Neste país as entregas podem chegar a casa em menos de dez minutos. E há muitos estafetas fartos disso

CNN , Esha Mitra, Rhea Mogul e Ayushi Shah
18 jan, 16:00
Estafetas da aplicação Swiggy, que entrega comida, em Calcutá, Índia, a 14 de julho de 2024 (Sudipta Das/NurPhoto/Shutterstock)

Dezenas de milhares de estafetas de aplicações na Índia acabaram 2025 em greve, protestando contra um sistema que, segundo eles, é marcado por uma implacável pressão. Uma das exigências passa por entregar os artigos em menos de 10 minutos.

Estes trabalhadores reivindicam “salário justo, dignidade e segurança”, assim como a proibição imediata de uma estratégia de marketing que os obriga a entregar compras em qualquer morada, num raio de aproximadamente três quilómetros, num intervalo de 10 minutos. Não é uma tarefa nada fácil nas cidades indianas, claramente congestionadas.

Além disso, protestam contra os sistemas automáticos que são utilizados pelas plataformas para penalizar os estafetas e para reduzir as suas avaliações quando existem atrasados. Exigem ainda uma segurança social que seja abrangente, incluindo seguro de saúde e reforma. Segundo a federação sindical indiana que representa os trabalhadores de transporte por aplicação, que organização a paralisação, houve mais de 200 mil a aderir.

Embora o comércio rápido seja um fenómeno global, na Índia - um país com 1,4 mil milhões de habitantes, onde todos os meses cerca de um milhão de pessoas se junta ao mercado de trabalho – esta área tornou-se um autêntico campo de batalha.

Apoiada por uma classe média em expansão e com dinheiro para gastar, a velocidade tornou-se uma arma essencial na hora de as empresas lutarem por quota de mercado.

E o mercado é mesmo enorme: a Swiggy tem uma capitalização em bolsa de cerca de 9,4 mil milhões de euros; a rival Zomato de cerca de 24 mil.

Há empresas - como a Instamart da Swiggy, a Blinkit ou a Zepto – a prometer entregas em 10 minutos, transformando-o este intervalo num dos pilares do seu marketing. É uma estratégia que, segundo os trabalhadores, se constrói à custa da sua segurança e do seu bem-estar.

Além disso, muitas plataformas não consideram que os estafetas são seus empregados, escusando-se legalmente da responsabilidade de cobrir os direitos que os trabalhadores exigem.

Estafetas descansam em Nova Deli durante a greve nacional (Hindustan Times/ShutterstocK)

Um estafeta da Swiggy, com 41 anos, a trabalhar na cidade de Hyderabad, conta à CNN que recebe um valor base de 5 rupias (menos de cinco cêntimos) por cada encomenda. Há potencial para ganhar mais, dependendo do número de encomendas e da distância percorrida. Trabalha todos os dias das 19:00 às 5:00, explica.

“Temos de pagar o nosso próprio combustível e a manutenção da moto”, diz. Pede anonimato por medo de represálias.

“Por dia, pelo menos 50 rupias (cerca de 53 cêntimos) são para comprar comida. Não imaginava estar a fazer isto aos 40 anos, mas não tenho outra escolha”, lamenta.

Este homem tornou-se estafeta depois de a sua livraria ter fechado durante a pandemia de covid-19. Ganha cerca de 20 mil rupias por mês, o que equivale a cerca de 190 euros. Mais de metade deste dinheiro serve para a renda e para as mensalidades da escola dos cinco filhos. A família vive com um orçamento apertado, de salário em salário.

A CNN contactou a Swiggy, a Zomato, a Blinkit, a Zepto, bem como o Ministério do Trabalho da Índia, para obter mais explicações.

Numa publicação no X, Deepender Goyal, cofundador do Zomato, refere que tanto a Zomato como a Blinkit fizeram entregas “a um ritmo recorde” no dia de greve, “sem serem afetadas” pela paralisação.

“O apoio das autoridades policiais locais ajudou a manter um pequeno número de infratores sob controlo”, escreve. “Se um sistema fosse injusto na sua essência, não atrairia nem reteria, de forma consistente, tantas pessoas que optam por nele trabalhar”, junta.

Em resposta, no X, o sindicato que representa estes trabalhadores em Telangana argumenta que houve 7,5 milhões de pedidos entregues “porque os trabalhadores não se podem dar ao luxo de se desligarem, não porque o sistema os trate com justiça”.

Passar semáforos vermelhos

A greve na véspera do Ano Novo deixou evidente o profundo fosso entre a conveniência que é oferecida aos clientes e o sustento de quem a permite.

Por um lado, num país com uma enorme população em idade ativa, plataformas como a Swiggy e a Zomato acabam por oferecer empregos a milhões de pessoas. Têm sido elogiadas pela sua eficiência. A força de trabalho temporário na Índia deverá atingir os 23,5 milhões até 2030, segundo um relatório de 2023 da agência de investigação governamental Niti Aayog.

