Este casal norte-americano comprou parte de um palacete degradado em Itália por 140 mil euros sem sequer o ver

CNN , Silvia Marchetti
3 jan, 12:00
John Alan e Vicky Ambrose, na foto com o filho Cleary, esperam reformar-se em Biella dentro de alguns anos. (Vicky Ambrose via CNN)

Três anos e 150 mil euros depois, tem uma casa de sonho no Piemonte

Comprar uma casa em Itália por uma fração dos preços praticados nos EUA passou de fantasia a algo cada vez mais comum. Os outrora inovadores programas de casas por um euro - propriedades em cidades idílicas que custam pouco mais do que um dólar - são agora uma opção bem estabelecida e, na maioria das vezes, com bons resultados para quem procura pechinchas.

Mas essa opção de baixo risco não atraiu o casal de Houston John Alan Ambrose, de 61 anos, e Vicky, de 57. Em vez de procurarem uma casa de um euro para recuperar, compraram uma parte de um antigo palazzo (palacete) degradado numa cidade que a maioria das pessoas fora de Itália nunca ouviu falar- e fizeram-no sem ver o imóvel.

Ainda assim, foi um negócio relativamente vantajoso. Em 2022, pagaram 140.000 euros, ou cerca de 160.000 dólares, pela estrutura vazia de uma mansão histórica no centro de Biella, uma cidade do norte de Itália, na região do Piemonte, nas encostas dos Alpes.

Seguiu-se uma renovação que durou três anos e que obrigou a um investimento adicional de 150.000 euros, para transformar a sua nova propriedade num apartamento de luxo - com mais de 279 metros quadrados no segundo piso do edifício -, com quatro quartos, duas casas de banho e duas varandas panorâmicas.

Mas nem tudo correu bem.

A histórica cidade de Biella é conhecida como um centro de produção de lã de elevada qualidade em Itália. (Giorgio Gnemmi/Getty Images via CNN)
A histórica cidade de Biella é conhecida como um centro de produção de lã de elevada qualidade em Itália. (Giorgio Gnemmi/Getty Images via CNN)

Em mau estado

Localizada no centro histórico de Biella, composto sobretudo por edifícios dos séculos XVI e XVIII, a propriedade do casal é uma estrutura dos anos 1930, construída em estilo Liberty - uma variação italiana da Art Nouveau. Tinha pertencido a uma família aristocrática italiana, mas encontrava-se desocupada há alguns anos quando os Ambrose a compraram.

Embora o interior estivesse em mau estado na altura da compra, o casal acreditava ter encontrado uma pechincha. O apartamento tinha tetos com 14 pés de altura (cerca de 4,3 metros), portas de madeira maciça e janelas em arco com vista para pátios interiores ou para os Alpes. Incluía ainda um sótão para guardar equipamento de esqui de inverno e uma cave - ótima para armazenar vinhos do Piemonte.

Biella, conhecida como um centro de produção de lã de alta qualidade, pode ser uma escolha pouco comum para um casal americano, mas Vicky conheceu a cidade através do seu trabalho.

Visitou-a pela primeira vez em 2022. Com a empresa de roupa para ciclismo que geria parada após a pandemia, Vicky estava na esperança de iniciar um negócio de moda focado em caxemira e lã italianas. Foi fácil orientar-se em Biella graças a um amigo local, que organizou reuniões com fornecedores.

"Na minha primeira viagem, gostei mesmo da energia da cidade", afirma. "Senti-me segura e gostei do facto de ser uma cidade pequena, e não uma aldeia, mas ainda assim próxima de grandes aeroportos, com paisagens bonitas à porta dos Alpes e das estâncias de esqui do Vale de Aosta."

O Santuário de Oropa, perto de Biella, é um local de peregrinação classificado pela UNESCO. (Gianni Armano/Getty Images via CNN)
O Santuário de Oropa, perto de Biella, é um local de peregrinação classificado pela UNESCO. (Gianni Armano/Getty Images via CNN)

Outras atrações incluíam a clássica praça central italiana da cidade, a sua catedral Duomo, com 600 anos, e o Santuário de Oropa - um local de peregrinação classificado como património mundial pela UNESCO. A proximidade aos belos lagos de Orta, Maggiore e Viverone, bem como às vinhas do Piemonte, pesou a favor de Biella.

E o preço também ajudou. "O custo do imobiliário era muito atrativo, comparado com os Estados Unidos", sublinha Vicky, que é natural de Bogotá, na Colômbia.

