Um conjunto de três fatores "impossível" de travar criou um "mega-incêndio". Populações na Guarda devem adotar medidas de autoproteção
"Mal se consegue respirar e abrir os olhos": esta aldeia está "completamente rodeada por fumo"
"Aquilo que vemos é a A25 completamente em chamas". Fogo na Guarda chegou "num ápice" à autoestrada
Uma autoestrada está cortada e as perspetivas para as próximas horas não são animadoras. Fogo já chegou a quatro concelhos e continua a avançar
O passar das horas e o evoluir das imagens já confirmavam o pior cenário, mas os dados do terreno lhe deram força. A repórter da CNN Portugal Andreia Marques foi fazendo relatos constantes numa das frentes ativas do incêndio da Guarda, mostrando que o avançar das horas está a tornar este um incêndio cada vez mais complicado. "Mal se consegue respirar e abrir os olhos", referia ao final da tarde.
É o grande foco de preocupação das autoridades neste momento, reunindo já mais de 700 operacionais - no início do dia não chegavam aos 300 - que estão a ser apoiados por mais de 200 viaturas e vários meios aéreos.
Essa é a outra má notícia, porque o cair da noite vai tirar o apoio dos aviões e helicópteros que iam tentando conter o avanço das chamas, que já chegaram a pelo menos quatro concelhos do distrito da Guarda. A situação é particularmente preocupante em Almeida, mas Sabugal e Pinhel também estão a ser afetados, já depois de as chamas também terem atingido a própria capital de distrito.
É por ali, entre a Guarda e o Alto do Leomil, em Almeida, que A25 e EN15 estão ainda cortadas, com as chamas a obrigarem as autoridades a encontrar vias alternativas para protegerem a população.
Como explica o comandante Paulo Santos à CNN Portugal, um conjunto de três fatores que combina a temperatura elevada, a baixa humidade e uma grande velocidade do vento tornam este um incêndio difícil de travar nas próximas horas.
“A possibilidade de sucesso é muito reduzida”, admite, referindo que é necessário reduzir a “cabeça do incêndio”, até porque o terreno tem muito combustível, o que facilita a propagação das chamas.
Paulo Santos entende que o contrafogo é, nesta altura, uma das armas mais capazes para os operacionais conseguirem fazer com que o incêndio perca a potência. Até lá, refere o comandante, as populações devem tomar “medidas de autoproteção”.
É a melhor solução perante aquele que Paulo Santos já define como um “mega-incêndio”, e que rapidamente poderá chegar aos 20 mil hectares consumidos, avançando com velocidade e força sobre muitas localidades.
O fogo em causa deflagrou pelas 13:51 de segunda-feira no Rochoso (Guarda) e continua a lavrar nos limites dos concelhos da Guarda, Almeida e Sabugal.
Segundo fonte do Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil das Beiras e Serra da Estrela, cinco bombeiros sofreram ferimentos ligeiros na noite de segunda-feira enquanto combatiam as chamas.
Autarcas preocupados
O fogo começa agora a preocupar seriamente os autarcas da zona. “O incêndio mantém, às 19:00, três frentes ativas junto às localidades de Castanheira e Rabaça, no concelho da Guarda, de Pínzio, no concelho de Pinhel, e Cabreira, já no concelho de Almeida”, segundo fonte do Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil das Beiras e Serra da Estrela.
Contactada pela Lusa, a presidente da Câmara Municipal de Pinhel, Daniela Capelo, indicou que o combate às chamas tem sido dificultado pela intensidade do vento, que tem mudado constantemente de direção.
“A área do incêndio é muito grande e estamos a tentar contê-lo o mais possível. As condições são severas, a humidade é muito baixa e há muito vento, o que tem feito com que as chamas andem para a frente e para trás”, adiantou a autarca.
Daniela Capelo esclareceu que não houve “nenhuma retirada de pessoas” em Pínzio, nem há casas ou povoações em risco no concelho.
“Mantemo-nos todos vigilantes e as forças estão no terreno. Aguardamos que, com o cair da noite, possa haver uma janela de oportunidade para conter a frente de incêndio que está a lavrar em Pínzio e Safurdão”, especificou.
Mais crítico estava o autarca da Guarda, Sérgio Costa, que disse à agência Lusa não perceber porque é que o fogo continuava “a lavrar de uma forma incontrolável”.
“Há tantos meios no local, houve uma noite inteira. Eu conheço bem o território de que estamos a falar, é íngreme, inóspito, com muito mato e pedra, mas era precisamente durante a noite que tinha se tentar fazer esse trabalho”, considerou.
Sérgio Costa admitiu estar “francamente preocupado” com a situação e que já manifestou “essa preocupação” junto do Governo porque “não há forma de controlar o incêndio”.
“Já está a demorar há tempo demais ali naquela zona. Percebo que é uma zona complicada, mas já passou uma noite e foram mobilizadas centenas de operacionais, não sei quantos meios aéreos, mas o fogo continua a lavrar”, lamentou.
Afirmando que “não há assim tantos fogos no país”, o autarca lembrou que “as ordens que emanam do Governo são que, quando há poucos fogos, é atacar ao máximo os existentes, que é para acabar com eles no mais curto de tempo”.
A situação também está a ser acompanhada “com preocupação” por António José Machado, presidente da Câmara de Almeida.
“O dia de ontem [segunda-feira] até correu bastante bem. Havia previsão de o fogo poder ser praticamente controlado, mas nas primeiras horas de hoje houve várias frentes que acabaram por alargar o perímetro e termos aqui uma situação um pouco grave”, declarou à agência Lusa.
O autarca acrescentou que os meios estão “a tentar controlar as chamas da melhor forma possível, mas não chegam para todo o perímetro, que é muito grande”.
O presidente da Câmara de Almeida esclareceu que, por “razões preventivas”, foram retiradas algumas pessoas “em casos muito específicos”, como o dos utentes da ASTA - Associação Sócio Terapêutica de Almeida, que está sediada na Cabreira.
