Há uma nova solução a ajudar Espanha contra os incêndios. São burros

CNN , Daniel Olivares Gallego
23 jul, 16:57
Um incêndio florestal deflagrou a 9 de julho em Almería, Espanha, e tornou-se um dos mais mortíferos do país (na foto). Em toda a região do Mediterrâneo, os incêndios florestais estão a lavrar com intensidade, durante mais tempo e com maior frequência. Percorra a galeria para ver como os animais estão a ajudar a impedir a propagação dos incêndios florestais (Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)
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O fundador desta iniciativa ainda se lembra de quando as suas terras foram devastadas por um fogo. Foi por isso que quis tentar algo diferente

Este verão está a ser marcado por incêndios florestais devastadores no sul da Europa, mais cedo do que o habitual. Mais de 97 mil hectares de terra já foram destruídos em Espanha, com um incêndio recente no sul a tornar-se rapidamente um dos mais mortíferos do país.

Prevenir incêndios florestais tornou-se uma tarefa de alta tecnologia, com o recurso a satélites, drones e sistemas de Inteligência Artificial. Mas a 130 quilómetros a sul de Barcelona, ​​uma solução ancestral percorre silenciosamente as montanhas: uma récua de burros.

A Tivissa Donkey Firefighters, uma organização sem fins lucrativos no sul da Catalunha, reabilita burros maltratados e abandonados e coloca-os a trabalhar como "bombeiros". Ao pastarem nas gramíneas mais inflamáveis ​​das montanhas e das zonas rurais, criam aceiros naturais na paisagem árida do Mediterrâneo.

O fundador, Joan Cedó Sans, acolheu os primeiros burros em 2020; possui agora um conjunto de 62 animais, que se deslocam pela região para limpar terrenos públicos e privados, graças ao apetite aparentemente insaciável destes animais. "Estamos gratos pelos animais, que acreditamos merecerem uma segunda oportunidade", diz à CNN, em catalão.

Recordando os incêndios que devastaram as suas terras na Catalunha, nordeste de Espanha, em 2013, decidiu testar se os primeiros burros conseguiriam limpar a vegetação rasteira da floresta circundante. "Comeram tudo", recorda.

A experiência transformou-se numa operação a tempo inteiro, e Cedó, agora presidente da câmara da pequena cidade de Tivissa, entregou a administração diária a Jordi García, um voluntário que se juntou à equipa em 2021. "É muito gratificante", afirma García em castelhano. "Está em contacto com a natureza e deu uma oportunidade a estes animais."

Um dos primeiros a chegar foi o Roberto, um antigo burro de corrida enviado para o matadouro depois de ter deixado de ganhar devido ao seu porte avantajado. "Ele é especial, e acho que sabe disso", garante Cedó. Outra burra, Paloma, chegou com problemas de obesidade por ser "alimentada com bolachas de supermercado e cubos de açúcar", acrescenta Cedó. "Isto não é uma dieta para um animal como este... É também uma forma de maus-tratos."

Um burro adulto e três poldros atuam como "burros bombeiros", pastando as gramíneas mais inflamáveis ​​nas encostas do nordeste de Espanha, na região autónoma da Catalunha (Joana Cedó)
Um burro adulto e três poldros atuam como "burros bombeiros", pastando as gramíneas mais inflamáveis ​​nas encostas do nordeste de Espanha, na região autónoma da Catalunha (Joana Cedó)

Cedó acredita que o projeto é mutuamente benéfico: os burros previnem incêndios e o trabalho proporciona-lhes uma "vida digna" - uma récua a que pertencer, cuidados médicos de um veterinário voluntário e ração suplementar com produtos doados por quintas locais e um parque temático nas proximidades.

E o trabalho deles nunca foi tão crucial. Em 2025, a União Europeia registou a época de incêndios florestais mais destrutiva da sua história, com Espanha a perder mais de 400 mil hectares devido às chamas.

Porquê burros?

Os burros são animais herbívoros e preferem as gramíneas que secam durante o verão, formando "combustível fino" - a biomassa vegetal que se inflama mais facilmente e acelera a propagação do fogo -, explica Jordi Bartolomé Filella, professor da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB) e investigador em ecologia de herbívoros.

Para um "efeito completo", funciona bem combinar diferentes tipos de herbívoros, reitera Bartolomé, "para que atuem nas diferentes camadas e espécies da vegetação rasteira".

As cabras, que limpam rapidamente plantas lenhosas, deram origem a "negócios de paisagismo com cabras" na Califórnia, que alugam rebanhos para pastar em encostas de difícil acesso para os humanos.