Prazos falhados

De regresso ao Texas, John - diretor-geral de um fabricante norueguês de equipamentos de proteção individual - deixou-se convencer pelas descrições que a mulher lhe fazia de Biella. Apesar de nunca ter posto os pés na cidade, ambos decidiram comprar ali uma casa.

Procuravam um apartamento espaçoso - o confinamento durante a pandemia convenceu-os de que precisavam de muito espaço. Outra condição era que fosse uma casa 'de fechar e deixar', que pudesse ficar desocupada durante longos períodos.

Ao pesquisar online, encontraram aquele que viria a ser o seu apartamento e, sem o verem, fizeram uma proposta.

A casa, embora estivesse desabitada há anos, tinha claramente uma boa estrutura - dizem que um imóvel equivalente em Houston lhes teria custado 900.000 dólares - e estavam confiantes de que a aposta iria compensar. Ter um amigo no terreno ajudou a facilitar a compra, uma vez que os orientou no labirinto das leis italianas.

O corredor do apartamento, antes e depois das obras do casal. (Vicky Ambrose via CNN)
O corredor do apartamento, antes e depois das obras efetuadas pelo casal. (Vicky Ambrose via CNN)

Quando finalmente visitaram o apartamento, depararam-se com vários momentos de ‘ui… no que é que nos fomos meter?’. Ao entrarem pela porta principal, tiveram de avançar com cuidado por cima de azulejos partidos espalhados pelo corredor. Mais alarmante ainda, o antigo esquentador a gás do apartamento tinha-se soltado e estava pendurado na parede da cozinha. Ao abrirem um armário num dos quartos, descobriram-no cheio de canalização antiga e degradada, destinada a um lavatório.

Embora a renovação tenha tido momentos divertidos, não esteve isenta de complicações, sobretudo porque as empresas de construção em Itália ainda recuperavam do atraso acumulado após a Covid-19 e a mão de obra era escassa.

"Primeiro a barreira linguística, depois os orçamentos que mudavam como as estações do ano, empreiteiros que desapareciam e compromissos que se diluíam em prazos indefinidos", conta Vicky.

"Alguns fornecedores e profissionais foram muito fiáveis, como o nosso canalizador, enquanto outros ficaram com o nosso dinheiro durante quase um ano, com múltiplas desculpas e atrasos. Tive de fazer várias viagens por ano para supervisionar ou pressionar por avanços. Houve um grande choque cultural: um projeto que, nos Estados Unidos, teria demorado no máximo seis a oito meses acabou por se arrastar por quase três anos."

Encontrar os empreiteiros certos foi um desafio, tal como lidar com as exigências municipais que obrigam a trabalhar com um geometra, ou técnico de medição (surveyour/topógrafo).

"Muitos profissionais italianos não apresentavam orçamentos detalhados, com a definição clara do âmbito dos trabalhos, o que dificultava tudo à distância, sobretudo sem conhecer a reputação de cada um", explica John. "Temos experiência enquanto proprietários de imóveis e, por isso, uma noção geral de quanto as coisas devem custar. Os custos da mão de obra são, por norma, mais elevados nos Estados Unidos do que em Itália, mas muitos prestadores de serviços em Biella queriam cobrar valores excessivos pelo seu trabalho."

Faça você mesmo

A cozinha do apartamento, durante e depois da remodelação. (Vicky Ambrose via CNN)
A cozinha do apartamento, durante e depois da remodelação. (Vicky Ambrose via CNN)

Para acelerar o processo, decidiram tomar as rédeas da situação. Vicky voou para Itália, encontrou-se com um amigo americano e, depois de encomendar ferramentas online, arregaçaram as mangas e passaram duas semanas a remover os antigos revestimentos do apartamento.

Algumas tarefas aparentemente simples revelaram-se extremamente complicadas. Apesar de não terem sido feitas alterações estruturais na casa, até intervenções meramente estéticas precisaram de luz verde da câmara municipal, devido ao passado histórico do edifício e à sua localização.

Os Ambrose queriam retirar duas janelas antigas e com correntes de ar de uma das casas de banho e substituí-las por soluções mais eficientes do ponto de vista energético e com melhor isolamento, mas depressa ficaram enredados na burocracia.

"Como eram janelas exteriores e o edifício fica no centro histórico, tivemos de demonstrar que não afetariam negativamente a fachada arquitetónica, além de obter a aprovação do condomínio", explica John.

