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Associate Director Capital Markets da CBRE Portugal

Entre a escassez e a procura do mercado invisível de média dimensão em Portugal

6 jan, 16:14

Quando se fala em mercado imobiliário, Portugal aparece frequentemente nas análises pelo crescimento do turismo, pelo boom residencial ou pelo interesse internacional em grandes portefólios. Porém, existe um segmento menos comentado, mas cada vez mais relevante: os ativos de média dimensão, cujo valor se situa entre um e 15 milhões de euros. São imóveis que não atingem a escala dos grandes fundos institucionais internacionais, mas que representam a grande maioria do nosso parque imobiliário. É também neste segmento que atuam os investidores individuais típicos.

O mercado português parece estar a crescer em estabilidade e sofisticação, mas ainda não consegue responder de forma plena a esta procura. Por um lado, existem investidores privados e family offices que procuram oportunidades relativamente acessíveis, mas que exigem segurança e retorno consistente. Por outro, fundos internacionais operam com critérios rigorosos, due diligence detalhada e exigências contratuais complexas, refletindo não apenas uma preocupação com o risco, mas também com a profissionalização das transações. Este cruzamento de interesses cria um espaço desafiante: cada transação exige experiência, visão estratégica e a capacidade de conciliar mundos diferentes.

O tipo de risco neste segmento é singular. No imobiliário comercial, ao contrário da habitação, a sustentabilidade do inquilino é o fator determinante. Se surgirem problemas, a lei permite que o imóvel volte rapidamente ao mercado, muitas vezes com possibilidade de renegociar rendas ou ajustar o contrato. Assim, o que para alguns poderia ser um risco transforma-se numa oportunidade de gestão ativa do investimento. Este dinamismo torna o mercado de média dimensão particularmente interessante para investidores que procuram retorno sem renunciar à segurança.

Tradicionalmente, o mercado comercial tem sido dominado por investidores institucionais, como fundos de investimento imobiliário e fundos de pensões. No entanto, tem-se assistido a um aumento da participação de investidores privados e family offices, refletindo o interesse crescente pelo imobiliário como alternativa estratégica de investimento. Este interesse é sustentado por três fatores principais: rentabilidade elevada e previsível, diversificação da carteira e proteção contra a inflação, dado que os contratos de arrendamento tendem a atualizar rendas periodicamente. Para além disso, a valorização dos ativos ao longo do tempo permite ganhos adicionais aquando da alienação do património.

Entre os segmentos mais resilientes destacam-se o retalho de rua, especialmente lojas bem localizadas e supermercados com inquilinos de renome; escritórios, que podem ir desde frações até 500m² em edifícios centrais até edifícios completos de pequena dimensão; e armazéns logísticos arrendados a empresas de referência, cuja procura tem vindo a crescer significativamente. Esta diversidade permite aos investidores diversificar risco e equilibrar retornos, criando carteiras mais robustas.

Portugal distingue-se ainda por se manter relativamente isolado de abrandamentos que afetam outros mercados europeus. Mesmo num contexto de subida das taxas de juro e de instabilidade geopolítica, os níveis de renda permanecem sustentáveis e a legislação garante segurança jurídica aos investidores. Esta estabilidade tem atraído investidores internacionais – franceses, brasileiros e, cada vez mais, americanos – que procuram diversificação e retorno estável. Muitos iniciam a sua relação com Portugal através da habitação e, posteriormente, avançam para o imobiliário comercial, reconhecendo a maior previsibilidade e consistência dos retornos.

O futuro deste segmento dependerá da capacidade de Portugal em equilibrar oferta e procura. À medida que mais investidores privados e fundos internacionais entram no mercado, a competição por ativos de qualidade tende a aumentar. Paralelamente, a profissionalização das transações continuará a ser um diferenciador essencial, garantindo processos estruturados, avaliação de riscos e negociação de contratos de forma transparente. Entre a escassez e a procura, o mercado de média dimensão constrói-se como um terreno fértil para investimento estratégico, onde conhecimento, experiência e visão de longo prazo são determinantes.

Para que o mercado de média dimensão continue a evoluir de forma estruturada, têm surgido equipas especializadas dedicadas a mediar entre proprietários e investidores, refletindo a crescente profissionalização do setor. Este tipo de iniciativas evidencia como a experiência e a visão estratégica são cada vez mais determinantes para conciliara os diferentes perfis de investidores e garantir processos de transação mais transparentes e eficientes.

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