Dificuldades de aprendizagem, medo de mostrar o sorriso e mais frustração. Como a pandemia afetou o cérebro das crianças

3 abr, 08:00
Criança com máscara. (Pexels)

Dos isolamentos passados em frente a ecrãs às aulas à distância, das máscaras usadas pelos professores à falta de convívio presencial com os amigos. A CNN Portugal falou com especialistas que explicam que o impacto da covid-19 nas crianças e adolescentes vai muito além da doença em si. E pode trazer mudanças em comportamentos futuros.

Os confinamentos e o medo do contágio, que indiretamente manteve muitas famílias em auto-isolamento, roubaram tempo de diversão ao ar livre, novos contactos sociais, um dia-a-dia que até então era normal. E as consequências estão a ser notórias nos mais novos.

“Diversos fatores relacionados à pandemia são reconhecidos como experiências adversas na infância e interferem negativamente na construção e estruturação da arquitetura cerebral da criança”, lê-se no estudo "O impacto potencial da pandemia de COVID-19 no crescimento e desenvolvimento infantil: uma revisão sistemática", publicado no Jornal de Pediatria do Brasil. Entre os fatores está o stress dos pais face ao vírus, o encerramento das escolas, as dificuldades em gerir a vida familiar em tempos de pandemia e uma “maior exposição a vulnerabilidades pré-existentes (como violência doméstica, uso de drogas e doença mental em familiares)”.

A pandemia já tem impacto na saúde mental das crianças e nos adolescentes, que começaram a ter muito mais problemas de ansiedade, ataques de pânico, dores de cabeça, má disposição, dores no corpo”, começa por dizer à CNN Portugal Bárbara Ramos Dias, psicóloga de crianças e adolescentes e coach parental. 

Segundo Nathalie Marques, psicóloga e coach infantil na Academia Transformar, em Lisboa, o impacto da pandemia - que vai para lá da doença em si - é notório e poderá arrastar-se ao longo do tempo, sobretudo se nada for feito para mitigar alguns dos danos que saltam de imediato à vista. “Temos de olhar para isto em várias fases: há impacto, mas há mudanças que vieram para ficar”, explica a psicóloga.

As consequências, porém, não se medem apenas em estados emocionais e numa fragilidade mental posta a nu. O comportamento mudou e a aprendizagem, sobretudo das crianças, também ficou comprometida durante estes mais de dois anos de pandemia, mostrando desigualdades um pouco por todo o mundo. Segundo a Unicef, quase 147 milhões de crianças perderam mais de metade da sua escolaridade presencial nos últimos dois anos - e em 23 países há escolas que ainda não reabriram totalmente, o que poderá comprometer o ensino de milhares de crianças.

Ansiosos mais cedo 

Segundo a psicóloga Bárbara Ramos Dias, uma das consequências mais notórias da pandemia entre as crianças foi o aparecimento de estados de ansiedade mais cedo do que o habitual. “A ansiedade apareceu mais cedo, antes tinha miúdos de 14 anos com ansiedade, agora começaram a aparecer com 10-11”, conta, relatando que em consulta também lhe chegam “muitos miúdos com depressões, muitos miúdos que aprenderam a esconder-se atrás da máscara”.

Embora acredite que o passar do tempo e a tendência para "normalizar" a covid-19, tal como vários países já o fazem e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) admite como cenário mais provável, estejam a melhorar o cenário atual entre os mais novos, Nathalie Marques revela que, “quando se deu a saída dos confinamentos”, muitas crianças começaram logo a dar sinais de desgaste mental e emocional. “Na altura, nos mais pequenos havia uma tendência para humor deprimido, semblante muito triste, menos motivação, havia menos alegria”, diz a psicóloga.

Também os adolescentes ficaram à mercê da incerteza, das quatro paredes do quarto, dos rostos tapados, das emoções que ficaram por decifrar.

Os adolescentes tinham ansiedade muito mais elevada, essa ansiedade deu-se naqueles que mudaram de ciclo, que mudaram para o 10º. ano. pois além de lidarem com ansiedade própria de mudança de ciclo, tinham de lidar com incerteza e regras na escola”, dia Nathalie Marques.

A psicóloga atira mais um fator para a conversa: as máscaras. “Eles nunca conseguiam ver professores e colegas de forma completa. Na leitura que se faz da relação ficaram a faltar elementos”, explica, embora considere que é nos olhos que está grande parte da transparência das emoções, o que permitiu que a interpretação de quem está à frente não ficasse totalmente comprometida.

