente patriarcais: apenas os homens parsis podiam transmitir a identidade religiosa, independentemente de com quem se casassem. Os convertidos, bem como os filhos de mães parsis com pais não-parsis, foram excluídos. Brière perdeu a sua batalha e está sepultada no Cemitério Père Lachaise, em Paris — também um local ilustre, mas a um continente de distância daquele que poderia ter sido o seu local de descanso desejado.

A decisão judicial estabeleceu um precedente: as crianças nascidas de mulheres parsis que se casam fora da religião podem ser proibidas de ser iniciadas na religião, de entrar em locais de culto ou de ter acesso a determinados programas de assistência social, habitação e educação reservados exclusivamente aos parsis.

Muitos sacerdotes progressistas e membros da comunidade rejeitam estas regras excludentes e desafiam-nas discretamente.

Mas a minha própria família sentiu em cheio o peso da exclusão depois de os pais do meu pai — ambos parsis — se terem divorciado e cada um ter voltado a casar fora da comunidade. A minha avó adotiva cristã foi impedida de assistir ao funeral do seu sogro. À minha avó parsi, que se casou com um homem hindu, também foi negada a entrada. Ambas foram obrigadas a sentar-se do lado de fora dos portões, o que perturbou profundamente a família que velava no interior.

Ao longo dos anos, várias mulheres parsis na Índia interpuseram ações judiciais contra tais práticas. Em 2010, Goolrokh Gupta intentou uma ação depois de o seu casamento interreligioso ter sido utilizado para a impedir de realizar os últimos rituais fúnebres dos seus pais. O caso acabou por chegar ao Supremo Tribunal da Índia, onde, em 2017, um colégio de juízes constitucionais emitiu uma ordem provisória que lhe permitia entrar em locais de culto zoroastrianos.

Em 2017, a autora Prochy Mehta recorreu aos tribunais quando foi negada a entrada num templo do fogo em Calcutá aos filhos da sua filha, que se tinha casado com alguém de outra religião.

“[O templo do fogo] é o que mantém a ligação com a nossa religião, e vocês estão a cortar essa ligação”, afirmou Mehta, autora de dois livros sobre os parsis. “Torna-se muito difícil para a criança, para os pais e para os avós.”

O processo está a decorrer no Tribunal Superior de Calcutá.

"Bombaim não teria sido a mesma"

Os princípios fundamentais do zoroastrismo — um único Deus, a luta cósmica entre o bem e o mal — são amplamente considerados pelos historiadores como tendo constituído a base teológica das principais religiões abraâmicas.

A fotógrafa e cineasta parsi Sooni Taraporevala passou anos a reunir o que poderá ser um dos arquivos mais íntimos da vida quotidiana da comunidade, graças ao seu acesso a espaços que os forasteiros raramente veem.

Sentada no seu estúdio no sul de Bombaim, ela folheia as páginas de um livro que publicou em 2000, repleto de imagens de figuras emblemáticas parsis, humor e rituais.

“As fotografias congelam o tempo e sobrevivem à morte”, diz.

O seu livro capta os momentos mais pessoais da comunidade, desde a vida familiar e casamentos até aos ritos religiosos sagrados. É também um retrato de uma comunidade minoritária com uma ligação profunda à cidade onde ela cresceu.

A argumentista, fotógrafa e cineasta indiana Sooni Taraporevala, durante uma entrevista à CNN. foto Rajesh Khade/CNN

“Bombaim não teria sido a mesma sem os parsis”, afirma ela. “Para a maioria de nós, é o nosso único lar. É o meu único lar.”

Taraporevala não acredita que a comunidade deva “excluir as pessoas” e defende que os parsis na Índia poderiam sobreviver se as regras mudassem.

“Assim que a definição mudar, assim que as mulheres casadas com não-parsis, […] assim que os seus filhos puderem ser classificados como parsis, então acho que já não vamos extinguir-nos”, vaticina.

Por vezes, pensa em escrever outro livro.

“Se alguma vez fizesse uma reimpressão, ou se alguma vez fizesse outra edição do meu livro”, diz ela, “acrescentaria fotografias de parsis, de casais intercomunitários”.

