“A geração Z não acorda cedo, mas está cá.” Partido das baratas saiu da internet para denunciar o colapso da educação e da política na Índia

4 jul, 21:30
Abhijeet Dipke, fundador do Cockroach Janta Party, discursa durante um protesto que exige a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, por alegadas irregularidades em exames e repetidas fugas de perguntas, em Nova Deli, Índia, sábado, 20 de junho de 2026.
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Nasceu como piada na internet, depois de jovens indianos serem comparados a “baratas”. Mas o Cockroach Janta Party saiu dos ecrãs para Jantar Mantar, em Nova Deli, Índia, juntou estudantes, ativistas e figuras públicas como Sonam Wangchuk, um ativista que entrou em greve de fome, e transformou o escândalo das fugas de perguntas no NEET, o exame de acesso a Medicina, num protesto contra o ministro da Educação, contra o Governo de Modi e contra uma promessa quebrada de futuro para os jovens indianos. A pergunta que lançou o movimento era simples: “E se todas as baratas se juntassem?” Algumas semanas depois, já ocupava a rua

Na manhã desta quarta-feira, em Jantar Mantar, o histórico observatório astronómico de Nova Deli, que se tornou também um dos lugares habituais de protesto na capital, Sonam Wangchuk já tinha perdido dois quilos.

A tensão arterial estava a cair, o corpo começava a responder ao quarto dia de greve de fome, e o Cockroach Janta Party — numa tradução mais livre, “Partido Popular das Baratas” —, movimento juvenil indiano de protesto contra o Governo, nascido há pouco mais de um mês como uma piada política na internet, parecia ter encontrado aquilo que todos os movimentos procuram quando saem dos ecrãs para a rua: um corpo disposto a pagar um preço.

Wangchuk, 59 anos, engenheiro, educador e ativista climático de Ladakh, território himalaio no extremo norte da Índia, não é uma figura qualquer no país. Há anos que desafia o Governo central por causa da autonomia e da proteção ambiental da região. Agora está sentado no centro de Nova Deli, ao lado de jovens que se chamam a si próprios “baratas”, para exigir a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, depois do escândalo das fugas de perguntas no NEET, o exame nacional de acesso às faculdades de medicina.

“Esperemos que não tenhamos de ir tão longe”, afirmou à Reuters, deitado num colchão, ao explicar que estava preparado para seis semanas de jejum ou até para morrer. “Um governo sensível, numa democracia, escuta a dor das pessoas.”

A dor, neste caso, começou muito antes da fome de Sonam Wangchuk. Começou nos quartos onde milhões de estudantes passaram meses ou anos a preparar uma prova que lhes prometia uma saída. Começou nos centros privados de preparação para exames, pagos com sacrifício pelas famílias. Nas madrugadas de estudo, nos manuais sublinhados até à exaustão. Na ideia de que, se alguém trabalhasse o suficiente, o exame seria pelo menos justo.

Depois vieram as suspeitas de fuga de perguntas, a anulação da prova, a repetição marcada sob vigilância apertada, e a sensação de que até a meritocracia precisava de escolta.

O Governo reconheceu “falhas graves”. Dharmendra Pradhan admitiu mesmo, numa entrevista à estação NDTV, que a agência responsável pelo exame tinha confiado em alguns professores que não cumpriram o seu dever. “Os protetores tornaram-se predadores”, resumiu o ministro. A frase era forte, talvez forte demais para quem está do lado do poder. Para os estudantes, não bastou. Se os protetores se tornaram predadores, perguntavam, quem responde por isso? Se a prova que decide o futuro de milhões pode ser corrompida antes de chegar à carteira, que valor tem o esforço individual?

A Cockroach Janta Party nasceu dessa pergunta, dessas perguntas, mas também de um insulto.

Do insulto ao protesto

Em maio, o presidente do Supremo Tribunal, Surya Kant, provocou indignação ao comparar alguns jovens desempregados e ativistas a “baratas” e “parasitas”. Mais tarde esclareceu que se referia a pessoas com diplomas falsos, não à juventude indiana. A correção já chegou tarde. As palavras tinham encontrado o lugar onde se tornam outra coisa: pressão política. Abhijeet Dipke, 30 anos, formado pela Universidade de Boston, lançou então uma pergunta no X: “E se todas as baratas se juntassem?”

