TVI e CNN Portugal divulgam relatório da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais
A floresta portuguesa é uma selva: gestão de combustível está 53% abaixo do previsto. O fogo controlado, por exemplo, não chega a metade da meta prevista. E os reacendimentos - frustração por excelência de um dispositivo de combate a incêndios profissional - subiram para 8%, quando não deveriam ultrapassar 1%.
O relatório oficial sobre a atividade do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR) em 2025, que a TVI e a CNN Portugal divulgam em primeira mão, declara que o problema já não é a falta de uma estratégia, mas a dificuldade de a executar no terreno.
O documento, elaborado pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), foi entregue ao Governo e à Assembleia da República a 30 de junho. Faz o balanço de um ano em que arderam 270.695 hectares, mais 76% do que a média de 2018 a 2024. Foi o pior ano desde 2017.
Uma selva portuguesa
Os fogos rurais estão a atingir proporções nunca antes vistas porque a floresta é um barril de pólvora. Cinco anos depois do arranque do Programa Nacional de Ação, o país continua com um atraso de cerca de 670 mil hectares na gestão de combustível. Entre 2020 e 2025 foram intervencionados cerca de 600 mil hectares, quando a trajetória prevista apontava para aproximadamente 1,27 milhões. O défice acumulado é de 53%.
Outra das ferramentas consideradas essenciais para reduzir a carga de combustível continua muito abaixo dos objetivos. A meta anual para o fogo controlado era de 5.000 hectares. Foram executados 2.168 hectares: 43% do previsto. A AGIF atribui o atraso a limitações operacionais e regulamentares e à falta de equipas especializadas.
Menos fogos, mais dantescos
Depois da carnificina de 2017, as ignições diminuíram. E o dispositivo consegue dominar rapidamente a esmagadora maioria dos fogos (93,35%) no ataque inicial, acima da meta de 90%. O tempo médio de despacho dos meios caiu de 72 para 53 segundos. Em 2025, o primeiro meio chegou aos sinistros, em média, em 15 minutos.
O relatório conclui que a redução das ignições “não se traduz em menor impacto”. O desafio passou a estar na limitação da propagação dos grandes incêndios. Quando o incêndio escapa ao ataque inicial, torna-se muitas vezes incontrolável. Em 2025, cada ocorrência queimou, em média, 32,4 hectares, o valor mais elevado da última década - e superior aos 25,7 hectares médios registados em 2017.
A média disparou pela razão simples de que, no ano passado, Portugal sofreu o maior e o terceiro maior incêndios de sempre. No dia 13 de agosto, deflagrou no Piódão, concelho de Arganil, um incêndio que durou dez dias e queimou 645 quilómetros quadrados, uma área superior à soma dos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras, Cascais e Sintra. No final desse mês, em Trancoso, arderam 320 quilómetros quadrados, área semelhante à soma dos concelhos do Porto, Matosinhos, Maia, Valongo e São João da Madeira.
Fogos fintam dispositivo
Há um indicador operacional particularmente negativo. A taxa de reacendimentos atingiu 8%, depois de 5,9% em 2024 e 3,2% em 2023. O objetivo estratégico para 2030 é de apenas 1%. “Em contextos de elevada intensidade, duração dos incêndios e simultaneidade de ocorrências, verifica-se uma pressão significativa sobre os recursos disponíveis, podendo, pontualmente, a capacidade instalada revelar-se insuficiente para assegurar a consolidação eficaz das áreas ardidas”, descreve o relatório, num tom conciliatório para com os operacionais no terreno.
A dimensão do desastre de 2025 não se mede apenas nos hectares queimados. Mais de metade da área atingida, 52%, era constituída por matos e pastagens; 39% era floresta e 9% área agrícola. Arderam 34.221 hectares em áreas protegidas e 45.426 hectares em matas nacionais e perímetros florestais. Os prejuízos económicos foram estimados em mais de 85 milhões de euros.
O Parlamento tem na gaveta a alteração ao regime sucessório, o que constitui “um bloqueio relevante à gestão agregada do território”. Ao Governo falta “persistir politicamente” nas medidas de ordenamento da floresta há muito identificadas. Quanto às câmaras municipais, só 48 aprovaram os seus planos de prevenção, “instrumento que efetivamente materializa o plano nacional no terreno”.
