Comparar o ICE (Immigration and Customs Enforcement) aos Panteras Negras (movimento revolucionário afro-americano fundado em 1966) tornou-se, para alguns, um exercício retórico interessante. No entanto, insisto, não só a comparação não faz sentido, como também revela uma tendência preocupante de se tratar realidades complexas através de narrativas simplistas de “confronto”. Com Minneapolis em plena tensão, cresce o receio de que a Lei da Insurreição, uma norma do século XIX, utilizada apenas em casos excecionais, como em Arkansas nos anos de 1960 e em Los Angeles nos anos de 1990, possa ser invocada. Ao mesmo tempo, cerca de 1.600 militares da 11.ª Divisão Aerotransportada, sediados no Alasca e treinados para condições extremas de frio, estão em prontidão para intervir na cidade. Perante este cenário, a grande questão é, para onde se dirige a segurança interna nos EUA?
De um lado, temos uma agência governamental criada em 2003 no contexto pós-11 de setembro, equipada com orçamento federal, viaturas, agentes armados e mandato legal para fiscalizar imigração e aduanas. Do outro, um movimento social fundado em 1966 para denunciar violência racial e promover direitos civis em comunidades historicamente marginalizadas.
Se o mérito de um debate público é ampliar compreensão, então colocar esses dois atores num ringue imaginário não esclarece nada, só produz ruído.
A comparação é perigosa por três motivos principais. O primeiro é a descontextualização histórica. Os Panteras Negras surgiram em plena luta pelos direitos civis, quando a brutalidade policial contra negros era regra e não exceção. O movimento existiu num tempo em que grande parte do Estado ignorava, quando não incentivava, desigualdades raciais. Já o ICE opera numa moldura institucional completamente distinta, motivada por debates contemporâneos sobre imigração e segurança nacional.
O segundo problema é a simetria falsa. Não existe equivalência entre uma agência federal com poder coercivo oficial e um movimento social de base comunitária que porta nos seus elementos armamento de guerra. Um tem autoridade legal para deter e deportar, o outro cresce com o sentido humanista de distribuir pequenos-almoços gratuitos a crianças e defendia autodeterminação política, hoje, tornou-se uma “guerrilha” armada de combate à lei. Equipará-los é misturar Estado e sociedade civil como se fossem peças do mesmo tabuleiro, e não são.
O terceiro motivo é a normalização do conflito como linguagem política. Ao perguntar “quem ganharia?”, legitima-se a ideia de que disputas sociais se resolvem como lutas de claques, na força, na humilhação ou no espetáculo. Essa lógica beneficia quem prefere espetáculo a entendimento, e afasta as perguntas muito mais importantes: como tratar imigrantes de forma humana? Como enfrentar o racismo estrutural? Como garantir segurança sem sacrificar direitos?
Não se trata de defender um lado ou demonizar o outro, mas de reconhecer o óbvio: debates sobre Estado, polícia, imigração e direitos civis não devem ser reduzidos a narrativas de confronto. Temos responsabilidade, enquanto leitores, jornalistas, políticos ou simples observadores, de exigir debates que iluminem, não que empobreçam.
Num tempo em que até a história vira momentos de TikTok, vale insistir numa regra simples: comparar só é útil quando ajuda a entender. Quando cria ruído, confusão e falsa simetria, é melhor abandonar a metáfora e encarar os fatos que dai advêm.