Os seus maridos foram mortos por tigres. Estas mulheres estão agora a recuperar o habitat dos grandes felinos

CNN , Nell Lewis
28 dez 2025, 11:00

O local, considerado Património Mundial pela UNESCO, é um labirinto de canais, lodaçais e ilhas. Serve de lar a uma impressionante variedade de espécies ameaçadas de extinção, incluindo golfinhos de rio, a pitão indiana ou o tigre-de-bengala

O marido de Malati Mondal foi morto por um tigre. Foi atacado há cerca de uma década, quando saía para pescar numa pequena jangada pelos mangues. Por morarem em Sundarbans - a maior floresta de mangues do planeta, que se estende por Bengala Ocidental, na Índia, e pelo sul do Bangladesh -, esse é um risco que as comunidades enfrentam cada vez mais.

O local, considerado Património Mundial pela UNESCO, é um labirinto de canais, lodaçais e ilhas. Serve de lar a uma impressionante variedade de espécies ameaçadas de extinção, incluindo golfinhos de rio, a pitão indiana ou o tigre-de-bengala.

Ao contrário do que acontece com a maioria dos grandes felinos, estes tigres têm um estilo de vida anfíbio, nadando longas distâncias para caçar peixes e caranguejos. Estima-se que existam 125 exemplares na região de Sundarban, no Bangladesh, e cerca de 88 no lado indiano. Contudo, segundo os responsáveis pela sua conservação, a redução do habitat dos tigres, devido à desflorestação e ao crescimento da população humana, levou a um aumento dos conflitos entre os tigres e os humanos.

Há uma maior competição pelos recursos alimentares, afirma Saurav Malhotra, que lidera um projeto da organização sem fins lucrativos Conservation International. Os homens, que se aventuram nas profundezas da floresta para caçar peixes, são atacados de uma forma desproporcional.

Um tigre-de-bengala, a usar uma coleira com rádio, fotografado na margem de um rio em Sundarbans, após por ter sido libertado por funcionários ligados à área da vida selvagem. Tinha sido capturado muito perto de habitações de humanos (Deshakalyan Chowdhury/AFP/Getty Images)

Os registos oficiais destas mortes são escassos: uma estimativa sugere que 300 pessoas e 46 tigres foram mortos em conflitos entre as duas espécies desde 2000. Contudo, há uma evidência duradoura destas mortes no número de “viúvas de tigres” que ficaram para trás para contar a história.

Tradicionalmente, estas mulheres, tal como Mondal, são tratadas como párias e culpadas pelas mortes dos seus maridos. São chamadas de «swami khejos», algo que se pode traduzir do bengali como “devoradoras de maridos”. E estão impedidas de exercer as profissões tradicionais, como a agricultura ou a pesca. O estigma não só deixa estas mulheres sem meios de subsistência, como também sem ajudas governamentais. Muitas das mortes por ataques de tigres acontecem após entradas ilegais na floresta, pelo que não estão qualificadas para receber qualquer compensação financeira. Ficam, assim, com poucos recursos para cuidarem de si próprias e dos seus filhos.

Uma nova iniciativa na área da conservação, voltada para as viúvas dos tigres, espera ajudar estas famílias a restabelecerem o seu lugar nas respetivas comunidades, proporcionando-lhes uma fonte de rendimento e, ao mesmo tempo, restaurando o ambiente do qual elas – e os tigres – dependem.

Primeira linha de defesa

Focado na região de Jharkhali, em Sundarbans, ao longo do rio Matla, o jovem de 26 anos Shahif Ali, da i-Behind The Ink (IBTI), empresa da área social que gere um programa de reintegração de jovens, está a liderar o esforço no terreno. Reuniu “viúvas de tigres”, juntamente com outras mulheres locais, para recuperar 100 hectares de florestas de mangues. Numa semana, plantaram mais de 100 mil árvores novas ao longo de 40 hectares de costa entre as vilas de Laskarpur e de Vivekananda Palli.

