"É impossível respirar": a vida na cidade mais poluída do mundo

CNN , Esha Mitra, Aishwarya S Iyer e Helen Regan
14 dez 2024, 19:00
Poluição na Índia (Sunil Ghosh/Hindustan Times/Getty Images via CNN Newsource)

Os níveis de poluição chegaram a ultrapassar os 1.750 no Índice de Qualidade do Ar em algumas partes da capital indiana, quando um valor superior a 300 já é considerado perigoso para a saúde

No interior da primeira clínica dedicada a doenças relacionadas com a poluição em Deli, na Índia, Deepak Rajak esforça-se por recuperar o fôlego. A asma do homem de 64 anos agravou-se nos últimos dias e a filha levou-o à clínica, preocupada com a rápida deterioração do estado de saúde do pai.

Sentado na sala de espera, Rajak conta à CNN que ficou com “muita falta de ar” e não consegue parar de tossir. “É impossível respirar. Acabei de chegar de autocarro e senti-me como se estivesse a sufocar”, descreve.

A clínica especializada do hospital Ram Manohar Lohiya (RML) de Deli foi criada no ano passado para tratar o número crescente de pessoas afetadas pela perigosa poluição atmosférica, que se agrava todos os invernos na capital indiana.

No exterior, um lençol de smog tóxico - uma mistura de nevoeiro e fumo, que faz arder a garganta, instalou-se sobre a cidade desde o final de outubro, transformando o dia em noite, perturbando os voos, bloqueando a visibilidade dos edifícios e pondo em perigo a vida de milhões de pessoas.

Em nenhum outro lugar do planeta o ar é tão perigoso para a saúde humana, de acordo com os monitores globais da qualidade do ar.

A situação tornou-se tão má que o ministro-chefe de Deli, Atishi, que só usa um nome, declarou o estado de “emergência médica”, tendo as autoridades encerrado as escolas e apelado às pessoas para ficarem em casa. Mas essa não é uma opção para Rajak, que depende do seu emprego numa lavandaria para sustentar a família.

“O que é que eu posso fazer? Tenho de sair de casa para ir trabalhar”, constata. “Se não ganhar dinheiro, como é que vou comer? Quando saio de casa, a minha garganta fica completamente entupida. À noite, parece que estou sem vida”.

Deepak Rajak, cuja asma se agravou nas últimas semanas, visita uma clínica de poluição em Nova Deli (CNN Internacional)

Rajak já foi hospitalizado uma vez este ano, porque o smog agravou a sua asma.

Sem qualquer alívio no que toca à perigosa poluição, a filha Kajal Rajak admite recear que o pai tenha de ser internado de novo - um encargo financeiro acrescido, num momento em que já estão a lutar para pagar os inaladores e os dispendiosos testes de diagnóstico. Até levar o pai à clínica é perigoso, garante.

“Não se consegue ver o que está à nossa frente”, descreve Kajal. “Estávamos na paragem do autocarro e nem sequer conseguíamos ver o número do autocarro ou se o autocarro estava mesmo a chegar - era essa a dimensão da névoa.”

"Como pimenta nos meus olhos"

Em algumas partes de Deli, os níveis de poluição chegaram a ultrapassar os 1.750 no Índice de Qualidade do Ar em determinadas semanas, de acordo com o IQAir, que monitoriza a qualidade do ar a nível mundial. Um valor superior a 300 é considerado perigoso para a saúde.

A mediação do poluente mais pequeno e mais perigoso, PM2.5, já chegou a ser de mais de 77 vezes superior aos níveis de segurança estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A CNN contactou o Ministério das Florestas, do Ambiente e das Alterações Climáticas da Índia para obter comentários.

Quando inaladas, as partículas de PM2.5 penetram profundamente no tecido pulmonar, sendo que podem entrar na corrente sanguínea, e têm sido associadas à asma, a doenças cardíacas e pulmonares, ao cancro e a outras doenças respiratórias, bem como a deficiências cognitivas nas crianças.

Um forte smog matinal cobre Nova Deli a 19 de novembro de 2024 (Vipin Kumar/Hindustan Times/Getty Images)
Homens jogam críquete com o céu está envolto em fumo em Nova Deli, a 20 de novembro de 2024 (Anushree Fadnavis/Reuters via CNN)
Os passageiros saem à rua numa manhã de inverno enevoada, no meio da crescente poluição atmosférica, a 19 de novembro de 2024, em Greater Noida, na Índia (Sunil Ghosh/Hindustan Times/Getty Images)

A CNN falou com cerca de uma dúzia de residentes de Deli - a maioria disse que tinha dificuldade em respirar devido à poluição. Muitos descreveram sentir-se sufocados, uma vez que o ar nocivo lhes fazia arder os olhos e provocava comichão na garganta.

“Sinto-me como se tivesse pimenta nos olhos”, afirma Mohammad Ibrahim, um condutor de automóveis de longa data na cidade, acrescentando que lhe dói constantemente o peito por trabalhar ao ar livre, no meio da poluição, durante todo o dia.