… e menos capazes de lidar com a frustração

Foram muitos meses confinados a um isolamento em que tinham de interagir com as principais figuras de referência e isso fechou o leque de competências sociais, inibiu as competências de resistência e resiliência no controlo de impulsos”, explica Marta Calado, psicóloga da Clínica da Mente.

A psicóloga verifica “uma dificuldade em lidar com circunstâncias, com contrariedades e pequenas adversidades, fruto de lidarem apenas com a bolha, que era a casa e a família, muito restrita em termos de estímulos fundamentais para as crianças e dos jovens”.

Mas a frustração não vem apenas da “bolha” em que viveram nestes últimos dois anos, vem também do impedimento do imediato, do estímulo instantâneo de que tanto estavam habituados. “O facto de os jovens terem passado a usar outros tipos de ferramentas para aprender fez com que tivessem outra maneira de querer aprender, mas trouxe outras consequências: estão menos capazes de esperar, e frustram, e como frustram acabam por estar mais irritados, mas como não são tão sujeitos a ter de lidar com estas emoções não sabem trabalhá-las”, lamenta Nathalie Marques, que também dá consultas no Espaço N, em Lisboa.

Quanto ao imediatismo de que estavam habituados e que leva a maiores episódios de frustração, Bárbara Ramos Dias diz que o facto de estarem privados a tal pode ser um gatilho para mudanças. “Estavam habituados a ter tudo imediato e perceberam que não está tudo ganho, que não é tudo como pensavam como era. Isso tem sido uma riqueza na aprendizagem deles. Crescer dói, mas é uma aprendizagem”.

Para Bárbara Ramos Dias, apesar desta dificuldade em lidar com a frustração, é possível reverter o cenário “trabalhando em psicoterapia a gestão emocional”.

Nathalie Marques não hesita em dizer que é preciso mudar o ambiente escolar e a forma como se avalia o desempenho das crianças e jovens: deve “haver no plano curricular temas semanais relacionados com competências socioemocionais”, de modo a dar ferramentas aos mais novos para entender as suas próprias emoções e as dos outros. “É urgente por tudo, a pandemia veio reforçar isto”.

Dificuldades em aprender, ler e escrever

Tal como a CNN Portugal já tinha noticiado, educadores de infância e professores têm dificuldade em entender os alunos e os terapeutas da fala confirmam que a procura pela terapia aumentou. E esta é uma das principais consequências na aprendizagem, sobretudo nas crianças, que ficaram impedidas de ler os lábios e associar os movimentos da boca às palavras.

Mesmo que não seja usada por crianças com menos de dez anos, “a máscara tem impacto na aprendizagem”, alerta Nathalie Marques. “Sabe-se já que houve um aumento de procura de terapia da fala porque, de facto, a linguagem passa muito por se ver a forma como a boca se move. E quando há impacto na linguagem há impacto na leitura e escrita”, esclarece. 

“O facto de não se ver o rosto dos professores pode potenciar a insegurança, [a pessoa] não se sabe a 100% qual o feedback emocional do professor”, continua Nathalie Marques.

Bárbara Ramos Dias admite que são as “crianças do primeiro e segundo ano” aquelas que ficaram “com dificuldade em compreender as pessoas por causa das máscaras”, dificuldade essa que se espelhou a nível escolar no que diz respeito à “aprendizagem, leitura e escrita, porque não se via os lábios”. “É diferente ver como se põe a língua [ao falar] e aí, sim, tenho tido muitos meninos a trabalhar a aquisição da leitura e aprendizagem porque se sentiram perdidos”, continua a psicóloga. 

No caso dos mais novos, a questão ganha outros contornos, diz a psicóloga Nathalie Marques. “Quanto à aprendizagem, a máscara impossibilita isto nos mais pequenos, em que a aprendizagem passa pelo olhar do modelo, há crianças que nunca conheceram o rosto da educadora, muitos pais não conhecem o rosto dos professores”.

Cada vez mais desconcentrados e digitais

“A pandemia afetou imenso a concentração e atenção”, reconhece Bárbara Ramos Dias.

Segundo a psicóloga Nathalie Marques, “a concentração está ligada, por um lado, à motivação e temos de saber ouvir o que os mais jovens querem”, sobretudo na forma de aprender. Contudo, a especialista defende que é “preciso regular a utilização dos dispositivos tecnológicos, porque a concentração está muito ligada ao que é o retorno que cada aplicação ou jogo traz, os mais novos querem num tempo muito curto obter logo um objetivo, isto também tem de ser trabalhado”.