"Parsi significa Parsi"

Durante anos, Dalal levou o filho ao Dadar Parsi Gymkhana, um clube privado para sócios. Como não era sócio, a entrada do seu marido, Kishnani, estava limitada a quatro vezes por mês.

Dalal diz que o filho brincava lá diariamente com os amigos, aproveitando uma política do clube que permite a entrada de crianças com menos de cinco anos sem necessidade de ser sócio. Mas, assim que ele fez cinco anos, as regras mudaram. Quando Dalal tentou inscrevê-lo, foi rejeitada.

Na opinião deles, ele não era parsi.

A CNN refere-se ao menino como Aaresh por motivos de privacidade.

Depois de Aaresh ter sido impedido de entrar no clube, a família começou a limitar as suas visitas. Agora, combinam encontrar-se com os amigos em terreno “neutro” – na casa de alguém, num jardim ou noutro local.

“Era uma criança de cinco anos que queria brincar com os amigos no parque infantil, e deparei-me com uma forte oposição. Eles não queriam isso. Não querem que as regras mudem. Parsi significa Parsi”, diz-me Dalal.

Em 2021, ela e o marido decidiram contestar a regra que há muito afligia a sua comunidade, levando o caso ao Supremo Tribunal da Índia. Após anos de espera, o caso poderá finalmente ser julgado nos próximos meses.

Sanaya afirma que estão a lutar pelo “direito de praticar a sua religião, o direito de herdar bens, o direito de ter uma vida social e de viver com dignidade”.

“Já não estou disposta a aceitar o status quo”, acrescenta, salientando que a discriminação “não tem origem na religião”.

A Dadar Parsi Colony Gymkhana recusou-se a comentar, uma vez que o assunto se encontra em fase judicial.

Interesse pessoal vs. comunidade

No Instituto Dadar Athornan, um seminário com internato para rapazes zoroastrianos, Ramiyar Karanjia reúne-se com os seus alunos para formar a próxima geração de clérigos da religião. Vestido com uma túnica branca tradicional, encontra-se em frente à escola centenária, onde estudou quando era criança.

“Ser parsi é um dos legados mais antigos que se pode herdar”, afirma. “E isso, por si só, é motivo de grande orgulho.”

Ramiar Karanjia Press no interior de um salão no Dadar Endoscopic Institute em Bombaim, Maharashtra, fevereiro de 2026. foto Rajesh Khade para a CNN
Alunos do Dadar Anthonyan Institute em Bombaim, Maharashtra, fevereiro de 2026. foto Rajesh Khade para a CNN
As orações sagradas do Zoroastrismo. foto Rajesh Khade para a CNN.

O sacerdócio parsi é hereditário, o que significa que todos os rapazes que aqui estudam nasceram em famílias de sacerdotes. Karanjia vê um futuro nestes estudantes e acredita que o declínio populacional “não é tão alarmante ao ponto de termos de tomar medidas que sejam prejudiciais à própria existência desta comunidade”.

“Aprendemos que as únicas pessoas que sobreviveram estão na Índia, onde praticaram e mantiveram a exclusividade, ou seja, casar-se dentro do próprio círculo, dentro da comunidade, tanto quanto possível”, refere.

Karanjia diz-me, com um sorriso educado, que ele e outros sacerdotes como ele “compreendem as circunstâncias” de pessoas como eu, que se casaram fora da comunidade.

“Temos simpatia por elas, não no sentido de uma simpatia negativa, mas porque as suas circunstâncias podem obrigá-las a isso”, diz ele. “Mas temos também de ter em conta a salvaguarda e a existência da nossa religião e da nossa comunidade… temos de ver o que é mais importante… o interesse pessoal ou o interesse da comunidade em geral.”

Migração e declínio

Muitos membros da comunidade com quem falei têm esperado que abrir as portas aos filhos de mães parsis possa ajudar a abrandar ou mesmo a reverter o declínio demográfico. No entanto, a investigação mostra que a verdadeira influência reside nas próprias mulheres – e que a mudança só ocorrerá se nascerem mais bebés dentro da comunidade.

Um dos estudos mais detalhados sobre a população parsi, realizado em 2011, concluiu que o reconhecimento dos filhos de mulheres casadas com homens de outras etnias teria apenas um impacto “insignificante” na reversão do declínio — devido à taxa de natalidade extremamente baixa entre os parsis.

