"Não é um mito que os carvalhais não ardem nos incêndios": este especialista explica-lhe porquê

26 ago 2025, 09:00
Incêndios na floresta amazónica, a 31 de agosto de 2022 (Imagem Getty)

Carvalhais há muitos. Isto é: há muitas espécies. Uma das suas qualidades em incêndios é o que vem depois dos fogos: “O carvalho pode rebentar de novo depois do incêndio, regenerando a vegetação”. A explicação é do professor catedrático Rui Cortes, do Departamento de Engenharia Florestal da UTAD. Que também nos explica isto: há hoje uma quase monocultura, em alguns locais de Portugal, de eucaliptos porque nos falta população (“agricultores, pastores, apicultores, gente que cuide da terra”) no interior e porque nos falta incentivo à mudança. “As populações plantaram eucaliptais porque era a única atividade minimamente lucrativa”

No último episódio de Contrapoder, e falando-se de incêndios, as opiniões de Maria Castello Branco e Sérgio Sousa Pinto dissonaram. E o debate acalorou. 

Maria Castello Branco defendia que “não é do nosso país haver incêndios” - opinião que é contrária à de Sérgio Sousa Pinto. “Os incêndios são um problema do século 20”, reforçaria a comentadora. “No início do século 20 houve um investimento em floresta brutal. O que agora se vê na Beira Baixa, quando se faz a A23, é uma zona cheia de eucaliptos e de pinheiros, que são árvores que ardem imenso. A paisagem hoje [na Beira Baixa] não é a paisagem natural. A paisagem natural ali são carvalhais e são olivais. Que não ardem”, asseguraria. 

Sérgio Sousa Pinto devolve: “Claro que ardem, claro que ardem”. E descreve como “fantasia” a opinião que ouvirá em seguida, de Maria Castello Branco. Esta: “Há séculos que isto é dito - e é do conhecimento das pessoas que conhecem o território -, as aldeias têm de ser circundadas por carvalhos, porque os carvalhos não ardem. São chamadas árvores-bombeiro”. 

“Sim, é verdade que as espécies não têm todas o mesmo comportamento perante o fogo. É verdade que os pinheiros e os eucaliptos têm características diferentes e que ardem mais do que as espécies autóctones. Não é verdade que as espécies autóctones não ardam”, remataria, por sua vez, Sousa Pinto. 

A discussão é antiga - uma discussão repetida por altura dos incêndios - e esta em concreto escalaria do Contrapoder às redes sociais: de um lado quem defende que não ardem os carvalhais e que não ardem os olivais; de outro os que defendem que ardem na mesma, apenas ardendo de forma diferente. 

Ninguém está equivocado nesta discussão. O esclarecimento é de Rui Cortes, engenheiro florestal, professor catedrático da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no Departamento de Engenharia Florestal, e investigador no CITAB - Centro de Investigação em Tecnologias Agroambientais e Biológicas. “Não se pode dizer que seja completamente um mito que os carvalhais ‘não ardem’. E quando falamos em carvalhos, falamos de várias espécies: carvalho-negral, carvalho-cerquinho, sobreiro, azinheira - há diferentes tipos. Não é, portanto, um mito, no sentido em que estas árvores são mais resistentes.”

Resistência não é impossibilidade. “Quer dizer: ardem, claro que ardem, mas o pinheiro ou o eucalipto ardem muito mais facilmente.” “A grande vantagem do carvalho no fogo”, explica o especialista da UTAD, “é que já está adaptado”. Traduzindo agora para leigos das florestas: “Ele está adaptado ao clima mediterrânico, o que lhe permite rebentar de novo depois de um incêndio, regenerando a vegetação. Isto desde que as temperaturas junto ao solo não sejam muito elevadas. Ele consegue recuperar”. 

Dentro dos carvalhos, “o sobreiro é particularmente resistente”, refere Rui Cortes, “graças à cortiça”. “Mas quando se faz extração frequente de cortiça a vulnerabilidade aumenta e a resistência ao fogo diminui. Existem também outras espécies resistentes em Portugal, como as bétulas. O ponto essencial não é apenas a resistência ao fogo, mas também a capacidade de regeneração. Portanto, e ao compará-lo com o pinheiro-bravo, por exemplo, o carvalhal regenera naturalmente - e o sobreiro destaca-se como a espécie mais resistente, desde que mantenha espessura suficiente de cortiça para proteger o tronco.”