Na verdade, o uso de dispositivos tecnológicos não foi apenas um escape para o tédio dos confinamentos e auto-isolamentos, mas também a única forma de ensino e convívio com os amigos. Porém, importa colocar um travão no uso, apostando no equilíbrio, reforça Nathalie Marques. “Mais do que um desmame, tem de ser feita a aprendizagem de um consumo responsável destas tecnologias, não é só pormos regras e limites no uso destas coisas, temos de, da mesma forma que prevenimos o uso de outras coisas prejudiciais à saúde, ensinar os jovens a usar isto de forma consciente, sensibilizar para as consequências a curto, médio e longo prazo, sobre a forma como interfere com o bem-estar físico e emocional”.

No entanto, o aumento do uso de dispositivos tecnológicos não tem de ser apenas negativo. Segundo dois estudos publicados nas revistas científicas Language Development Research e Scientific Reports, as crianças pequenas tiveram mais tempo de ecrã durante o primeiro confinamento, em março de 2020, mas a sua linguagem não foi prejudicada e até aprenderam mais palavras do que é habitual.

“A tecnologia tem um lado positivo e um menos positivo, então vamos usar isso de forma consciente”, diz a psicóloga Nathalie Marques, que considera que o equilíbrio e bom uso deve ser desde logo incentivado pela “comunidade escolar e cultura familiar”.

E escondidos atrás das máscaras

Segundo Bárbara Ramos Dias, “os mais tímidos ainda ficaram com mais dificuldades” em socializar. “Esconderam-se muito atrás das tecnologias, com a desculpa de não ter de ir para a rua, agora é-lhes mais difícil ir para a rua”, atira a especialista, que frisa que o pós-pandemia implica “uma nova aprendizagem”, uma aprendizagem que ajudará a “voltar a socializar, a voltar a lidar com frustrações”, algo que, diz, é possível conseguir com o devido acompanhamento psicoterapêutico.

Mas não é apenas atrás dos ecrãs que os mais novos se escondem: a máscara passou também a ser um elo protetor da baixa autoestima e vista quase como uma extensão do corpo humano. E há jovens que ficam com receio de mostrar o sorriso, o rosto. “Muitos miúdos que aprenderam a esconder-se atrás da máscara e agora não a tiram por causa da autoestima, pensam ‘os outros não vão gostar de mim, tenho os dentes tortos, a boca assim e assado’”, afirma Bárbara Ramos Dias. Nathalie Marques também considera que os jovens “hoje escondem-se atrás das máscaras”, mas que este acessório é visto quase como uma parte da pessoa em si. “Quando desenham figuras humanas em consulta metem a máscara, isso mostra como veem as identidades um dos outros”, frisa.

Mas nem todas as mudanças serão negativas. Bárbara Ramos Dias considera que, de facto, estas crianças e jovens “serão diferente no futuro”, mas como “aprenderam imenso” e viveram uma situação adversa ao mesmo tempo que milhões de outras pessoas, “vão ser mais empáticos e mais responsáveis, acho que serão diferentes numa forma positiva”.

O que fazer para reverter as consequências da pandemia

Para que estas mudanças de comportamento e consequências diretas da pandemia não se arrastem ao longo do tempo, a psicóloga Marta Calado defende que “é importante que os educadores e cuidadores consigam distinguir os sintomas que são normais do jovem e criança ou que ainda assim são atípicos e que permanecem atípicos desde o desconfinamento”, dando como exemplo “a irritabilidade, o querer estar sozinho, o passar demasiado tempo na tecnologia, o não querer fazer atividades com outros ao ar livre”, aquilo a que a especialista chama de “perpetuar as rotinas do confinamento e manifestar dificuldade em ter as rotinas normais de 2019”.

A procura de ajuda profissional é o caminho, mas práticas de mindufulness, de atenção plena, podem também ser uma mais-valia, sobretudo na concentração e no controlo da frustração, diz Nathalie Marques.

A psicóloga acredita que “estes impactos podem ser superados, porque crianças têm grande capacidade de adaptação”, mas adverte que “o trabalho passa pelos adultos”, que têm de “investir em mais atividades ao ar livre para que [as crianças e jovens] possam recuperar competências físicas e emocionais”. E tarefas simples podem fazer a diferença, assegura: “Ir para um parque implica trabalhar emoções, como a coragem e o à vontade para estar com o outro”.

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