Vídeo de 19 segundos gerou vaga de críticas nas redes sociais contra suposta relação entre interior do país e doenças mentais. Comentário na íntegra esclarece tudo
"Temos um interior abandonado, envelhecido, em que não há esperança, em que as pessoas estão pobres e isoladas, e ter problemas de saúde mental com certeza não ajuda a nada deste cenário".
Estas palavras de Sofia da Palma Rodrigues, jornalista da revista Divergente, num excerto em vídeo de 19 segundos partilhado nas redes sociais, desencadearam críticas contra a jornalista, acusada de afirmar que as pessoas que vivem no interior sofrem de doenças mentais. Foi mesmo isso que Sofia da Palma Rodrigues defendeu?
Contexto
Em comentário na CNN Portugal, a 14 de agosto, Sofia da Palma Rodrigues traçava o perfil do incendiário português. A jornalista da Divergente, em conjunto com Manuel Bívar, dedicou os últimos dois anos a uma investigação profunda que envolveu entrevistas a dezenas de incendiários portugueses, de norte a sul do país, com o objetivo de responder a uma pergunta: "O que leva uma pessoa a sair de casa e deitar fogo a tudo o que a rodeia?"
A investigação deu origem a artigos no Expresso, no espanhol El Confidencial e na própria Divergente, bem como ao podcast "País de Incendiários", com vasta informação e análise sobre incêndios e diversos testemunhos, incluindo de bombeiros e de investigadores da Polícia Judiciária, nomeadamente do diretor-adjunto Carlos Farinha e da psicóloga forense Cristina Soeiro, que estuda o perfil do incendiário português há 20 anos.
O comentário
A 14 de agosto de 2025, dia em que Portugal era assolado por violentos incêndios, Sofia Palma Rodrigues participou no espaço Breaking News da CNN Portugal, comentando com Gustavo Silva num painel moderado por André Neto de Oliveira. O painel durou das 19:38 às 19:52, num total de 14 minutos. Pode assistir ao programa na íntegra aqui.
Na primeira intervenção nesse espaço de comentário, Sofia da Palma Rodrigues começa por ressalvar: "aquilo que eu vou dizer é com base na investigação que fizemos na Divergente nos últimos dois anos, que resultou no podcast País de Incendiários".
A jornalista explicou depois que os resultados da investigação a levaram a concluir que "nós temos um problema estrutural no interior do país que tem que ver com desorganização do território, com monocultura". E passou depois a traçar o perfil do incendiário: "se olharmos para o perfil dos incendiários em Portugal, [vemos que] são pessoas com problemas de saúde mental e com problemas de alcoolismo. E isto não sou eu que o digo, é a investigadora forense da PJ que traça este perfil há mais de 20 anos".
Mais à frente, quando questionada sobre se "o facto de termos um interior desertificado, envelhecido, é outra das explicações para que estejamos aqui ano após ano a olhar para estes incêndios de grande intensidade?", Sofia da Palma Rodrigues responde com a frase que tem sido partilhada de forma abreviada. No entanto, a sua explicação continua além daqueles 19 segundos. Dura, aliás, 3 minutos e 5 segundos.
Nesse desenvolvimento, a jornalista acrescenta: "Há uma negação que este é um problema, e este é um problema não porque Portugal está cheio de pessoas criminosas, mas porque Portugal tem um interior abandonado e tem um problema de saúde mental transversal, que atravessa o país. Nós consultámos processos-crime de incêndio florestal em diferentes comarcas de norte a sul do país e o que nos mostram é que a maioria dos incêndios em Portugal são postos por pessoas inimputáveis, por pessoas com alcoolismo ou problemas de saúde mental".
Ou seja, Sofia da Palma Rodrigues não correlaciona pessoas do interior com doenças mentais, mas sim incendiários com problemas de saúde mental, aliás com base em perfis estudados por investigadores da PJ, e clarifica que esse problema "atravessa o país".
Pode ver toda o comentário a partir das 19:38 aqui. Pode ver o excerto de 3 minutos e 5 segundos no vídeo no topo desta página. Ou pode ler as intervenções da jornalista de seguida:
CNN Portugal - No fundo, o que é que não tem sido feito para que ano após ano estas circunstâncias vão acontecendo de forma sistemática no nosso território?
