"Não há máscaras suficientes no mundo para tornar este ar respirável"
Um nevoeiro “sufocante” inaugura anualmente a temporada de poluição em Deli. A ausência de políticas para combater os níveis de poluição do ar continua a fazer de Deli a cidade mais poluída do mundo.
Foi para dar resposta à inação dos sucessivos governos que, no domingo passado, a capital indiana foi palco de um protesto pelo direito de respirar com segurança. Isto numa altura em que o Índice de Qualidade do Ar (AQI, na sigla em inglês) já regista números 100 vezes acima daquilo que é considerado seguro pelas entidades globais de saúde. “Deli já não é uma cidade habitável, é uma armadilha mortal”, diz Radhika Aggarwal, uma das manifestantes, citada pelo The Guardian.
Atualmente, a poluição mata mais do que a obesidade ou a diabetes na cidade e muitos moradores comparam Deli a "uma câmara de gás": “Enquanto estou aqui, sei que estou a respirar um ar que me está a matar e vemos nada mais do que um fracasso do governo em fazer alguma coisa para o impedir. Sem políticas, sem ação real, por isso estou aqui para lutar pela minha cidade.”
Nos dias anteriores ao protesto, que deveria ocorrer em moldes pacíficos, os ativistas foram alvo de pressões que visavam cancelar o ajuntamento, chegando a ser ameaçados com ações judiciais.
Saurav Das, um manifestante de 26 anos, sublinhou que a ideia sempre foi reunirem-se “pacificamente” junto do India Gate, “para enviar uma mensagem em alto e bom som” ao governo, cuja “apatia e políticas fracassadas falharam em combater a poluição do ar”.
Em vez disso, “fomos recebidos com força bruta desnecessária”, afirmou, depois de as autoridades deterem quase 100 manifestantes e fecharem o local de maneira a impedir o protesto.
Nos cartazes erguidos durante o protesto, os manifestantes escreveram mensagens de desespero e de apelo à ação dos governantes. “Respirar está a matar-me”, lia-se num deles. Sofie foi mais uma das moradoras que decidiu juntar-se ao protesto e garante que “não há máscaras suficientes no mundo para tornar este ar respirável”. “Não consigo dar um passeio sem ter uma dor de cabeça terrível”, acrescentou.
Outro manifestante citado pelo Guardian não tem dúvidas de que “qualquer outra cidade que estivesse a respirar este ar já teria declarado uma emergência de saúde”.
Na base do problema está uma mistura letal de emissões de dezenas de milhões de carros, de centrais elétricas e gases libertados por incêndios.
O grande alvo do protesto foi o Partido Bharatiya Janata (BJP), que em fevereiro venceu as eleições e formou um novo governo, dando esperança aos moradores de que seria definida uma nova agenda política antipoluição a nível nacional. O Executivo atual culpou o governo anterior pela dimensão do problema, mas não apresentou até agora medidas significativas no combate à poluição, tendo já sido acusado de falsificar os dados de poluição da cidade.