Atualmente, estas vilas estão vulneráveis face ao aumento do nível do mar e da frequência das tempestades. Estão protegidas por um único dique, explica Ali. “Se o dique entrar em rutura, toda a aldeia pode ser destruída: casas, agricultura, terras, tudo”.

Durante seis meses, as mulheres plantaram árvores novas, características das florestas de mangues, ajudando assim a restaurar a densa floresta que foi desmatada para dar lugares a quintas e à pesca. Fornecem uma defesa adicional contra os violentos ciclones que se estão a tornar mais intensos e frequentes à custa das alterações climáticas.

A floresta irá servir também de barreira contra a subida da salinidade da água, provocado pelas inundações, que ameaçam a saúde dos mangues, destroem o solo e as culturas, e perturbam as populações de peixes.

A ideia é de que, com o tempo, as populações de peixes possam ser recuperadas, fornecendo mais alimento, tanto aos humanos como aos tigres – o que resultará em menos conflitos entre humanos e tigres.

Em Sundarbans, os pescadores que se aventuram pelo interior dos mangues correm o risco de serem atacados por tigres (Conservation International)

Mondal é uma das sete viúvas de tigres que está, atualmente, envolvida no projeto. Ao todo são 59 mulheres. Outras vinte viúvas vão juntar-se à iniciativa ainda em dezembro. Ali conta ter recebido manifestações de interesse de pelo menos mais 75. O grande desafio está no facto de as mulheres estarem espalhadas pela região, sendo que são limitadas as opções seguras de transporte. Além disso, é necessário tempo para conquistar a confiança delas, junta.

As mulheres recebem 300 rupias (cerca de três euros) pelo dia de trabalho. Pode não parecer muito, mas “faz mesmo a diferença”, garante Ali. “É a diferença entre ignorar uma doença e procurar tratamento, entre saltar refeições e alimentar os filhos de uma forma adequeada”.

Em Sundarbans, tanto do lado do Bangladesh como do lado da Índia, têm sido levados a cabo esforços semelhantes, de modo a restaurar os mangues com programas de subsistência. Há outros programas dirigidos às “viúvas de tigres”, como a iniciativa comunitária Jharkhali Sabuj Bahini.

Restaurar florestas e vidas

A recuperação dos mangues faz parte de uma iniciativa mais ampla da Conservation International, chamada “Das Montanhas aos Mangues”, que vai dos Himalaias a Sundarbans. O objetivo é proteger e recuperar um milhão de hectares de floresta nesta área. Segundo Malhotra, a região tem uma das maiores densidades populacionais entre os pontos de biodiversidade mais importantes do planeta, enfrentando desafios enormes decorrentes das alterações climáticas e da desflorestação.

Os 100 hectares de mangues em Sundarbans representam uma pequena fatia da meta global. Contudo, Malhotra espera que o projeto venha a ser alargado, servindo de modelo para o restauro de uma área mais extensa.

“O derradeiro objetivo é restaurar os ecossistemas de mangues, porque esta é a forma mais completa de criar uma resposta resiliente contra todos os desafios das alterações climáticas”, afirma. Poder fazê-lo e, ao mesmo tempo, proporcionar oportunidades de rendimento às mulheres cujas vidas foram afetadas pelos ataques de tigres, é uma grande vantagem.

Mulheres locais a recolher mangues (IBTI)

“As mulheres estão a trabalhar por uma causa que afetou as suas próprias vidas”, diz. “Trata-se de restaurar a dignidade e de construir uma atitude de resiliência para estas mulheres e para a comunidade em geral”.

É precisamente essa a visão de Ali. “Quero expandir o projeto para a maioria das áreas remotas e vulneráveis ​​de Sundarbans. Estou pronto para viajar, para caminhar por lugares isolados. À medida que o projeto cresce, podemos chegar a mais pessoas", afirma.

“Conheci muitas ‘viúvas de tigres’”, junta. “O meu objetivo é construir um espaço seguro para as mulheres que trabalham connosco. Quando se sentirem seguras e respeitadas, outras mulheres irão sentir-se inspiradas a juntarem-se a nós também”.

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