Façamos mosaicos, não façamos monocultura. E pague-se por isso

Algo discutido no Contrapoder, e discutido amiúde, é o território florestal no país, que vem mudando. O eucalipto ocupará hoje em dia 26% da floresta - segundo o Inventário Florestal Nacional -, o equivalente a 845 mil hectares. É uma das maiores áreas do mundo (e o maior em termos absolutos na Europa) e Portugal continua entre os líderes mundiais na produção de pasta de papel. 

Faria sentido para o especialista Rui Cortes que investisse o país mais em espécies “resistentes” a incêndios (quando se fala de reflorestar e de reordenar os territórios) e menos numa árvore com “má-fama”. E se tem essa má-fama, ela é justa ou é injusta? “A questão é tanto demográfica quanto económica”, assegura o catedrático da UTAD. 

"Recordo que quando eu estava no Observatório Técnico - ligado ao Parlamento - sobre fogos rurais estivemos em Nelas, uma zona muito afetada por incêndios. Apesar de existir ordenamento florestal e defesa contra incêndios, os autarcas diziam: ‘Não temos gente’. As populações abandonaram as áreas, plantaram eucaliptais porque era a única atividade minimamente lucrativa, ainda que cada vez menos produtiva com o empobrecimento dos solos. Assim, acabam por repetir o mesmo modelo, porque não existem condições económicas e humanas para outro”, explica Rui Cortes. 

Portugal já sabe o que fazer. “Estão em curso os PRGP [Planos de Reordenamento e Gestão da Paisagem] que implicam também a criação de Áreas Integradas de Gestão da Paisagem, localizadas precisamente em zonas vulneráveis. Nessas áreas dá-se prioridade às espécies mais resistentes ao fogo, como os carvalhais, considerados prioritários, e raramente os eucaliptos - exceto em casos muito específicos de produtividade. E é preciso evitar monoculturas. Não interessa ter grandes manchas contínuas da mesma espécie, sejam pinheiro-bravo, sejam eucalipto, como hoje se vê. O objetivo é compartimentar a paisagem, criando ‘mosaicos’.” 

Mas Portugal não o pode fazer, ou pelo menos sem incentivos. ”A ausência de pessoas no território dificulta a gestão agrícola e florestal extensiva. Faltam agricultores, pastores, apicultores, gente que cuide da terra. Sem isso, torna-se quase impossível. Um dos aspetos que deveria ser prioridade - e que está previsto nos PRGP - é o pagamento dos serviços de ecossistema. Os proprietários que não tiram lucro direto da floresta deveriam ser compensados por manter áreas com biodiversidade, infiltração de água para aquíferos, valor paisagístico.” 

Se houvesse esse pagamento, “muitos donos de terrenos que hoje os abandonam olhariam para a floresta de outra forma”, garante Rui Cortes. 

"O eucalipto é, de facto, a espécie onde a propagação do fogo é mais rápida"

Voltando ao eucalipto, por oposição aos carvalhais, e voltando aos incêndios: uma das críticas comuns à plantação intensiva, e enquanto (quase) monocultura, de eucaliptos é a projeção das folhas em contextos de fogo. “É uma questão interessante”, assegura Rui Cortes. Primeiro, desmistifica: “Não é verdade que os eucaliptais tenham projeções de 20 quilómetros, como às vezes se diz”. Depois, clarifica: “Mas é frequente ultrapassarem os 200 ou 250 metros”. 

“Basta ver nas autoestradas: uma encosta com eucalipto pode projetar fogo para a encosta oposta, apesar de existir uma faixa de segurança. O eucalipto é, de facto, a espécie onde a propagação do fogo é mais rápida, exatamente por causa dessas projeções. Nos carvalhos isso não acontece, ou acontece em grau muito inferior. E o pinheiro-bravo, devido à resina, também pode projetar fogo a dezenas de metros”, assegura o especialista em floresta. 

No caso do pinheiro-bravo, podia não ser assim. De novo se volta ao problema essencial: "Aqui também está em causa a demografia. Não há quem cuide da floresta”. 

“O pinheiro-bravo resinado, ou seja, com extração de resina, tem menos concentração dessa substância e, por isso, propaga o fogo mais lentamente. Já o pinheiro sem resinagem acumula mais resina e aumenta a gravidade do incêndio”, conclui Rui Cortes. 

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