Este guia reúne orientações vitais da Proteção Civil e da Direção-Geral da Saúde e os conselhos de um comandante dos bombeiros que já viu o pior acontecer
Portugal vive dias de fogo intenso com dezenas de ocorrências ativas e milhares de operacionais no terreno a tentar conter as chamas. Para quem vive próximo das zonas afetadas ou começa a sentir o cheiro a fumo, o calor a aumentar ou vê o céu a escurecer, saber como agir pode fazer toda a diferença.
O incêndio está a aproximar-se. E agora?
“É fundamental manter a calma e falar com as autoridades. Ligar ao Corpo de Bombeiros local e dizer: ‘Estou a ver uma coluna de fumo, devo ficar ou sair?’”, recomenda à CNN Portugal o comandante Jorge Mendes.
Segundo o programa Aldeias Seguras Pessoas Seguras da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), o próximo passo é avisar imediatamente os vizinhos, uma ação que pode salvar vidas. Evite a exposição ao fumo: tape a boca e o nariz com um pano húmido ou uma máscara, desde que esta tenha um filtro de ar incorporado. Depois, regue as paredes da casa, o telhado e uma faixa de cerca de dez metros à volta da habitação. Deve fechar todas as portas, janelas e outras aberturas, correr as persianas ou portadas e colocar toalhas molhadas nas frestas, para evitar a entrada de fumo.
O comandante Jorge Mendes reforça esta prioridade ao dizer que “as pessoas devem ficar no interior até as autoridades dizerem para se encontrarem nos pontos de encontro”. Lembra ainda que “a maior parte das pessoas não consegue ter perceção da velocidade do incêndio, de onde é que ele está, como é que o pode atingir e depois é complicado".
A ANEPC aconselha a retirar mobiliário, lonas, lenhas ou quaisquer objetos inflamáveis que estejam junto às janelas ou portas da casa. Caso tenha condições de segurança, deve ainda desligar o gás e retirar as botijas para um local seguro.
Se o incêndio estiver a aproximar-se e houver pequenos focos, pode tentar apagá-los com água, terra ou ramos verdes, desde que não coloque a sua vida em risco. A ANEPC indica que este tipo de ação só deve ser feito se a pessoa estiver equipada com vestuário adequado, como roupa de manga comprida, botas e luvas.
"Vemos algumas pessoas a tentar ajudar os bombeiros com os braços à mostra, com t-shirts feitas muitas vezes de produtos altamente inflamáveis. Não faz sentido e temos de ter muito cuidado com estas situações", explica.
Está em casa e não pode sair?
A ANEPC recomenda que se afaste das paredes exteriores e procure abrigo numa divisão do lado oposto àquele por onde o fogo se está a aproximar. Deve também afastar cortinas, sofás e móveis das janelas.
O comandante Jorge Mendes insiste na importância de manter o sangue-frio. “É evidente que devem sempre acatar as ordens das autoridades. Fiquem no interior até indicação contrária”.
A Direção-Geral da Saúde (DGS) reforça que, numa situação de incêndio, se deve manter dentro de casa com janelas e portas fechadas, em ambiente fresco e, se possível, com o ar condicionado ligado no modo de recirculação.
É fundamental evitar a utilização de aparelhos a gás, lenha, velas, tabaco ou incenso dentro de casa durante um incêndio. A DGS sublinha ainda que a ingestão de leite não é eficaz contra a intoxicação de fumo, tratando-se apenas de um mito.
Foi dada ordem de evacuação? Saia com rapidez e sem hesitações
Se as autoridades derem ordem de evacuação, deve cumprir de imediato. O comandante Jorge Mendes recorda que “as pessoas devem dirigir-se aos pontos de encontro definidos". Dá como exemplo o caso de Ponte da Barca, onde a população se juntou na igreja local até ser seguro voltarem às suas casas. "Isto é extremamente importante", reforça.
A ANEPC aconselha a levar consigo um kit de evacuação que inclua um estojo de primeiros socorros, medicação habitual, água, comida não perecível, produtos de higiene pessoal, uma muda de roupa, rádio, lanterna, apito, dinheiro, documentos de identificação e uma lista de contactos.
Durante a evacuação, deve ajudar as crianças, os idosos e as pessoas com mobilidade reduzida. Leve os seus animais de companhia. Não perca tempo a recolher objetos desnecessários e nunca volte atrás. Feche as portas e janelas à medida que sai da habitação.
Está cercado pelo fogo?
Caso se encontre cercado pelas chamas, a ANEPC recomenda procurar um abrigo coletivo, se estiver acessível. Se não estiver próximo, procure uma zona plana, com pouca vegetação ou próxima de água.
Respire junto ao chão, utilizando um pano molhado para tapar o nariz e a boca ou uma máscara, desde que tenha um filtro de ar. Cubra a cabeça e o resto do corpo com roupa seca e comprida. Evite correr ou respirar o fumo diretamente.
O comandante Jorge Mendes explica que “é fundamental que o local onde nos abriguemos seja fresco, arejado e que esteja limpo à volta, para termos a perceção de que o incêndio não nos chega diretamente”.
E quando tudo acalmar?
A ANEPC alerta que, após a passagem do incêndio, é fundamental verificar a existência de focos ativos junto da casa, nas suas imediações e no telhado. Se detetar sinais de fumo, deve informar de imediato os bombeiros. Evite qualquer atividade no exterior enquanto o ar continuar saturado de partículas tóxicas.
A DGS recomenda manter-se hidratado, fresco e informado. Se tiver doenças respiratórias, como asma ou doença pulmonar obstrutiva crónica, deve manter a medicação habitual e seguir as orientações do seu médico.
O que fazer para prevenir a próxima vez?
Embora neste momento a prioridade seja a sobrevivência, a prevenção não pode ser esquecida. O comandante Jorge Mendes reconhece que “nós geralmente só agimos quando estamos perante a situação. Somos muito reativos e pouco preventivos, e é aí que acontecem algumas desgraças”.
A ANEPC recomenda a criação de uma faixa de proteção de 50 metros à volta das casas, mantendo o terreno limpo e livre de materiais inflamáveis. Não deve haver depósitos de lenha junto às habitações. Os telhados devem ser limpos com frequência e as chaminés devem estar protegidas com redes metálicas.
O comandante reforça ainda a importância de procurar informações fora da época de incêndios. “Na zona de acalmia, que é geralmente durante o inverno, falem com os órgãos locais, nomeadamente com a junta de freguesia, e perguntem: se houver um incêndio no verão, para onde é que nos dirigimos?”, conclui.
Contactos úteis
- Número Europeu de Emergência: 112
- SNS 24: 808 24 24 24
- Contactos locais: Bombeiros ou Proteção Civil Municipal