Sofia da Palma Rodrigues - Aquilo que eu vou dizer é com base na investigação que fizemos na Divergente nos últimos dois anos, que resultou no podcast País de Incendiários. E aquilo que não tem sido feito é medidas a montante. Nós temos um problema estrutural no interior do país, que tem que ver com desorganização do território, com monocultura, mas também os números dizem-nos que o incendiarismo é um problema e que as pessoas que põem fogo são um problema, e não vamos resolver com o aumento da moldura penal, até porque nós já temos um incendiário, o engenheiro Nelson Afonso, que foi condenado à pena máxima. Mas vamos resolvê-lo com problemas estruturais, até porque se olharmos para o perfil dos incendiários em Portugal, [vemos que] são pessoas com problemas de saúde mental e com problemas de alcoolismo. E isto não sou eu que o digo, é a investigadora forense da PJ que traça este perfil há mais de 20 anos. Por isso, eu sigo o repto do diretor-adjunto da PJ, Carlos Farinha, que falou ontem e que, no fundo, instou o Governo a pensar sobre isto fora da época quente.
Os números dizem-nos que, quando comparamos Portugal com o resto da Europa, Portugal é o país com mais área ardida em toda a Europa. E isto significa que, se não é feito nada a montante, depois o combate vai ser muito mais difícil, porque não é uma questão da dimensão do país. Mesmo em termos absolutos, como é que um país como Portugal, com uma área tão reduzida, tem mais área ardida do que a Grécia, do que a Itália, do que a Espanha? São questões para pensarmos e que o Governo devia pensar.
(...)
CNN P: Do seu ponto de vista, o facto de termos um interior desertificado, envelhecido, é outra das explicações para que estejamos aqui ano após ano a olhar para estes incêndios de grande intensidade?
SPR - : Sim, sem dúvida. Temos um interior abandonado, envelhecido, em que não há esperança, em que as pessoas estão pobres e isoladas, e ter problemas de saúde mental com certeza não ajuda a nada deste cenário. Eu gostaria só de fazer uma ressalva, porque nós, na Divergente, fizemos uma análise dos dados da última década, os dados disponibilizados pelo ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas). E o que nos mostram os números é que não é verdade que as queimas e queimadas, que os fogos negligentes, tenham assim um peso tão relevante, sobretudo quando olhamos para a área ardida. O incendiarismo, incêndios causados com dolo, foi responsável por 50% da área ardida entre 2015 e 2024. E, quando olhamos para o número isolado de ignições, é verdade que as queimas e queimadas, os tais fogos negligentes, têm cerca de 37% no número de ignições com causa conhecida, mas o incendiarismo é de 30% no número de ignições.
Portanto, eu acho realmente que há uma negação de que este é um problema. E este é um problema não porque Portugal está cheio de pessoas criminosas, mas porque Portugal tem um interior abandonado e tem um problema de saúde mental transversal, que atravessa o país e atravessa o interior do país.
Relativamente àquilo dos imputáveis e inimputáveis, dentro do crime de incendiarismo existem os inimputáveis, que são as pessoas consideradas com problemas de saúde mental na sua maioria. E, transversalmente, nós consultámos processos-crime de incêndio florestal em diferentes comarcas de norte a sul do país, e o que nos mostram é que a maioria dos incêndios postos em Portugal são por pessoas inimputáveis, por pessoas, como eu dizia, com alcoolismo ou problemas de saúde mental.
Nós entrevistámos a Cristina Soeiro [psicóloga forense da PJ que há vinte anos estuda o perfil do incendiário português] e o Carlos Farinha, da PJ, há menos de um ano. E o que nos disseram foi que o perfil se mantinha. A Cristina fala inclusivamente de jovens sem qualquer perspetiva de futuro".
Conclusão
Falso. Sofia Palma Rodrigues não diz que as pessoas do interior têm problemas de saúde mental. Diz sim que o incendiarismo é responsável por metade dos incêndios em Portugal e que, segundo investigação da PJ, muitos são causados por pessoas com problemas de saúde mental e de alcoolismo, e que esse é um problema que atravessa o país, incluindo o interior.