Mas Cedó vê algo de especial nos seus animais: "O trabalho que os burros fazem, nem as cabras nem as ovelhas conseguem fazer", garante. "Pesam mais, por isso, a cada passo, pisam com mais força e comem mais." Ao pisotearem o solo, rompem a camada contínua de folhagem seca necessária para a propagação do fogo.

A investigação demonstrou que o pastoreio de animais pode ser uma defesa eficaz e mais barata do que a abertura de aceiros com máquinas - mas, tal como a prevenção de incêndios em geral, não é uma solução milagrosa. “É difícil garantir que não haverá incêndios com o pastoreio de animais”, avisa Bartolomé, “mas isso pode reduzir a intensidade dos incêndios e, portanto, torná-los mais fáceis de extinguir”.

Um burro adulto e três poldros atuam como "burros bombeiros", pastando as gramíneas mais inflamáveis ​​nas encostas do nordeste de Espanha, na região autónoma da Catalunha (Joana Cedó)
Um burro adulto e três poldros atuam como "burros bombeiros", pastando as gramíneas mais inflamáveis ​​nas encostas do nordeste de Espanha, na região autónoma da Catalunha (Joana Cedó)

Os burros de Tivissa também trabalham em conjunto com os bombeiros humanos. Por vezes, a unidade especializada em incêndios florestais da Catalunha, GRAF, realiza exercícios de treino abrindo aceiros nas mesmas montanhas. "É uma situação vantajosa para todos", nota Cedó. "Eles abrem os aceiros, nós colocamos lá os animais e mantemos a área limpa." Acrescenta ainda que os caminhos trilhados pelos burros podem ser utilizados "para passar mangueiras em caso de incêndio".

Reviver uma ideia antiga

O fogo sempre foi uma caraterística do Mediterrâneo, e o pastoreio de animais selvagens e domésticos tem mantido as áreas secas sob controlo durante muito tempo.

"Sem grandes herbívoros, mais cedo ou mais tarde esta biomassa seria 'devorada' pelo fogo. Ao contrário dos herbívoros, o fogo consome-a subitamente - com consequências de grande alcance para o ecossistema e riscos para as pessoas", diz Bartolomé.

Os incêndios florestais na Europa libertaram um número recorde de 13 milhões de toneladas de carbono que contribuem para o aquecimento global em 2025, e os danos causados ​​por eles perduram mesmo após o fim das chamas: uma floresta queimada deixa de absorver CO₂, e o fumo pode persistir durante semanas, representando uma ameaça para a saúde humana mesmo a milhares de quilómetros de distância.

Um helicóptero transporta água sobre um incêndio perto de Xerta, Espanha, no verão de 2025 - uma cidade a 24 quilómetros de Tivissa, onde os "burros bombeiros" circulam livremente (James Breeden/Getty Images)
Um helicóptero transporta água sobre um incêndio perto de Xerta, Espanha, no verão de 2025 - uma cidade a 24 quilómetros de Tivissa, onde os "burros bombeiros" circulam livremente (James Breeden/Getty Images)

Cedó inspirou-se e recebeu conselhos de “El Burrito Feliz” (O Burrinho Feliz), uma organização sem fins lucrativos pioneira no sul de Espanha, onde burros resgatados pastam nas margens do Parque Nacional de Doñana desde 2014.

Projetos semelhantes estão a surgir em todo o país. As iniciativas de repovoamento da vida selvagem na Galiza, no noroeste de Espanha, estão a trazer de volta cavalos selvagens para atuarem como “cortadores de relva naturais” na região mais propensa a incêndios do país.

Na Catalunha, a iniciativa “Ramats de Foc” (Rebanhos de Fogo) une pastores de ovelhas e cabras a bombeiros locais para pastorear zonas críticas de incêndio. A carne e o queijo destes rebanhos são vendidos com um selo de prevenção de incêndios florestais, pelo que os consumidores ajudam a financiar o trabalho.

As autoridades reconhecem o valor do gado na prevenção de incêndios, garante Bartolomé, mas não têm a certeza de como agir em conformidade. O responsável defende que as iniciativas de pastoreio só serão alargadas quando os governos as pagarem como um serviço de ecossistema, da mesma forma que “a desflorestação mecânica é remunerada”. Cedó vinca que os pastores recebem 70 a 80 euros por hectare desmatado - muito pouco para sustentar o seu trabalho. Atualmente, a Tivissa Donkey Firefighters depende de donativos e parcerias para cuidar do grupo.

“Este projeto nasceu do nada, por acaso”, completa Cedó. “Mas tem sido uma lição profunda - social e pessoalmente.”

“Não estamos a fazer nada que os nossos antepassados ​​não fizessem”, acrescenta. “Tudo o que estamos a fazer é valorizar estas tarefas rurais, este modo de vida que dependia tanto dos animais.”

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