Do alto dos seus 82 anos, o meu pai decidiu aproveitar o fresquinho da manhã, pegar na motosserra e arrancar para o pinhal. Um pinheiro – provavelmente já centenário – vergara ao peso da idade e das intempéries há já algum tempo e aquilo estava a tirar-lhe o sono. Era preciso dar-lhe o golpe de misericórdia, o quanto antes, cortar aquela madeira e retirá-la do pinhal para não ficar ali a apodrecer.
Naquele dia de julho, como em tantos outros nos últimos anos, enquanto subia ao monte, uma angústia perseguia o meu pai como uma sombra: “Quando eu não estiver cá, quem vai cuidar disto?”
Dei por mim a pensar no meu pai e nas suas angústias enquanto ouvia esta semana o debate no Parlamento sobre mais um verão trágico em Portugal.
Num jogo de soma nula, cada ator político desfiou as suas críticas ao Governo e apontou as suas “soluções”. É tudo tão simples: tivessem seguido os nossos (deles) conselhos e, seguramente, o país não teria ardido como ardeu. O Governo, por seu lado, fez o que mandam os manuais da comunicação política: mostrar uma folha de serviço preenchida, para demonstrar que melhor era impossível. Não fossem as malditas alterações climáticas, a orografia e a geografia do país, e o diabo em forma de chamas não teria estragado as férias do primeiro-ministro.
A ladainha repete-se todos os anos, como se de uma tradição se tratasse. Compramos ou alugamos meios aéreos? Se compramos, não temos pilotos nem quem arranje os canadair e os helicópteros. Se alugamos, pagamos uma fortuna por eles e, mesmo assim, nunca chegam. E bombeiros? Temos suficientes? Não temos e pagamos mal. O SIRESP voltou a falhar? Que grande surpresa, nunca tinha acontecido. É preciso obrigar os proprietários a limpar os terrenos e, se não limparem, aplicamos multas. Chegamos a junho e os terrenos continuam cheios de mato. Prolongamos o prazo. Mas quem limpa? Desculpem, a pergunta tem de ser outra: de quem são estes terrenos? Não sabemos. Faça-se o cadastro. É desta. Para o ano é que vai ser. Mais um ano e o cadastro ainda não está pronto. Tem de ser o Estado a limpar os terrenos. Mas com que mão de obra? Metam os presos a limpar, gritam alguns. Ai sim? Então talvez o Estado devesse começar pelos seus próprios terrenos, que também estão cheios de matéria combustível.
A primeira vez que fiz a cobertura jornalística de incêndios foi em 2005. Há 20 anos. Na altura, saí de Lisboa para um incêndio na zona de Ourém e regressei a casa uma semana mais tarde, depois de ter passado por grande parte dos concelhos, vilas e aldeias que já arderam e renasceram das cinzas incontáveis vezes nas últimas duas décadas. Em 2005, como agora, faltava quase tudo. Limpeza, meios aéreos e humanos, coordenação, cadastro. Mas faltava sobretudo gente em grande parte do território.
Ouço agora alguns dizerem que nem tudo andou mal nos últimos anos. Que, de 2017 para cá, depois de mais de uma centena de pessoas terem sido condenadas à morte pela ineficácia do Estado, se avançou em algumas áreas. Que nunca, como agora, houve tanto dinheiro dedicado à prevenção dos incêndios. Pois eu tenho uma sugestão: digam-no cara a cara às pessoas que viram a casa reduzida a cinzas. Expliquem a quem perdeu os campos agrícolas, os animais ou a quem sentiu a sua vida ameaçada pelas chamas que, depois de 2017, muita coisa melhorou na prevenção e no combate aos incêndios.
Expliquem a quem vive no interior do país, onde já não há médicos, escolas ou um posto dos correios para levantar a reforma, que em Portugal estamos muito mais bem preparados para enfrentar o inferno das chamas. E a seguir, não se esqueçam, mandem lá a GNR para lhes passar as multas por não terem limpado os terrenos.
Experimentem explicar aos filhos desses que vivem no interior do país, que trabalham em Lisboa e no Porto, que têm de abandonar os empregos que encontraram nas grandes metrópoles, porque não os tinham na cidade onde nasceram, que uma vez por ano, ou duas, ou três, têm de regressar à terra com uma roçadora na mão para ir limpar o mato, retirar a lenha das terras e deixá-las num brinco.
Não há soluções simples para problemas complexos. Muito menos para um problema que se vem agravando há décadas. Portugal é cada vez mais um país inclinado para o litoral, com a cumplicidade de quem o vai governando. Se é no litoral que estão os votos, não é seguramente porque o interior arde uma vez por ano que ele passa a ser uma prioridade. Nunca foi e continua a não ser. Podem, por isso, despejar o dinheiro que quiserem na prevenção e no combate aos incêndios, que nunca vai chegar. Podem fazer as comissões técnicas e de inquérito que quiserem, que já não enganam ninguém.
A operação para retirar o pinheiro que tanta ansiedade provocava ao meu pai tinha uma grande probabilidade de correr mal, sobretudo porque estava a ser feita sem ajuda. E correu mesmo mal. Mas quem podia ter lá estado para o ajudar? O filho. Mas esse está a 140 quilómetros a escrever este texto.
