Combinação terapêutica dá mais sete meses de sobrevida a pacientes com cancro da mama triplo-negativo

23 jul, 13:00
Laboratório (AP Photo/John Minchillo, File)

A imunoterapia tem vindo a ser usada no tratamento de vários tipos de tumores malignos e sabe-se agora que há uma combinação de fármacos com quimioterapia que pode aumentar o tempo de sobrevida de 16,1 para 23 meses aos pacientes com um dos tipos de cancro da mama mais agressivos

Há já uma década que a imunoterapia tem dado cartas na luta contra o cancro, mostrando a eficácia dos tratamentos direcionados, e foi agora provado que uma combinação terapêutica específica é capaz de aumentar em sete meses o tempo de sobrevida dos pacientes com cancro da mama triplo-negativo em estado avançado e já inoperável.

Segundo um estudo publicado esta quinta-feira na revista New England Journal of Medicine, a combinação de Pembrolizumab - um “anticorpo monoclonal humanizado, antirrecetor da proteína de morte programada-1 (PD-1)”, explica o Infarmed - foi capaz de aumentar o tempo de sobrevida de 16,1 meses para 23 meses dos pacientes com este tipo de cancro. Esta combinação está aprovada em Portugal para vários tipos de cancro.

O cancro da mama triplo-negativo é mais raro e agressivo e, lê-se no Repositório da Universidade do Porto, “insere-se num conjunto heterogéneo de tumores definido pela ausência de expressão do recetor de estrogénio (ER), recetor de progesterona (PR) e recetor do fator de crescimento epidermal humano 2 (HER2)”.

O que diz o estudo

Para o estudo, os cientistas dividiram aleatoriamente 847 pacientes em dois grupos: 566 receberam quimioterapia com Pembrolizumab e 281 quimioterapia com placebo. A terapêutica combinada foi administrada a cada três semanas e todos os participantes tinham um cancro da mama triplo-negativo inoperável. A mediana de seguimento dos doentes foi de 44,1 meses.

Mas para que fosse possível medir o impacto deste tipo de imunoterapia, os cientistas identificaram um marcador com utilidade terapêutica: PD-L1. É a chamada proteína de morte programada-1 e trata-se de uma proteína que atua como uma espécie de “freio” para manter as respostas imunitárias do corpo sob controlo, isto é, identifica as células saudáveis e evita que o sistema imunitário - estimulado pela imunoterapia - as danifique ao mesmo tempo que ‘mata’ as células cancerígenas.

Os pacientes com maiores níveis de PD-L1 apresentaram uma sobrevida sete vezes superior quando comparados com os que seguiram apenas as sessões de quimioterapia com placebo, que era de 16,1 meses. A quimioterapia continua a ser um dos tratamentos-padrão pela sua eficácia, mas a sua agressividade tem levado à procura de alternativas ou combinações. Ao contrário das terapêuticas direcionadas, como a imunoterapia, a quimioterapia “pode afetar não só as células cancerígenas como também as células saudáveis”, descreve o Serviço Nacional de Saúde (SNS) no seu site.

A combinação de fármacos com quimioterapia é apenas uma forma de imunoterapia, que é usada como tratamento de primeira linha ou como complemento de outras terapêuticas, como a quimioterapia. A imunoterapia pode ser realizada através da toma de fármacos ou com recurso a terapia de células estaminais do próprio doente, células que são trabalhadas em laboratório para ganharem a capacidade de atuar junto das células cancerígenas, tirando-lhes força. A ideia é fazer com o que o sistema imunitário do doente com cancro seja capaz de atuar contra o tumor e esta tem sido a grande aposta em vários tipos de cancro, trazendo uma nova esperança não só no tratamento, mas também na qualidade de vida do paciente. 

Por cá também se tem estudado este tipo de cancro e, este ano, investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto integraram um estudo no qual foi descoberta uma proteína que permite prever a eficácia da quimioterapia em pacientes com cancro da mama triplo-negativo, dando, assim, mais uma alternativa terapêutica. O mesmo instituto vai ainda desenvolver uma ferramenta “inovadora” para identificar biomarcadores que permitam prever precocemente o risco de desenvolvimento de metástases em doentes com cancro da mama.

Em 2020, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), morreram 1.787 mulheres com cancro da mama e 23 homens em Portugal, num total de 1.810 óbitos.

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