Falhas táticas no combate explicam incêndios catastróficos
Havia meios suficientes mas comandos no terreno tomaram decisões erradas
A comissão de 12 peritos nomeada pela Assembleia da República para estudar a catástrofe de 2025 chumba o dispositivo nacional de combate a incêndios rurais. A Comissão Técnica Independente (CTI) conclui que houve "desaproveitamento das oportunidades de supressão" oferecidas pelas condições meteorológicas, logo no início, de todos os grandes incêndios. E isso permitiu que, depois, as chamas escalassem para proporções incontroláveis.
O maior exemplo é Piódão, onde deflagrou, a 13 de agosto, o maior incêndio de sempre em Portugal: dez dias, 654 quilómetros quadrados ardidos, uma área ardida superior à soma dos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras, Cascais e Sintra. Segundo a CTI, havia meios suficientes no terreno nos primeiros dois dias para evitar o descontrolo, com janelas meteorológicas favoráveis e previsíveis com horas de antecedência. Mas os recursos "permaneceram predominantemente concentrados" junto de estradas e povoações, sem atuar nas frentes de fogo.
Em Ponte da Barca, o relatório identifica 29 horas perdidas entre 28 e 29 de julho, em que o vento amainou e a humidade subiu, criando condições para consolidar o combate. Dois terços da área ardida — 4.856 dos 7.163 hectares — poderiam ter sido evitados, mas a informação meteorológica "não foi integrada no processo de decisão". A CTI chama-lhe "um exemplo elucidativo" das disfunções do sistema de supressão.
Os peritos apontam ainda a falta de formação de comandantes e operacionais, o cansaço dos bombeiros — mais de 70% consideram inadequada a gestão do descanso — e a insuficiência da Força Especial de Proteção Civil, que continua com um efetivo próximo do previsto há duas décadas, apesar de ter incorporado novas missões.
A meteorologia é uma falsa desculpa
O Presidente da República exige consequências. Na sessão solene comemorativa dos 150 anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses, António José Segura recordou ter alertado "repetidamente" para a necessidade de reformar as políticas de prevenção, mas também de resposta aos fogos rurais, de acordo com as recomendações de sucessivos relatórios de peritos.
O ministro da Administração Interna admite implementar mudanças, mas saiu ontem em defesa do dispositivo que tutela. “Há questões atmosféricas, em determinados momentos, que podem levar que os incêndios saiam do controlo das autoridades de combate”, declarou Luís Neves. No entanto, o governante admite “se necessário, tomar medidas de exceção”.
A meteorologia, no juízo da CTI, não justifica o que aconteceu. Bem pelo contrário. “Todos os grandes incêndios abrangeram janelas meteorológicas em que a supressão era exequível”, consignam no relatório final, documento extenso de 383 páginas. O relatório da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) desarma com factos qualquer explicação climática. Entre 2010 e 2017, em média, Portugal viveu 52 dias por ano de “meteorologia de alto risco”. Daí para cá, a média até baixou 8%, para 48 dias por época de fogos.
Como temos visto este ano, outros países mediterrânicos estão a sofrer grandes incêndios, mas as estatísticas mostram que o que tem acontecido no nosso território é um problema específico e mais grave. Portugal é o país europeu com maior percentagem acumulada de território ardido. O Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), da Comissão Europeia, contabiliza mais de 1,8 milhões de hectares queimados entre 2006 e 2025. Este ano, até ao momento, voltamos a liderar esse ranking sinistro.