A resposta veio primeiro em forma de meme. Depois em forma de página. Depois em forma de partido satírico, com nome parecido com o Bharatiya Janata Party do primeiro-ministro indiano Narendra Modi, uma barata como símbolo e uma descrição que parecia escrita entre o riso e o esgotamento: uma frente política para “os preguiçosos, os desempregados e os cronicamente corretos”. Em poucos dias, a conta de Instagram somava mais de 20 milhões de seguidores. Em poucas semanas, a piada tinha mais seguidores do que muitos partidos reais, incluindo o de Narendra Modi.

“Nada disto foi intencional”, explicou Dipke à Associated Press, como quem tenta perceber o que fez antes de se tornar responsável por isso. Depois, deixou de falar apenas do acaso e passou a falar do país que a barata encontrara: “Os jovens estavam frustrados, zangados, sem um canal para falar.” A barata ofereceu-lhes uma máscara e, paradoxalmente, um rosto.

Em Jantar Mantar, a máscara tornou-se física. Houve jovens com guias de exame, cartazes contra Dharmendra Pradhan, bandeiras indianas, cópias da Constituição, rosas, máscaras de barata, claro, vendidas junto às barricadas. A polícia ficou de um lado, os estudantes do outro, e entre ambos apareceu essa zona confusa das democracias cansadas, onde já não se sabe se uma multidão está a começar ou a acabar.

No primeiro protesto, a energia digital prometia uma avalanche. No terreno, vieram centenas ou alguns milhares, dependendo das contagens. O suficiente para obrigar a olhar, não o suficiente para garantir que o movimento sobreviveria à própria expectativa.

Abhijeet Dipke aterrou dos Estados Unidos e foi diretamente para Jantar Mantar. Ao microfone, deu um prazo a Dharmendra Pradhan: ou o ministro da Educação se demitia, ou o protesto continuaria. Pradhan não se demitiu. O prazo passou, veio outro ultimato, e depois a decisão de ficar ali, na rua, até que a pressão deixasse de depender apenas dos ecrãs. “O que começou online tinha de vir para as ruas”, explicou mais tarde ao ThePrint, jornal digital indiano. A educação indiana, acrescentou, estava “num ventilador”, mas ainda podia “ser reanimada” pela pressão pública.

A praça, porém, não é o Instagram.

O Cockroach Janta Party tinha enchido Jantar Mantar pela primeira vez a 6 de junho e voltara a ocupar o lugar, em permanência, a partir de 20. Uma semana depois, a 27, o ThePrint já encontrava outra temperatura: as câmaras tinham diminuído, as filas rareavam, as cadeiras de plástico ficavam mais visíveis do que a multidão. Ativistas ocupavam o espaço durante o dia, estudantes entravam e saíam, voluntários tratavam da água e da sombra, e um pequeno balcão com a palavra “Press” parecia lembrar uma atenção mediática que já tinha sido maior. Mas o Cockroach Janta Party insistia que não estava a desaparecer.

Ashutosh Ranka, porta-voz do Cockroach Janta Party e membro da sua equipa central, rejeitou a ideia de perda de força com uma frase que dizia muito sobre a geração que o movimento tenta representar: “A geração Z não acorda cedo, mas está lá para nos apoiar.”

A educação “no ventilador”

A ironia continua a ser uma das armas do Cockroach Janta Party, ou “Partido Popular das Baratas” — que nem um partido é. Mas a matéria que a alimenta é menos leve.

O NEET, o exame nacional de acesso aos cursos de medicina e a uma parte do ensino superior na área da saúde na Índia, foi feito por cerca de 2,3 milhões de candidatos. A repetição da prova decorreu com medidas de segurança pouco habituais, incluindo transporte especial de exames e bloqueio temporário do Telegram, acusado pelas autoridades de ter sido usado por redes de fraude.

O fundador da aplicação, Pavel Durov, protestou contra a decisão: a Índia, afirmou, estava a “punir” mais de 150 milhões de utilizadores comuns. “A proibição não travou nada”, insistiu. “As fugas simplesmente passaram para outras aplicações.”

Para muitos estudantes, foi mais uma confirmação de que o Estado sabe fechar plataformas, mas não sabe garantir confiança.

Ayush Shimpi, um estudante de 20 anos de Gadchiroli, no estado de Maharashtra, tinha deixado o ensino formal durante dois anos para se preparar para o NEET. Quando saiu da sala de exame, pensou que estava finalmente fora daquela corrida desenfreada. “Estava livre”, contou à Al Jazeera. Nove dias depois, a prova foi anulada. O mundo que tinha imaginado para si voltou ao ponto de partida. Quando descobriu o “Partido Popular das Baratas” no Instagram, não viu apenas uma piada: viu gente a falar daquilo que ele próprio tinha vivido. “Sinto que a minha voz está a ser ouvida”, afirmou. “O ‘partido’ está a levantar os nossos problemas e a manter a democracia viva.”