Depois de se estabelecerem ao longo da costa ocidental da Índia, muitos parsis construíram as suas vidas como comerciantes em portos movimentados. A sua prosperidade cresceu ainda mais com a chegada dos britânicos no século XVII, o que lhes abriu portas que lhes permitiram alcançar uma maior igualdade de género do que muitas outras mulheres na Índia patriarcal.

Com formação académica e carreiras profissionais, muitas mulheres parsis tendem a casar mais tarde – ou, por vezes, nem sequer se casam – e têm frequentemente menos filhos.

Aliado a uma migração significativa para o estrangeiro, isto provocou um declínio acentuado na comunidade parsi da Índia. A tal ponto que, mesmo com o país a debater-se com a sobrepopulação, o governo tomou a medida invulgar de incentivar os parsis a aumentarem as suas famílias.

Shahnaaz Dalal, sem qualquer parentesco com Sanaya Dalal, vive no rés-do-chão de uma casa de campo pitoresca, de estilo histórico, com o seu marido parsi, Rohinton, os sogros e as duas filhas, noutro enclave parsi no norte de Bombaim.

O casal teve o seu segundo filho no final do ano passado, com o apoio de um programa lançado pelo governo em 2013 para aumentar a população parsi.

Ao abrigo deste programa, as famílias parsis cujos rendimentos se situam abaixo de um determinado limiar podem receber apoio financeiro para tratamentos de fertilidade e cuidados infantis. Até ao momento, o programa já contribuiu para o nascimento de cerca de 490 crianças em 12 anos, de acordo com dados do governo.

Dalal fica emocionada ao pensar nas mães que o programa ajudou. “Quando vemos um bebé passados cinco anos, dez anos… isso é felicidade”, diz ela.

Faz uma pausa quando lhe pergunto se as mulheres parsis que se casam fora da comunidade são elegíveis para receber o apoio.

“Não”, responde com um sorriso complacente.

Vítima sem saber

Sanaya Dalal e Kishnani afirmam que Aaresh, agora com 12 anos, não está a par das questões políticas que envolvem a sua própria linhagem.

Os pais não lhe explicaram por que razão não vão ao clube – e ele nada sabe sobre o processo judicial.

“Criámo-lo dentro da fé”, diz Dalal. “E ele não sabe que é vítima de discriminação.”

Mostram-me fotografias do seu Navjote, uma cerimónia de iniciação religiosa, em que Rishi usa um ‘dagli’, uma vestimenta tradicional branca de mangas compridas, com um casaco até ao joelho, e Sanaya está vestida com um sari parsi.

Quando decidiram, pela primeira vez, recorrer ao Supremo Tribunal, a sua história foi notícia em toda a Índia.

Muitos apoiaram a sua luta, elogiando-os por darem esse passo. Outros manifestaram a sua desaprovação.

Na sala ao lado, Aaresh joga videojogos com o seu amigo, como qualquer outro rapaz de 12 anos, fazendo uma pausa nos trabalhos de casa e na preparação para um exame de francês, alheio à forma como a luta dos seus pais poderá mudar a sua vida e a de outros como ele.

Os seus pais sabem que podem passar anos até que o seu caso seja julgado em última instância.

Sanaya e o marido durante a cerimónia de Navjote do filho, em Bombaim. foto Sanaya Dalal

“Tanta gente disse-me que o sistema judicial indiano vai demorar 10 anos, 15 anos, pode até demorar 50”, refere Kishnani. “Mas vou fazê-lo, porque isto tem de mudar.”

Não sei o que o futuro reserva para a nossa pequena comunidade parsi.

De volta ao agiary onde me encontro, a chama sagrada é mantida por rituais e disciplina. Mas para além destas paredes consagradas, a continuidade pode depender tanto da ação como da fé.

Gostamos de contar a história de como os nossos antepassados chegaram a este país não como conquistadores e como prometeram integrar-se nele de forma harmoniosa. É uma história que repetimos porque oferece uma visão enraizada na inclusão.

No entanto, a questão que agora se coloca perante o tribunal superior da Índia é esta: o que resta dessa promessa quando as próprias mulheres da comunidade e os seus filhos são deixados de fora?

Ayushi Shah, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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