Incêndio na Serra da Estrela: "O combate é o último pilar, a prevenção falhou, a vigilância falhou.” Comandante Paulo Santos responde a críticas aos bombeiros

11 ago, 20:07

Numa altura em que o incêndio na Serra da Estrela já consumiu perto de 15 mil hectares, o comandante Paulo Santos rejeitou as críticas feitas à atuação dos bombeiros e apontou o dedo às autarquias e às empresas contratadas pelo Estado, que acusa de estarem a falhar

O Ministério da Administração Interna (MAI) informou esta quinta-feira que foram identificadas falhas no combate ao incêndio na Serra da Estrela, situações que, defendeu em comunicado, do ponto de vista operacional podem necessitar de ajustamentos e que já estão a ser avaliadas.

O comandante Paulo Santos, dos bombeiros de Carcavelos e São Domingos de Rana, que regressou há poucos dias do combate a esse mesmo incêndio, rejeitou qualquer crítica feita à atuação dos profissionais que estão no terreno. “Não me reconheço nestas críticas”, disse, em declarações à CNN Portugal.

“Estive dois dias no combate a este incêndio e nos meus 22 anos de comandante é a primeira vez que vejo um incêndio com uma organização levada ao extremo”, disse. Porém, não hesitou em reconhecer que essa mesma organização “não está a ser eficaz” - mas garantiu que tal deve-se, sobretudo, à orografia da serra e “com a severidade” do fogo.

O comandante Paulo Santos destacou que “de maneira nenhuma” houve desorganização dos vários meios que estavam no local, contrariando as críticas que têm surgido ao combate ao fogo. “Acontece é que num teatro de operações com esta complexidade pode haver momentos em que alguém não tenha percebido corretamente a sua missão, em que alguém surge no teatro de operações de uma forma inesperada e o teatro de operações não tenha percebido a sua chegada. Quanto maior é a organização, mais fácil é encontrar pequenas falhas aqui ou acolá”.

Quando questionado sobre o que poderia ter sido feito para evitar que o incêndio se alastrasse da forma como se está alastrar, o comandante afirmou que “obviamente, todos temos de pensar o que podemos fazer, se os bombeiros podiam fazer mais, se a GNR podia fazer mais ou se os próprios autarcas também podiam fazer mais”. E foi aqui que focou a sua atenção: “Efetivamente, as faixas da rede primária não estavam seguramente limpas, há alguns autarcas que podiam ter feito mais, alguns estão a fazer o que é possível”, dando como exemplo Manteigas. 

“Para dar uma ideia, temos mais de 1.500 operacionais do país todo neste teatro de operações. Terem refeições a horas para continuarem a trabalhar ou abastecimento de combustíveis, para pequenos municípios, como é o caso de Manteigas, é caótico, e isso está a ser gerido, porque ainda não ficaram veículos parados por falta de combustível, os homens têm refeições a tempo e horas”, exemplificou.

Para o comandante, “é muito fácil, neste período em que estamos todos muito concentrados no combate, começar a apontar deficiências ali e deficiências acolá, mas todos nós, como costumo dizer, quando apontamos o dedo a alguém temos três apontados a nós”.

“Não podemos estar sempre a por as culpas no combate porque o combate é o último pilar, porque a prevenção falhou, a vigilância falhou”.

“Meios começam a ser escassos” - e empresas contratadas pelo Estado estão a falhar

“Nós temos os meios que temos e é com esses que temos de trabalhar”. Foi desta forma que o comandante respondeu quando foi questionado sobre o eventual efeito do uso de canadairs logo desde o início do fogo. Mas, perante a situação atual do fogo, não hesitou em dizer que “os meios aéreos, num incêndio com esta extensão, já começam a ser escassos”.

O comandante Paulo Santos destacou ainda que “durante as operações deste incêndio os nossos canadairs estiveram indisponíveis devido a avarias e manutenções” e que, “inclusive, houve um período, que por ser fim de semana, não houve combustível suficiente para nenhum deles”. Sobre este ponto, apressou-se a dizer que “isto tem a ver com as empresas contratadas pelo Estado e que, se calhar, não fizeram o seu trabalho de casa”.

O comandante destacou a existência de “alguns acontecimentos” que poderiam ter sido evitados e mesmo com “planos B”, que disse que “há”, adianta que não compreende como situações como as que descreveu acima acontecem. “Não entendo como falharam, mas estou a falar de empresas que são contratadas pelo Estado para fazer um bom serviço”, destacou.

“O que é certo é que temos um grande dano ambiental e temos o país todo, este é um grande incêndio que estamos a ter no país, aproxima-se a passos largos dos 15 mil hectares e quanto maior é a área do incêndio mais meios temos de ter. Nós, nos bombeiros, não extinguimos o incêndio e vamos para outro lado, são horas [de trabalho]”.

Dificuldades de acesso complicam ação mais eficaz

“Estamos a assistir a um incêndio numa das áreas mais complexas do nosso país. O incêndio tem-se desenvolvido numa franja a grandes altitudes, está bastante rendilhado. Na terça-feira estive a combater este incêndio nas Penhas da Saúde, a mais de 1.400 metros de altitude, e, depois, há um precipício para a Covilhã, que é inacessível. O incêndio foi-se desenvolvendo nessa franja, com as mudanças do vento”, explicou.

O comandante destacou o “esforço tremendo” que tem sido feito nos últimos dias e o facto de os profissionais estarem a lutar “contra um incêndio com características extremas, por vezes, que se desenvolvem em zonas que não são acessíveis ao combate”. E voltou a desvalorizar as críticas feitas: “É muito fácil estarmos no centro da vila a olhar a dois ou três quilómetros e percebemos que aquela coluna de fumo não é extinta, mas não podemos correr o risco de morrer alguém por causa de um pequeno combate”.

“Se tivéssemos um incêndio numa planície, tinha sido extinto logo na primeira hora”, garantiu, reforçando que nem todos os acessos na Serra da Estrela permitem a chegada de homens e meios e que as condições meteorológicas devem também ser tidas em conta.

“O que acontece é que o incêndio se desenvolve onde no local mais complexo. Tendo em conta a altitude, a exposição solar das diferentes encostas da serra - porque quando o incêndio se está a desenvolver numa encosta com exposição solar, em que está voltada a oeste, o combustível está extremamente seco, embora seja mais rarefeito, nas outras encostas tem o combustível mais húmido, mas tem combustível. Há sempre inevitabilidade e adversidades”.

De acordo com o sistema de vigilância europeu Copernicus, o incêndio na Serra da Estrela, que lavra desde sábado, tinha consumido quase 10 mil hectares de terreno até esta quinta-feira.

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