Consideram-se vítimas de “proibição cega” durante os incêndios: produtores de fogo de artifício estão em “drama absoluto”

22 ago 2025, 20:31
Comissão de Festas de Marinhais

Há mais de 90% dos negócios cancelados num mês que representava um pico de trabalho para o setor. Os empresários lamentam o que dizem ser a associação “errada” entre fogo de artifício e incêndios alimentada pelo Governo - e querem fazer parte das 45 medidas de Montenegro

Os produtores de fogo de artifício em Portugal sentem-se “completamente abandonados” pelo Governo e dizem que ainda não lhes foi apresentado qualquer apoio para compensar o impacto no setor da proibição prevista na declaração de estado de alerta.

Em agosto, mês que era determinante para o negócio devido às festas e romarias em Portugal, as quebras devem ultrapassar os 90%. A perspetiva é de que, com o material que não foi vendido e que se encontra acumulado em armazém, seja necessário dispensar trabalhadores nos próximos meses.

À CNN Portugal, Elisabete Magalhães, secretária da Associação Nacional de Empresas de Produtos Explosivos (ANEPE), estima perdas entre os três milhões e os quatro milhões de euros. “Fomos praticamente impedidos de trabalhar.”

Mesmo depois de ter sido levantada a situação de alerta, mantêm-se os cancelamentos para as festas que ainda vão acontecer, uma vez que as comissões de festas querem “evitar problemas” com qualquer associação de incêndios a fogo de artificio. Em Marinhais, por exemplo, lançou-se fogo de artificio antes da entrada em vigor da situação de alerta e esse lançamento gerou um coro de críticas e ataques nas redes sociais.

A associação que representa o setor da pirotecnia assegura que está a “tentar todos os meios” para conseguir chegar ao Governo, nomeadamente ao Ministério da Administração Interna, entidade a que respondem. E lamenta não ter sido integrada nos apoios que foram anunciados esta quinta-feira por Luís Montenegro para lidar com os impactos dos incêndios (foram anunciadas 45 medidas). Elisabete Magalhães insiste que são necessários “apoios diretos” para compensar as perdas de negócio e por terem sido mantidos trabalhos durante este período de proibição.

Receios são a longo prazo (Unsplash)

“Drama absoluto” a antever uma “morte absoluta”

Paulo Ribeiro, sócio da Pirotecnia Oleirense, em Castelo Branco, fala num “cenário de drama absoluto”. Nesta empresa, “estes 20 dias em agosto representavam 500 mil euros”.

Como os incêndios se repetem todos os verões, impactando o negócio, esta empresa diz ter apostado na exportação como uma “solução alternativa”.

“Não tenho dúvida de que será uma morte absoluta para este setor. As empresas que não se reestruturarem não vão ter a mínima hipótese”, antecipa o empresário. “É como se o setor não existisse, fomos completamente abandonados.”

À CNN Portugal, Paulo Ribeiro lamenta que o Governo tenha alimentado uma associação “errada” entre a arte pirotécnica e os incêndios florestais, impedindo o trabalho mesmo em áreas onde não existia esse risco de incêndio. E dá um exemplo: dois trabalhos, em pleno rio Tejo, que não foram autorizados.

A garantia é que de que os fogos de artifício produzidos em Portugal respeitam os mais elevados padrões de segurança. E, de novo, um exemplo: “são usados em parques da Disney em todo o mundo”.

Novo pico de procura agora só no final do ano

Material a acumular no armazém

David Costa, sócio da Pirotecnia Minhota, em Ponte de Lima, também fala numa “situação complicada” à custa da proibição do Governo.

“Cerca de 30% do volume de vendas da empresa tem que ver com o mês de agosto, é um valor bastante significativo”, explica.

Em agosto, a empresa, que dá trabalho a cerca de 30 pessoas, continuou a produzir. Agora, como o material se está a acumular no armazém, não há necessidade de fabricar mais para o próximo período de grande procura, que é a passagem de ano. David Costa admite ter de recorrer ao layoff e não contratar trabalhadores temporários, como é hábito, para fazer face ao pico na procura.

“É uma proibição cega, para o Governo mostrar que adotou algumas medidas”, critica, dando o exemplo de festas em zonas urbanas, sem qualquer risco de incêndio associado, que não puderam lançar fogo de artifício.

Como as alterações climáticas permitem antever que os incêndios serão um fenómeno cada vez mais recorrente a cada verão, o receio do setor é de que, daqui a um ano, se esteja a passar pelo mesmo tipo de proibições, que acabarão por tornar o negócio inviável.

“Se for uma situação para continuar em anos vindouros, o setor não consegue viver com o mesmo número de funcionários”, garante David Costa.

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