Passageiros numa zona de ligação de plataformas numa estação ferroviária em Mumbai, na Índia, a 11 de julho (Divyakant Solanki/EPA/Shutterstock)

Os críticos, contudo, argumentam que este modelo cria uma nova forma de exploração.

“Quando começou, a ideia de serem o seu próprio patrão e de ganharem o seu próprio dinheiro era algo que atraía as pessoas”, afirma Ria Kasliwal, consultora independente de políticas públicas, cuja investigação se foca na economia de trabalho temporário no Sul da Ásia.

“Mas, essencialmente, o que acabou a fazer, em grande parte, foi formalizar a informalidade dos trabalhadores”, resume.

Por outras palavras, o sistema aproveita a instabilidade do trabalho informal – sem segurança no emprego, sem salário fixo, sem benefícios – e incorpora-a numa estrutura corporativa controlada.

Mohammad Numan, de 30 anos, estafeta da Swiggy em Bombaim, a capital financeira da Índia, sente que a precariedade é muito grande, ao ponto que não se poder dar ao luxo de perder um dia de salário para participar na greve.

“É um trabalho difícil, mas não há outra opção. Tenho de fazê-lo para ganhar dinheiro”, diz.

Descreve uma rotina exaustiva, trabalhando muitas vezes 16 horas por dia para completar os 35 a 40 pedidos necessários para atingir os objetivos da Swiggy. Depois de pagar o combustível e outras despesas, diz, sobram-lhe cerca de 700 rupias (menos de sete euros) por dia.

Há ainda a pressão para que as entregas sejam rápidas. “Para uma distância de um quilómetro, espera-se que entreguemos em três a quatro minutos. Para quatro quilómetros, em cerca de 10 minutos”, mostra Numan.

Movimentos pendulares em Varanasi, na Índia, a 10 de dezembro (Niharika Kulkarni/AFP/Getty Images)

“Para cumprir estes tempos, temos de conduzir depressa. Se não o fizermos, não conseguimos atingir os objetivos. Quando recebo uma encomenda, a única coisa que penso é em entregá-la depressa, para poder aceitar mais encomendas”.

Outro estafeta, também a trabalhar em Bombaim, diz que, na maioria das vezes, precisa de “passar semáforos vermelhos” para conseguir fazer as entregas a tempo.

“Somos penalizados se não o fizermos. E, se formos apanhados, temos de pagar a multa do nosso bolso. Somos penalizados de qualquer maneira”, diz o estafeta da Zepto, que não se identifica por medo de represálias.

Goyal, cofundador da Zomato, já veio defender a promessa de entregas em 10 minutos na rede social X, argumentado que tal é “possibilitado pela densidade de lojas” existentes junto às casas dos clientes.

“Depois de fazer o pedido na Blinkit, este é separado e embalado em 2,5 minutos. Depois, o estafeta conduz, em média, menos de dois quilómetros em cerca de oito minutos. Dá uma média de 15 quilómetros por hora”, argumenta.

“Trabalhar com medo”

O governo central da Índia introduziu, em 2020, uma reforma laboral que prometia a cobertura pela segurança social de todos os trabalhadores integrados nesta economia assente em trabalhos temporários. Contudo, a implementação desta e de outras proteções tem sido lenta em todo o país.

O Rajastão tornou-se, em 2023, o primeiro estado a aprovar uma lei que regula a economia assente em trabalhos temporários, criando uma comissão para estabelecer um fundo de segurança social e tratar de queixas relacionadas com estas matérias.

Karnataka – que acolhe aquele que é o polo tecnológico do país, Bengaluru – e o estado de Jharkhand também já aprovaram a sua própria legislação no ano passado, com Telangana a explorar medidas semelhantes.

A economia assente em trabalho temporário também tem sido destacada pela sua capacidade de atrair mais mulheres para a força de trabalho. Perante a pressão pública, algumas plataformas introduziram benefícios como um seguro contra acidentes ou um seguro de saúde básico.

Um estafeta da Zomato atravessa uma rua inundada em Bombaim, no dia 19 de agosto (Ashish Vaishnav/SOPA Images/Shutterstock)

Todavia, muitos destes trabalhadores independentes reclamam pelo facto de estes benefícios serem, grande parte das vezes, difíceis de aceder. Vários protestos nos últimos anos vieram realçar a necessidade de maior transparência e de maior abrangência na aplicação destes benefícios.

Manoj Kharade, que trabalha para uma aplicação que fornece serviços de salão de beleza em casa, explica que aderiu à greve para exigir salários fixos e segurança social.

Se não atingir os objetivos da empresa, a sua conta na plataforma é bloqueada – algo que afeta a sua capacidade de ganhar dinheiro, vinca. Kharade reforça que chega a trabalhar 15 horas por dia, ganhando cerca de 25 mil rupias por mês (menos de 240 euros).

“Estamos a trabalhar com medo. Se não atingir o objetivo, isso afeta a minha família. Se não tiver rendimentos, estamos arruinados”.

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