“Quando vou para casa à noite e lavo as mãos e a cara, sai-me uma coisa preta do nariz. Isso nunca acontecia antes”, diz Ibrahim. Tal como Rajak, Ibrahim não se pode dar ao luxo de deixar de trabalhar, apesar de a sua saúde estar em risco.

“Se não for trabalhar, como é que vou encher o meu estômago? Como é que vou pagar a renda? Sou um homem pobre”, lamenta.

Alguns residentes vulneráveis reconhecem que se tornou difícil sobreviver em Deli. Aditya Kumar Shukla, 64 anos, membro reformado da Força Aérea Indiana, diz que tenta não sair à rua nos dias mais poluídos.

“Não se pode fazer nada (para nos salvarmos da poluição). Mesmo que estejamos dentro de casa, a poluição entra também, porque o ar está muito sujo”, esclarece à CNN, a partir do hospital Batra de Deli, onde está a ser tratado devido à asma.

Shukla conta que foi hospitalizado três vezes este ano e que se mudaria da cidade se pudesse. “Causa stress e é muito perigoso, mas nesta fase para onde posso ir?”, questiona. “Irrita-me muito, quero sair de Deli, mas não há instalações na Índia, especialmente para aqueles que sofrem de asma e doenças pulmonares.”

Na clínica de poluição, o médico Amit Jindal diz que ele e os colegas registaram um aumento acentuado de pacientes com problemas no peito e nos pulmões desde que os níveis de poluição dispararam. O médico confirma ainda que o aumento está diretamente relacionado com o smog.

Os doentes sofrem de tosse persistente, problemas no peito e nos pulmões e ardor nos olhos, mas os que já têm problemas de saúde, como Rajak e Shukla, ou os que trabalham ao ar livre, são mais vulneráveis, explica.

Por sua vez, Gaurav Jain, pneumologista do hospital Batra, afirma que mesmo os não fumadores estão a desenvolver doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) - uma patologia pulmonar que restringe o fluxo de ar e causa problemas respiratórios.

“Muitos doentes que inalam cronicamente os poluentes, que trabalham perto de zonas com poeiras, desenvolvem DPOC”, afirma. “Os seus pulmões não estão saudáveis, desenvolvem falta de ar numa idade bastante precoce em comparação com a população normal e têm um risco acrescido de cancro do pulmão.”

Um homem caminha para o trabalho enquanto uma espessa camada de smog cobre Nova Deli a 18 de novembro de 2024 (Manish Swarup/AP)

Uma crise a longo prazo

Há mais de duas décadas que Deli se confronta com elevados níveis de poluição atmosférica. A qualidade do ar piora todos os anos à medida que o calor do verão dá lugar aos meses mais frios. Os dias sem vento significam que o smog proveniente das queimadas de resíduos agrícolas, das centrais elétricas a carvão e do tráfego paira sobre os céus da cidade.

A autoridade indiana responsável pela poluição indicou que várias zonas de Deli apresentavam no mês de novembro uma qualidade do ar “severa+” e esforçou-se por aliviar o smog, aplicando medidas de emergência que incluem a suspensão da circulação de camiões não essenciais e dos trabalhos de construção.

Um camião borrifa água para assentar as partículas de pó em Nova Deli, a 19 de novembro de 2024 (Ajay Aggarwal/Hindustan Times/Getty Images)

As autoridades também estão a borrifar as estradas com água e supressores de poeira e a aumentar a limpeza das estradas. Mas os especialistas dizem que estes esforços, que são lançados todos os anos, são apenas medidas temporárias que não atacam as causas subjacentes à poluição atmosférica.

“Em termos de ação real para reduzir as emissões na fonte, tem sido muito limitado. E posso dizer com bastante confiança que a intensidade da resposta do governo para reduzir esses níveis perigosos de poluição não corresponde à intensidade da emergência que enfrentamos”, aponta o analista ambiental Sunil Dahiya.

Em 2019, o governo indiano introduziu o Programa Nacional de Ar Limpo para melhorar a qualidade do ar e do ambiente nas cidades e foram criados vários outros comités, tanto a nível nacional como estatal, para combater a poluição atmosférica.

Mas os analistas afirmam que os governos estão a concentrar-se mais na resposta de emergência do que nos esforços sustentados para melhorar a qualidade do ar. Embora a queima dos resíduos durante a época das colheitas de inverno agrave os níveis de poluição, para resolver a crise a poluição tem de ser combatida durante todo o ano, avisa Dahiya.

“Precisamos de trabalhar em ações sistemáticas e abrangentes que reduzam a poluição na fonte, o que significa que temos de começar a falar sobre a quantidade de poluição atmosférica emitida pelo setor dos transportes, pelo da energia, pelas indústrias, pelos resíduos e em que geografia”, afirma Dahiya.

Na clínica, Kajal Rajak está ansiosa com o agravamento do estado de saúde do pai, que tem dificuldade em respirar e andar. Está zangada, mas diz que ficar assim não vai resolver o problema. “O governo tem de fazer alguma coisa.”

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