A frase pode soar grande para um “partido de baratas”, e talvez seja precisamente por isso que funciona. A Índia tem uma juventude imensa e uma economia que cresceu sem conseguir transformar a promessa em segurança para todos. A taxa oficial de desemprego parece baixa quando se olha para a população em geral: 3,1% em 2025. Mas entre os jovens dos 15 aos 29 anos subia para 9,9%, e nas cidades chegava aos 13,6%. Por trás da estatística havia uma geração a estudar mais, a competir mais e a descobrir que nem sempre havia lugar à espera do outro lado.

Entre diplomados, a ansiedade é ainda maior. Há jovens qualificados a disputar poucos lugares, famílias a pagar — e a endividarem-se para pagar — centros privados de preparação para exames, estudantes que passam anos a preparar uma prova que pode ser anulada por uma fuga de perguntas ou por uma falha administrativa.

Agam Singh Gill, estudante de Direito em Pune, cidade universitária no estado de Maharashtra, não foi afetado diretamente pelo escândalo do NEET, o exame de acesso a Medicina. Mesmo assim, juntou-se ao protesto. A razão era mais ampla do que uma prova. “Não se pode dizer que somos vishwaguru [líderes do mundo], e ao mesmo tempo ter este desalinhamento nos exames”, observou à Al Jazeera, usando uma expressão frequente entre apoiantes de Modi. “Fui ao protesto porque me importo com o meu país e com as pessoas da minha idade. Estão a arruinar o futuro desta geração e, por consequência, o futuro da Índia.”

É aqui que o Cockroach Janta Party deixa de ser apenas uma curiosidade digital.

O movimento encosta vários desconfortos uns aos outros: os exames, o desemprego, os custos da preparação em centros de explicações, a suspeita de corrupção, a comunicação social alinhada com o poder, a polarização religiosa, o medo, claro, de protestar. Em algumas manifestações ouviram-se slogans contra a política “Hindu-Muslim” do Bharatiya Janata Party, expressão usada pelos críticos para acusar o partido de reduzir a disputa pública à divisão entre hindus e muçulmanos, e contra aquilo que na Índia se chama “godi media” [imprensa de colo], nome dado aos meios vistos como demasiado próximos do Governo Modi.

Abhijeet Dipke prefere contorná-los e falar diretamente nas redes. “A mudança não acontece se não fizermos ouvir a nossa voz”, escreveu, depois da primeira manifestação em Jantar Mantar. Saurav Das, jornalista de investigação e porta-voz do Cockroach Janta Party, formulou o princípio de forma simples: “A nova geração vive na internet. Não temos tido problemas em fazer passar a nossa mensagem.”

Mas viver na internet não resolve o problema clássico de todos os movimentos. Como se transforma alcance em organização? Como se transforma raiva em permanência? Como se transforma uma piada partilhada por milhões numa estrutura capaz de negociar, pressionar e sobreviver à fadiga?

Saurav Das reconhece que o Cockroach Janta Party ainda não é uma organização registada nem um sindicato.

Precisa de tempo, de redes locais, de disciplina. “Para termos esse tipo de estrutura, vai demorar”, admitiu. Até lá, o movimento tenta juntar estudantes, grupos civis, pais, agricultores e figuras públicas como Sonam Wangchuk, o ativista de Ladakh que levou a greve de fome para Jantar Mantar.

O medo de falar

Do lado do poder, a resposta tem os seus próprios nomes de guerra.

Nitin Nabin, dirigente do Bharatiya Janata Party, classificou estas formações como “partidos vírus” capazes de corroer o país por dentro, e acusou-as de pertencerem a uma “gangue anti-Índia”. A acusação é familiar numa Índia onde estudantes, jornalistas, ativistas e opositores são muitas vezes empurrados para fora do campo patriótico quando incomodam. Abhijeet Dipke respondeu com sarcasmo a uma acusação antiga na política indiana: a de tratar opositores, estudantes ou ativistas como se fossem inimigos do país. Depois de dirigentes do Bharatiya Janata Party sugerirem que a Cockroach Janta Party tinha seguidores do Paquistão ou fazia parte de uma conspiração estrangeira, o fundador do movimento contrapôs com números — “mais de 94% da nossa audiência é da Índia” — e deixou uma pergunta: “Se todos os que questionam o poder são chamados de ‘paquistaneses’, quem pode ser indiano?”

