Um "inferno": em Escardiz e Samardã, o fogo chegou perto das habitações

Agência Lusa , MJC
21 ago, 23:53

Incêndios de Vila Real, Alenquer e Ourém foram os mais preocupantes ao longo do dia de domingo. Protenção civil admitia que não iria conseguir dominar o fogo fogo de Vila Real durante a noite

Um “inferno”. Esta foi a forma como uma moradora descreveu o aproximar das chamas da sua casa em Escariz, uma das aldeias afetadas pelo fogo que lavra no concelho de Vila Real e já queimou cerca de três mil hectares.

“Ao meio-dia estava ao pé de Vilarinho da Samardã e daí para cá tem descido sempre. O vento mudou de direção e trouxe o fogo todo para este lado. Aqui foi um inferno”, afirmou à agência Lusa Carla Carvalho, que reside no cimo da aldeia de Escariz.

Esta é uma das várias localidades do concelho de Vila Real que viu o fogo aproximar-se ao longo do dia de domingo. O incêndio deflagrou pelas 07:00 na serra do Alvão, na zona da Samardã.

“As faúlhas caíam aqui, molhámos o quintal, o meu primo foi buscar o trator com duas cisternas de água e andámos a molhar tudo, pelo menos para não chegar aqui nada à casa”, acrescentou Carla Carvalho. Quando as chamas se aproximaram da sua casa já os bombeiros também estavam ali posicionados.

“Uma pessoa está uma vida inteira para construir uma casa e depois ver cair as faúlhas aqui dentro e o fogo a acender em todos os lados é uma aflição”, frisou, referindo que foi “muito rápido por causa do vento, que estava sempre a mudar de direção". Para além da sua casa, a preocupação de Carla Carvalho estava também centrada na casa da sua mãe, mais abaixo na aldeia. “Ando a correr daqui para baixo e de baixo para cima e está tudo numa aflição”, afirmou.

Manuel Carvalho, também residente em Escariz, foi durante muitos anos bombeiro e, apesar de ter passado por muitos incêndios, disse que este o assustou. “Este hoje meteu-me medo. Não sei se será por causa da idade, mas esse hoje meteu-me medo”, salientou Manuel Carvalho, de 70 anos. É que, explicou, o fogo “não tinha direção, andava de roda” e não dava para perceber “onde ia parar”.

“Ninguém controlava uma coisa destas, era impossível”, frisou, salientando que se espera uma “longa noite de preocupações”. Disse ainda que se apercebeu do início do incêndio e contou que, na altura, achou que era fácil de dominar. “Veio um helicóptero, deu ali dois baldes de água e foi-se embora e a partir daí aconteceu o que se vê aqui. Isto era evitável se houvesse meios de intervenção aérea porque ali é de difícil acesso”, considerou.

Em declarações à Lusa, pelas 22:00, o presidente da Câmara de Vila Real, Rui Santos, disse que o incêndio já queimou uma área de cerca de três mil hectares. “O perímetro deste incêndio deve andar à volta dos 14, 15 quilómetros, neste momento, ativos”, apontou.

O autarca disse ainda que se esperam reforços ao longo da noite para o combate a este fogo. “Mas a situação está difícil. No meio disto tudo a única boa notícia é que, para já, não há danos físicos nem em casas de primeira habitação”, referiu.

À noite fogo mantinha três frentes. “Temos neste momento São Cosmo, Leirós, Linhares, Paredes e Escariz numa situação mais difícil, temos uma frente a caminho do concelho de Vila Pouca de Aguiar e outra a caminho de Sabrosa e outra na zona de Escariz”, referiu.

Rui Santos disse estar “preocupado” e referiu que a câmara municipal está a disponibilizar todos os meios ao seu dispor. Segundo o 'site’ da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção (ANEPC), para o local estavam aqui mobilizados, pelas 22:30, 447 operacionais e 129 viaturas.

"Vamos ter uma noite muito longa e com muito trabalho"

Às 20:00, o incêndio de Vila Real era um dos três mais preocupantes em Portugal, a par das ocorrências em Alenquer e Ourém. A essa hora, havia 11 ocorrências que inspiravam cuidados e que mobilizam 1842 operacionais, 574 meios terrestres e 26 meios aéreos, segundo revelou André Fernandes, comandante nacional de Emergência e Proteção Civil.

Em Samardã, Vila Real, o fogo estava muito forte e com progressão no sentido do vento. "A prioridade de ação é conter a cabeça do incêndio na Nacional 15 e evitar para evitar que chegue a habitações", explicou este responsável. "Vamos tentar contê-lo durante a noite mas sabemos que será difícil. De qualquer forma, vamos tentar conter o seu perímetro."

Mais otimistas eram as previsões para os incêndios em Alenquer, Ourém e Carrazeda de Ansiães (Bragança): espera-se que sejam dominados durante a noite. Em Alenquer a prioridade era evitar que o incêndio entre no perímetro florestal da Serra de Ota - o incêndio foi dado como dominado pouco antes da meia-noite, mas no local continuavam 350 operacionais.

A ocorrência de Ourém já se encontrava "em evolução para a estabilidade". E a circulação ferroviária na Linha do Norte, que esteve encerrada durante várias horas durante a tarde, foi entretanto reaberta.

"Espera-se que a noite traga alguma janela de oportunidade, humidade do ar vai subir e o vento vai diminuir", disse o comandante André Fernandes, avisando: "Vamos ter uma noite muito longa e com muito trabalho".

Nos últimos três dias a Proteção Civil registou 218 ignições. Hoje foram registadas 83 ignições, ontem foram 108 e na sexta-feira 103. Porto, Viana do Castelo, Aveiro, Lisboa e Vila Real foram os distritos com mais ocorrências.

Em Vila Real, há a registar hoje quatro feridos ligeiros, entre os dos quais três bombeiros e um civil.

 

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