Apesar dos obstáculos, avançaram. Foi instalado ar condicionado, os pavimentos foram afagados e renovados e todo o apartamento recebeu uma nova pintura. Casas de banho e cozinha deixaram de ser espaços utilitários do pós-guerra para se transformarem em áreas mais cuidadas, com equipamentos de topo e linhas simples, combinando o artesanato italiano com um toque internacional.

Toda a instalação elétrica e canalização foram substituídas. Foram colocados pavimentos de madeira novos e brilhantes. O armário escuro e cheio de tubagens deu lugar a um duche privativo no quarto de hóspedes. O casal chegou mesmo a acrescentar um bar.

O palacete, dos anos 1930, pertenceu em tempos a aristocratas italianos. (Vicky Ambrose via CNN)
O palacete, dos anos 1930, pertenceu em tempos a aristocratas italianos. (Vicky Ambrose via CNN)

O esforço compensou. Os Ambrose têm agora a casa de férias com que sempre sonharam, onde recebem amigos e o filho Cleary, de 26 anos, músico a viver em Brooklyn, Nova Iorque. Usam-na para escapadinhas de esqui nos Alpes e como paragem intermédia em viagens mais aventureiras pela Europa.

Apreciam o facto de, na cidade, tudo ficar a uma curta distância a pé, como o café preferido, onde vão beber cappuccinos e comer pastelaria enquanto observam as pessoas a atravessar a praça em direção ao Duomo. Outro passatempo frequente é apanhar o elétrico gratuito até ao bairro medieval de Piazzo. "É como se estivéssemos noutra cidade, com bistrôs e bares pitorescos, mas fica apenas a alguns quarteirões de distância", afirma John.

Espanto entre os locais

O casal rapidamente se deixou conquistar por outro elemento da região: o esqui. Ficaram rendidos não só à paisagem e à gastronomia, mas também aos preços relativamente acessíveis - e aos bombardinos, a bebida quente à base de eggnog e brandy servida nas esplanadas da montanha. Provaram-nos pela primeira vez enquanto esquiavam em Courmayeur e referem-nos, meio a brincar, como um ponto decisivo na escolha de comprar uma casa de inverno no Piemonte.

Os vinhos do Piemonte reforçaram ainda mais o encanto pela região. Vicky começou agora a lançar as bases de um negócio de importação para os Estados Unidos.

Biella
Biella

A localização de Biella revelou-se igualmente determinante. A partir da cidade, conseguem chegar rapidamente de carro a trilhos de montanha, vinhas ou até à Riviera italiana.

Ainda assim, surpreende-os a frequência com que os habitantes locais reagem com espanto à sua presença. Como Biella fica fora das principais rotas turísticas, conversas ocasionais em cafés ou restaurantes começam muitas vezes com a mesma pergunta: "Porquê Biella?"

"Acho que muitos habitantes locais não se apercebem do quão bom é este lugar e de que têm tudo mesmo à porta de casa", aponta Vicky.

Adaptar-se ao ritmo da vida quotidiana tem sido mais difícil. O casal estava habituado à lógica das cidades americanas, onde as lojas de conveniência estão abertas 24 horas por dia. Em Biella, a maioria das lojas fecha à segunda-feira e encerra durante uma longa pausa a meio do dia. Tratar de recados exige algum planeamento.

"Esse é o nosso problema enquanto americanos: ao contrário dos italianos, temos dificuldade em abrandar e relaxar", admite John. "Pode ser um encanto que leve algum tempo a conquistar-nos, à medida que fizermos mais viagens a Itália e nos habituarmos."

Por agora, contam usar o apartamento várias vezes por ano - durante a época de esqui, no período da Ação de Graças, ou a caminho de visitas à família na Croácia.

Uma hipótese afastada desde cedo foi a de uma casa de um euro.

"Em geral, recebe-se aquilo por que se paga e, quando algo parece bom demais para ser verdade, normalmente é", diz John. "Por isso, as casas de um euro no sul nunca estiveram no nosso radar. Biella parece-nos muito mais calma e segura, tendo em conta a reputação do sul."

A região do Piemonte é conhecida pelas vinhas e pelas paisagens alpinas
A região do Piemonte é conhecida pelas vinhas e pelas paisagens alpinas

O Piemonte, com os seus invernos nevados e um cenário alpino tranquilo, correspondia a tudo o que mais valorizavam.

O casal viveu três anos em Barbados e manteve uma casa de esqui no Canadá durante 17 anos. Depois de a venderem, perceberam que sentiam falta das montanhas mais cedo do que esperavam.

"A Vicky consegue passar mais de 100 dias por ano nas pistas", aponta John. "Mas ao fim de três semanas numa praia fica impaciente."

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