A dúvida sobre o alcance do Cockroach Janta Party atravessa até quem olha para o movimento com simpatia. Ashutosh, jornalista sénior e antigo dirigente da Aam Aadmi Party, o “Partido do Homem Comum” nascido do movimento anticorrupção de 2012, é conhecido na Índia apenas pelo primeiro nome: Ashutosh. À Al Jazeera, avaliou que a autorização para os protestos continuarem talvez mostre que o Governo de Modi ainda não vê o “partido das baratas” como uma ameaça. “Não tenho a certeza de que consiga abanar o Governo”, afirmou.

Para ganhar credibilidade, advertiu, o movimento precisa de figuras fortes da sociedade civil. Ajaz Ashraf, colunista e analista político indiano, prefere medir o Cockroach Janta Party noutra escala. Um protesto destes, defendeu, existe para “mudar o sentido moral da sociedade”, para “lembrar a moralidade que esquecemos”. Ou seja, a sua força pode não estar no número de pessoas em cada praça, mas no modo como torna visível uma angústia que já existia.

Saba Naqvi, jornalista e escritora, leu o fenómeno como algo raro numa geração muitas vezes acusada de apatia política. Chamou-lhe “um movimento único” e resumiu a conquista em termos simples: “As pessoas que, em geral, detestam discutir política têm curiosidade sobre o ‘partido das baratas’ e querem falar dele.” Para Naqvi, isso já não é pouco. “É uma conquista importante”, acrescentou. “Ajudou muitas pessoas a ultrapassar o medo de falar.”

O medo aparece nas pequenas histórias.

Aarav Dwivedi, 17 anos, prepara-se também para o exame de medicina. Os pais aconselharam-no a não ir a um protesto contra as fugas de perguntas em Lucknow, capital do estado de Uttar Pradesh, no norte da Índia. Ele próprio pensou que a polícia podia intervir. E foi na mesma. “Durante quanto tempo vai continuar esta corrupção?”, perguntou à Al Jazeera. A preparação para um futuro marcado por irregularidades, confessou, é desmoralizante. “Parece que não vale a pena estudar. A esperança fica destruída.”

Talvez seja por isso que o “partido da barata” pegou. Não por ser bonita, a barata. Mas por ser baixa. Vive nas fendas, nos cantos, nos lugares que ninguém quer ver. Sobrevive quando se apagam as luzes e quando se acendem. O Cockroach Janta Party apropriou-se do insulto e devolveu-o como identidade: identidade política.

Se o sistema os via como praga, então responderiam como praga. Aparecendo em todo o lado, nos telemóveis, nas praças, nas conversas, nos cartazes, nas greves de fome, no desconforto de um ministro que agora surge associado a uma possível remodelação governamental.

Até esta quarta-feira, Dharmendra Pradhan não tinha apresentado a demissão exigida pelos manifestantes. A Reuters noticiou que o Governo ponderava mudanças significativas no executivo e que a pasta da Educação podia ser uma das tocadas.

Abhijeet Dipke preferiu esperar. Se houver remodelação, a Cockroach Janta Party decide o passo seguinte. Se não houver, a praça continua.

Em Jantar Mantar, essa espera tem menos espetáculo do que no primeiro dia. Há calor, colchões, água distribuída por voluntários, telemóveis apontados para diretos, discursos que voltam aos mesmos nomes, estudantes que chegam depois das aulas ou do trabalho, apoiantes que ficam pouco tempo porque a vida também exige presença noutros lugares.

Há também Sonam Wangchuk, agora como uma espécie de relógio biológico do protesto. Cada dia de jejum transforma uma reivindicação em contagem física.

A pergunta inicial de Dipke ainda paira sobre tudo. “E se todas as baratas se juntassem?” A resposta, por enquanto, não é uma revolução nem uma derrota. É uma experiência. Uma geração pegou no nome que lhe atiraram e usou-o para falar de exames, desemprego, medo, dignidade e futuro. O Governo pode esperar que se cansem. Pode tentar ridicularizá-los. Pode absorver parte da pressão numa remodelação e seguir em frente. Mas já não consegue devolver a “barata” ao canto escuro de onde ela saiu.

Durante algumas semanas, em Nova Deli, a Índia viu uma piada ganhar corpo. E ouviu o ruído que fazem aqueles que foram tratados como insetos quando decidem atravessar a sala. Até quando, ninguém sabe.

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